Por que a inflação de alimentos não vai salvar o atacarejo? Veja o que diz o JPMorgan

Enquanto a alta nos preços dos alimentos deveria impulsionar as vendas e o ticket médio, o avanço de uma nova dinâmica rebaixa o consumo e trava a recuperação de gigantes como Assaí e Grupo Mateus

Victória Anhesini

Ativos mencionados na matéria

Inflação de alimentos (Foto: Michaela Kostadinova / Unsplash)
Inflação de alimentos (Foto: Michaela Kostadinova / Unsplash)

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O JPMorgan optou por manter uma recomendação mais cautelosa sobre o setor de atacarejo no Brasil. Em relatório divulgado nesta sexta-feira (17), os analistas do banco de investimentos projetam que o segmento vai continuar com um desempenho abaixo da média nos próximos trimestres. 

De acordo com o documento, a aceleração esperada na inflação de alimentos não deve se traduzir em crescimento real de receita, devido ao forte endividamento das famílias e à migração para produtos mais baratos. 

Outro ponto de atenção dentro da análise diz respeito a uma nova dinâmica de consumo: as famílias estão desviando o orçamento para apostas online e medicamentos de perda de peso.

Mudanças no orçamento familiar

Os hábitos de famílias de média e baixa renda estão mudando profundamente. O setor de atacarejo sente mais essas alterações, já que essas famílias são as que compõem o público-alvo tradicional do segmento. 

Dados compilados pela ABAD (Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores) indicam que o orçamento doméstico, já estressado, está sofrendo com os desvios em direção a plataformas de apostas digitais e medicamentos voltados à perda de peso da classe GLP-1.

A extensão desse fenômeno foi mapeada por consultorias especializadas. O JPMorgan aponta que, segundo dados da NielsenIQ, aproximadamente 5% dos lares brasileiros já possuem algum integrante fazendo uso de medicamentos da classe GLP-1. 

Paralelamente, cerca de 26% do total de famílias registraram envolvimento regular com apostas ao longo de 2025, um avanço de quase duas vezes na comparação anual. O impacto financeiro direto desse ecossistema sobre o varejo de alimentos é expressivo.

“Em termos de magnitude, dados de março de 2026 apontam para entradas da ordem de cerca de R$ 30 bilhões por mês em plataformas de apostas, enquanto o GGR total (Receitas Brutas de Jogos, ou seja, o montante apostado menos o montante ganho / perda líquida das famílias) cruzou R$ 37 bilhões no ano fiscal de 2025, equivalente a cerca de 5% das vendas totais da ABRAS (Associação Brasileira de Supermercados)”, apontam os analistas do JPMorgan.

Conforme dados da ABAD, os consumidores trocam partes do orçamento para alimentar as apostas, e essa substituição alcança números preocupantes: a categoria alimentícia sofre um corte de 47%, e a categoria de despesas residenciais se aproxima, com 45%.

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Inflação

Além do aspecto de apostas online e canetas emagrecedoras, a inflação prevista para os próximos meses não deve ajudar o setor, como antes esperado.

O otimismo de que o avanço nos preços repassados ao consumidor poderia inflar o SSS (Vendas nas Mesmas Lojas) esbarra em uma incapacidade histórica de execução operacional das companhias. 

O JPMorgan realizou um estudo com dados da ABRAS (Associação Brasileira de Supermercados) cobrindo os anos de 2019 a 2025 — intervalo que inclui picos inflacionários mais fortes durante a pandemia da Covid-19. A conclusão foi que nenhum dos operadores avaliados conseguiu expandir a produtividade de sua área de vendas acima da inflação do período.

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Mesmo os grandes players, como a Sendas Distribuidora – que opera sob a marca Assaí (ASAI3) – e o Atacadão, controlado pelo Carrefour Brasil, mostraram dificuldades crônicas nessa frente. 

As companhias possuem um faturamento por metro quadrado superior à média do mercado, porém ambas ficaram abaixo da média nacional em termos de avanço na produtividade.

A análise trimestral conduzida de 2017 ao primeiro trimestre de 2025 aponta que o Assaí e o Atacadão só superaram a inflação de alimentos na produtividade de suas lojas maduras em 30% dos trimestres avaliados.

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“Os varejistas normalmente não conseguem vencer a inflação de alimentos, particularmente quando ela oscila rapidamente (como fez este ano), ficando aquém em várias janelas e com as empresas listadas tendendo abaixo da média”, diz o documento do JPMorgan.

Teses de investimento

A preferência setorial do JPMorgan recai sobre o Assaí em detrimento do Grupo Mateus (GMAT3), em função de tendências de operação consideradas ligeiramente superiores. No entanto, o banco optou por manter uma postura neutra para as ações da companhia, cortando o preço-alvo para R$ 9,50 ao fim de 2026.

Os analistas enxergam um ritmo de vendas vulnerável para o segundo trimestre de 2026, projetando um SSS negativo de 0,4%. Para o fechamento do ano, a expectativa é de uma expansão tímida de 3% no faturamento bruto, acompanhada de uma margem Ebitda (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustada estável em 5,8%. A grande barreira para a última linha do balanço é o cenário macroeconômico de juros mais altos.

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Os analistas esperam que a empresa negocie a 10 vezes o P/E (Preço sobre Lucro) ajustado para 2027. Além disso, eles apontam que o Assaí é visto com múltiplos esticados e um prêmio injustificado perante o setor, dados os riscos operacionais e o balanço alavancado.

Ao mencionar a situação do Grupo Mateus, os analistas do JPMorgan enxergam o cenário com mais pessimismo, com a recomendação de venda para as ações da companhia. 

O banco projeta um trimestre difícil pela frente, estimando um SSS negativo na casa de um dígito médio para o segundo período do ano. No consolidado de 2026, a projeção é de um avanço de 8% no faturamento, mas com uma contração de 80 pontos-base na margem Ebitda ajustada, que deve recuar para 6,5%.