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Por que Ibovespa não reagiu ao payroll revisado e a votos do julgamento de Bolsonaro?

Visão é de leitura já precificada do mercado para os eventos

Lara Rizério Agências de notícias

Painel de cotações na B3, em São Paulo
(Foto: REUTERS/ Amanda Perobelli)
Painel de cotações na B3, em São Paulo (Foto: REUTERS/ Amanda Perobelli)

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O Ibovespa fechou próximo à estabilidade nesta terça-feira (9), mesmo em dia de sinalizações bastante importantes.

Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa cedeu 0,12%, a 141.618,29 pontos, após marcar 141.605,45 pontos na mínima e 142.285,53 pontos na máxima. O volume financeiro somou apenas R$18,4 bilhões.

No fim da manhã, o Escritório de Estatísticas do Trabalho (BLS) do Departamento do Trabalho dos EUA informou que a economia do país provavelmente havia criado 911.000 empregos a menos nos 12 meses até março, na comparação com a estimativa anterior, sugerindo que a criação de vagas já estava arrefecendo antes das tarifas agressivas sobre importações implementadas pelo presidente Donald Trump.

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A leitura é uma estimativa preliminar da revisão anual feita pelo Departamento do Trabalho para os dados de emprego. Uma vez por ano, o departamento compara seus dados do emprego fora do setor agrícola, levantados com base em pesquisas mensais de uma amostra de empregadores, com um banco de dados muito mais completo de registros de impostos de seguro-desemprego, os dados do Censo Trimestral de Emprego e Salários (QCEW).

Após a divulgação, as apostas em um corte de juros de 25 pontos-base na próxima semana pelo Fed, que já estava precificado, permaneceram intactas após os números, enquanto as de uma redução de 50 pontos-base ficaram em cerca de 10%, de acordo com a ferramenta FedWatch da CME.

Indicadores recentes do mercado de trabalho já vinham gerando preocupações entre investidores e autoridades do Fed, com os dados do relatório payroll de julho e agosto confirmando o enfraquecimento das condições no mercado de trabalho.

A revisão dos dados de emprego veio na esteira das notícias da última sexta-feira de que o crescimento do emprego quase estagnou em agosto e que a economia perdeu empregos em junho pela primeira vez em quatro anos e meio.

Além de ser prejudicado pela incerteza decorrente da política comercial, o mercado de trabalho também foi pressionado pela repressão à imigração da Casa Branca, que reduziu a oferta de mão de obra. A adoção pelas empresas de ferramentas de inteligência artificial e de automação também está reduzindo a demanda por trabalhadores.

Os economistas viram pouco impacto da revisão do crescimento do emprego sobre a política monetária, com a expectativa de que o Federal Reserve retome o corte das taxas de juros na próxima quarta-feira (17), depois de ter interrompido seu ciclo de flexibilização em janeiro devido à incerteza sobre o impacto das tarifas.

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Desta forma, o mercado reagiu de forma tímida, com o Ibovespa fechando perto da estabilidade.

Para Thiago Calestine, economista e sócio da Dom Investimentos, o dado revisado tem impacto no mercado, mas amortecido.

“Quando vemos o payroll de março a março com uma revisão mais negativa, o que esperamos do Fed? Que ele adote uma postura um pouco mais dovish [branda, de corte de juros] e reduza a taxa de juros de uma forma um pouco mais agressiva. Ou seja, que ele fizesse política monetária um pouco mais expansionista de uma forma mais agressiva”, avalia Calestine.

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Contudo, o especialista avalia que a autoridade monetária não fará isso uma vez que, por mais que os últimos dados tenham aparecido como fracos e a taxa de desemprego tenha subido, o dólar mais fraco globalmente leva a uma inflação mais resiliente e inercial nos EUA.

“Não há um espaço muito grande na economia americana para começar a cortar juros de uma forma mais agressiva do que o precificado no mercado, porque a inflação pode sair do controle”, avalia.

Assim, o mercado já está precificando uma altíssima probabilidade do primeiro corte acontecer em setembro. “Teríamos assim um corte de 25 bp [pontos-base, ou 0,25 ponto percentual], mas terminaríamos o ano no dia 10 de dezembro com apenas mais um corte de 25 bp, totalizando 50 bps até o fim de 2025”, avalia.

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Para Calestine, não há muito mais espaço para fazer política monetária expansionista porque a inflação não permite. “As últimas medidas de inflação, tanto o núcleo do PCE quanto o CPI, estão vindo ou em linha ou um pouco acima do esperado”, avalia.

Para ele, se a inflação estivesse numa trajetória de queda, esse número do emprego com certeza colocaria mais pressão nos ombros do Fed para cortar juros de uma forma mais agressiva. Mas, como a inflação não está cedendo, mesmo essa revisão para baixo não foi suficiente para o mercado colocar no preço um ajuste mais forte.

No cenário doméstico, investidores também voltaram as atenções para Brasília, onde a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) retomou o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e outros réus por tentativa de golpe de Estado.

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O ministro Alexandre de Moraes, relator do processo, votou nesta terça-feira pela condenação do ex-presidente por tentativa de golpe de Estado e outros quatro crimes no processo em que o Bolsonaro é réu ao lado de outras sete pessoas, que também tiveram voto pela condenação proferido por Moraes.

Na visão do coordenador de operações na Blue3 Investimentos, João Marcos Vicente de Souza, o julgamento do ex-presidente continua no foco de investidores, mas o desempenho “lateralizado” da bolsa nesta sessão sinaliza que talvez o voto de Moraes já tenha sido em boa parte precificado.

“A bolsa poderia estar repercutindo de uma maneira um pouco mais agressiva, tanto positivamente quanto negativamente.”

Posteriormente, o ministro Flávio Dino acompanhou Moraes e votou para condenar Bolsonaro e mais 7, mas com ressalva sobre penas.

Após esses votos, a previsão é de que os ministros Luiz Fux, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin manifestem suas decisões. De acordo com agentes financeiros, há um certo receio acerca de eventuais retaliações dos Estados Unidos ao desfecho do julgamento.

Por causa do processo contra Bolsonaro, o governo do presidente Donald Trump impôs sanções a Moraes no final de julho por considerá-lo um violador de direitos humanos. Trump também citou o caso de Bolsonaro para impor tarifa comercial de 50% sobre produtos brasileiros exportados aos EUA.

(com Reuters)

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.