Incerteza no mercado

Por que a Arábia Saudita deflagrou uma guerra de preços que fez o petróleo desabar – e o que esperar agora

Expectativa é de guerra de preços prolongada entre Rússia e Arábia Saudita, que pode levar petróleo a US$ 20 e afetar fortemente o mercado brasileiro

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SÃO PAULO – Como se não bastasse o coronavírus levar a uma forte aversão ao risco e fazer as bolsas pelo mundo desabarem, entre o fim da semana passada e o começo desta, um outro fator de risco vem abalando fortemente as bolsas pelo mundo.

Trata-se da forte tensão da última reunião da Opep+, que inclui os maiores produtores do mundo, além da Rússia. O imbróglio teve como protagonistas a Arábia Saudita e o país governado por Vladimir Putin, levando a uma derrocada do preço do barril brent de até 31% no último pregão, na maior baixa desde a Guerra do Golfo de 1991.

Na última sexta-feira (9), os preços do petróleo tipo brent já tinham caído 9,3%, a US$ 45,40 o barril, após os países da Opep+ não chegarem a um acordo para realizar cortes adicionais na produção para reduzir a oferta coletiva em mais de 1,5 milhão de barris por dia de forma a diminuir o impacto do coronavírus sobre a demanda pela commodity.

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O imbróglio ocorreu por desacordo entre a Arábia Saudita e a Rússia, interrompendo uma parceria de mais de quatro anos que ajudou a reequilibrar os preços do petróleo após a commodity atingir mínimas de US$ 28 em janeiro daquele ano.

Porém, o pior ainda estaria por vir. A Arábia Saudita iniciou durante o fim de semana um processo de retaliação ao fracasso do acordo, anunciando uma queda do preço oficial de venda do barril para abril entre US$ 6 e US$ 8 o barril. Além disso, ela planeja elevar a sua produção para acima de 10 milhões de barris por dia (bpd) em abril, depois que expirar o acordo atual para restringir a produção entre os integrantes da Opep+, o que ocorrerá no fim de março.

Vale ressaltar que a Rússia não quis ceder a uma iniciativa liderada pelos sauditas para obrigá-la a se juntar ao cartel nos cortes de produção por um motivo em especial. A ideia de Moscou era pressionar os produtores de gás de xisto dos EUA, que elevaram a sua produção enquanto os países que formavam a Opep+ reduziam a sua produção.

Muitas empresas americanas vem perdendo dinheiro e correm risco de falir, a não ser que haja um forte aumento dos preços. Mesmo antes da reunião sem acordo na sexta-feira, bancos já restringiam empréstimos aos perfuradores de gás de xisto, destacou a Bloomberg.

Por mais que os russos também fossem prejudicados, os produtores do país são mais resistente a preços mais baixos. Os russos possuem moeda flutuante – ao contrário da Arábia Saudita – e podem sustentar o orçamento com receitas de petróleo menores.

“A Rússia e o presidente Putin estão em melhor posição para lutar nesta guerra do que a Arábia Saudita ou seu príncipe herdeiro”, destacou à Bloomberg Chris Weafer, CEO da Macro Advisory, consultoria com sede em Moscou. Tanto estão, que Moscou disse ser capaz de suportar os preços baixos por até uma década.

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Desta forma, enquanto o foco da Rússia era a produção americana, quem pode sofrer mais no curto prazo é a Arábia Saudita. Uma eventual vitória saudita teria um custo que talvez não possa ser arcado pelo país.

Conforme destaca o Abu Dhabi Commercial Bank, caso o petróleo Brent permaneça em US$ 35 sem um ajuste nos gastos, a Arábia Saudita teria um déficit de quase 15% do PIB em 2020. Já as reservas internacionais líquidas poderiam esgotar-se em cerca de cinco anos, a menos que o país use outras fontes de financiamento. O setor de energia responde por cerca de 80% das exportações do reino e por 66% da receita fiscal.

“A Arábia Saudita acumulou reservas significativas que a permitirão enfrentar um período prolongado de preços baixos, mas isso pode ter um custo”, disse Tarek Fadlallah, CEO da unidade de Oriente Médio da Nomura Asset Management, para a Bloomberg. “O custo é o dinheiro que poderia ser usado para ajudar a diversificar a economia.”

O que esperar?

Com esse cenário se desenhando no mercado, analistas de mercado não descartam que o preço da commodity possa chegar a US$ 20 nas próximas semanas, como apontado pelo Goldman Sachs e Bank of America.

O evento do fim de semana mudou completamente as perspectivas para os mercados de petróleo e gás, disse o Goldman, que reduziu as previsões para o segundo e terceiro trimestres para US$ 30 o barril, mas não descarta que a commodity possa cair para a casa dos US$ 20 no curto prazo.

“Acreditamos que a guerra dos preços do petróleo da Opep e da Rússia começou inequivocamente neste fim de semana”, apontaram os analistas. “O prognóstico para o mercado de petróleo é ainda mais sombrio do que em novembro de 2014”, quando houve a última guerra de preços, já que coincide com o colapso significativo na demanda por petróleo devido ao coronavírus.

Na mesma linha, Ali Khedery, ex-conselheiro sênior da Exxon para o Oriente Médio e agora CEO da empresa americana de estratégia Dragoman Ventures, destacou: “Está chegando em 2020 o petróleo a US$ 20. As implicações geopolíticas são enormes”, avaliou em post no Twitter.

O BofA, que também não descarta que o brent caia na faixa de US$ 20 por algumas semanas, traça alguns cenários para o mercado de commodities. Eles avaliam que é importante questionar se essa nova ação saudita está sendo travada contra a Rússia ou contra o xisto dos EUA.

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Os analistas do banco americano reduziram as previsões do brent de US$ 54 para US$ 45 o barril em 2020 e os valores do WTI de US$ 49 para US$ 41. “Não assumimos mais que a Arábia Saudita tentará equilibrar o mercado de petróleo, e nossas projeções mostram agora uma grande oferta no mercado de petróleo neste ano”, apontam os analistas do BofA.

Já para 2021, o banco americano revisou os preços de US$ 60 para US$ 55, sem descartar um cenário de barril a US$ 50 se a demanda permanecer fraca e a guerra de preços continuar. “No entanto, mesmo que os riscos negativos estejam crescendo, a longo prazo ainda acreditamos que o brent é uma commodity de US$ 50 a US$ 70 devido à dinâmica global dos custos de produção de petróleo”, completam.

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Para eles, se os sauditas ofereceram descontos ao mercado com a intenção de trazer a Rússia de volta à mesa de negociações, os preços poderão se recuperar um pouco mais rápido.

Contudo, avaliam, se a guerra de participação de mercado estiver sendo travada contra o gás de xisto dos EUA, é provável que haja uma queda mais duradoura no preço do petróleo. Para o BofA, neste cenário, a projeção do barril mudaria de US$ 45 para US$ 40 porque a recuperação no segundo semestre seria menos provável.

“Olhando para trás, vemos que o fornecimento de xisto nos EUA proporcionou cerca de 10 milhões de barris por dia de crescimento da oferta de petróleo e gás liquefeito na última década. No entanto, a produção nos EUA é muito sensível ao preço e provavelmente sofrerá bastante à medida que o petróleo caia”, destaca o BofA.

O Bradesco BBI, por sua vez, revisou para baixo as suas expectativas para os preços do brent de US$ 65 para US$ 35 o barril este ano, com a cotação avançando gradualmente para US$ 55 o barril no longo prazo. Para a equipe de análise do banco, o movimento surpreendente dos sauditas pode ser uma tentativa de trazer a Rússia de volta à mesa de negociações. Contudo, eles não avaliam que essa “queda de braço” será vencida rapidamente. Assim, é difícil saber quanto esse imbróglio terminará, devendo trazer resultados negativos por um longo período.

Os impactos no Brasil

Assim como nos mercados do mundo todo, o primeiro reflexo da derrocada do petróleo foi na bolsa, com o Ibovespa caindo mais de 12%. O pior desempenho ficou para a Petrobras, que viu suas ações desabarem 30% em meio às incertezas sobre os impactos deste novo cenário.

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Mais cedo, a estatal afirmou que está monitorando o petróleo e que ainda é prematuro projetar os efeitos da queda dos preços do barril em suas operações. Apesar disso, a petroleira não deu indicações se fará alguma revisão no preço dos combustíveis por conta da queda do petróleo.

Analistas lembram que uma das alternativas que o governo tem para ajudar a Petrobras neste momento é aumentar a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), um dos impostos que incide sobre os combustíveis.

Porém, o presidente Jair Bolsonaro já declarou em seu Twitter hoje que “não existe a possibilidade” de o governo elevar a tributação. Segundo Bolsonaro, a estatal manterá sua política de preços, que segue a cotação do petróleo, o que, segundo ele deve resultar em uma redução do preço dos combustíveis nas refinarias.

Segundo Rafael Schiozer, professor de finanças da FGV EAESP, se a queda do barril de petróleo perdurar, realmente os combustíveis devem cair, mas isso não será algo imediato e pode não ser tão forte quanto se imagina.

“Tem alguns fatores envolvidos: se o preço baixo dos barris perdurar e a Petrobras mantiver sua política de repassar os preços internacionais, o valor do combustível na bomba deve cair nas próximas semanas, mas esse processo nunca é imediato. Ainda, essa queda no preço deve ser revertida em breve, não totalmente mas boa parte do preço deve ser recuperado”, afirma.

Ele explica ainda que o rali do dólar também tem seu peso nessa conta. “Na prática, a alta do dólar deve compensar parte da queda do preço do barril. O rali de alta da moeda está muito forte. Por isso, esse repasse da Petrobras para o consumidor final deve acontecer gradualmente, e dependendo do comportamento do dólar, o impacto líquido dessa redução será pequeno em termos numéricos”.

Além de Bolsonaro, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, também reforçou que o governo não estuda neste momento nenhuma medida emergencial para conter a derrocada do petróleo. “No momento não há nenhuma medida emergencial que será adotada pelo Executivo. Estamos acompanhando e no momento oportuno serão adotadas as medidas necessárias”, afirmou ele.

Apesar da situação, entre os analistas apenas a equipe do Bradesco BBI já revisou suas projeções para a Petrobras, reduzindo sua recomendação para neutra enquanto aguarda mais detalhes para avaliar os impactos na companhia. O preço-alvo foi cortado de R$ 38 para R$ 23,50.

Segundo os analistas, a desalavancagem da companhia deve levar “muito mais tempo”, com a dívida líquida/EBITDA caindo abaixo de 1,5 vez após 2025. Com isso, eles avaliam que “dividendos mais altos não devem ocorrer tão cedo”.

Já o Morgan Stanley, sem revisar suas projeções, destacou que os campos competitivos do pré-sal devem tornar a Petrobras o player mais bem posicionado dentre os que eles cobrem, enquanto a colombiana Ecopetrol pode ficar entre as mais pressionadas.

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