Por que as ações da Oncoclínicas disparam mesmo após prejuízo de quase R$ 2 bilhões?

Mercado já esperava números fracos de ONCO3 e passou a enxergar que a limpeza no balanço e o aumento de capital podem abrir espaço para uma fase menos pesada à frente

Murilo Melo

Oncoclínicas (Divulgação)
Oncoclínicas (Divulgação)

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As ações da Oncoclínicas (ONCO3) disparavam 20,69%, a R$ 2,10, por volta das 11h55 (horário de Brasília) desta segunda-feira (17), mesmo depois de a empresa reportar um prejuízo contábil de quase R$ 2 bilhões no terceiro trimestre deste ano (3T25).

A leitura dos analistas ajuda a entender esse movimento: o mercado já esperava números fracos e passou a enxergar que a melhora no caixa, o corte de convênios considerados problemáticos, o avanço no ciclo financeiro e o aumento de capital criaram a impressão de que a empresa pode ter atravessado a parte mais difícil da reestruturação, uma espécie de limpeza no balanço. Para quem acompanha o papel, esse tipo de mudança costuma pesar mais que o resultado negativo do trimestre.

O JPMorgan, que mantém recomendação underweight (abaixo da média do setor; indica que o banco vê potencial de desempenho inferior ao dos pares) para ONCO3, afirma que o trimestre veio abaixo das estimativas. O lucro por ação ajustado ao controlador ficou em -R$ 0,18, pior que os +R$ 0,01 de um ano antes e distante da projeção do próprio banco, que esperava -R$ 0,05. O JPMorgan aponta queda de receita após a decisão da empresa de reduzir exposição a operadoras que pagam com prazos mais longos. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado recuou cerca de 30% e fechou em R$ 204 milhões.

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O banco também chama atenção para o consumo de caixa de R$ 150 milhões no trimestre e de aproximadamente R$ 700 milhões em doze meses, além da alavancagem elevada, que segue próxima de sete vezes dívida líquida sobre Ebitda. Para o JPMorgan, o ponto central do trimestre foi o bloco de baixas contábeis de cerca de R$ 1,8 bilhão.

Os ajustes incluem a provisão integral de R$ 865 milhões do recebível da Unimed Ferj, o corte de R$ 466 milhões ligados a três hospitais e os R$ 217 milhões associados ao Banco Master. O banco diz que o conjunto poderia pressionar o papel, embora o investidor tenha direcionado a atenção para outro lado.

Esse outro lado aparece com mais clareza na avaliação do Goldman Sachs, que mantém recomendação neutra (o banco não vê potencial relevante nem de alta nem de queda; sugere que a ação tende a acompanhar o mercado). O Goldman lembra que as baixas não recorrentes de R$ 1,6 bilhão representam aproximadamente 70% do valor de mercado da companhia e estão ligadas a dívidas antigas, projetos cancelados e vendas de ativos.

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Mesmo assim, os analistas avaliam que a geração orgânica de caixa foi positiva em R$ 84 milhões, auxiliada por uma melhora importante no capital de giro. O fluxo de caixa operacional subiu para R$ 151 milhões, depois de ter sido negativo em R$ 449 milhões no trimestre anterior, com a empresa reduzindo a atuação junto a convênios considerados financeiramente frágeis.

O Goldman observa que a dívida líquida cresceu R$ 170 milhões por causa da provisão de R$ 217 milhões referente ao Banco Master, mas lembra que o aumento de capital de R$ 1,4 bilhão, que será liquidado financeiramente nesta terça-feira (18), deve aliviar a estrutura financeira. Nas projeções do banco, a alavancagem tende a cair para 3 vezes dívida líquida sobre Ebitda ajustado, já incluindo os efeitos do padrão contábil IFRS 16, que regula o reconhecimento de contratos de arrendamento. Para o Goldman, a ação só deve recuperar múltiplos mais altos quando a empresa mostrar geração recorrente de caixa, embora o banco veja avanço recente na venda de ativos e no fim do contrato com a Unimed ferj.

O Bradesco BBI, que mantém recomendação underperform (abaixo do desempenho esperado; indica que o banco vê retorno potencial inferior ao do mercado), apresenta leitura parecida com a do Goldman. Os estrategistas afirmam que a operação mostrou melhora, mesmo com o Ebitda 4% abaixo da estimativa interna. A queima de caixa foi menor do que se previa, R$ 170 milhões frente aos R$ 307 milhões esperados.

O BBI aponta que o ciclo de caixa avançou 16 dias no trimestre, chegando a 25 dias. Os recebíveis, excluindo ferj, caíram para 88 dias. O Ebitda cresceu 36% no trimestre e teria alcançado R$ 234 milhões ao ajustar o efeito dos hospitais vendidos. O aumento de capital de R$ 1,415 bilhão também entrou no radar e reduziu a dívida líquida pró-forma para R$ 2,9 bilhões, algo próximo de 3,7 vezes o Ebitda anualizado sem IFRS 16. O banco afirma que mantém a recomendação negativa por ora, mas admite que a queda de 66% das ações em três meses e a melhora operacional diminuem parte do risco.