Melhores da Bolsa

Populismo fiscal, reforma ou Fed: economistas do JP Morgan e da WHG discutem o que vai impactar mais o mercado brasileiro

Rebalanceamento de fatores que podem impactar a economia tornou-se prioridade em junho, com medidas e novos fatos que afetam o horizonte no longo prazo

Por  Ricardo Bomfim -

SÃO PAULO – A soma de política monetária mais dura tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos com entrega de reforma tributária pelo governo ao Congresso fez com que esse final de junho ficasse marcado pelo rebalanceamento de riscos no mercado.

Para ajudar o investidor a enxergar as consequências desses eventos e traçar perspectivas, Cassiana Fernandes, economista-chefe para o Brasil do JP Morgan e Tony Volpon, estrategista-chefe da Wealth High Governance (WHG), deram suas opiniões no evento Melhores da Bolsa do InfoMoney.

Na avaliação de Cassiana, um dos riscos no horizonte brasileiro é o populismo fiscal, que pode inverter a trajetória de apreciação do real registrada nos últimos meses. “As empresas estão otimistas, mas chegando para o fim do ano teremos um ambiente um pouco mais delicado para ativos brasileiros. Final do ano é a época de discussão do Orçamento”, lembra.

Cassiana entende que o espaço aberto no teto de gastos graças à surpresa no Produto Interno Bruto (PIB) e na arrecadação federal no primeiro trimestre será certamente usado para aumentar alguns gastos sociais. Entretanto, a dúvida que ficaria é se esse gasto será usado para aumentar a eficiência da economia ou para render dividendos políticos em 2022.

“Ainda teremos muita volatilidade no âmbito fiscal no fim do ano. Vejo o dólar fechar em R$ 5,40 até o final deste ano”, projeta a economista do JP.

Mais otimista, Volpon prevê um dólar encerrando 2021 a R$ 4,75. Na opinião dele, os fundamentos externos são positivos e os termos de troca da economia brasileira estão muito melhores hoje do que estavam em 2010, quando o câmbio operava entre R$ 2,00 e R$ 3,00.

“As pessoas estão pensando nos condicionantes desses últimos 10 anos, que foram uma década perdida, por isso não enxergam o quanto nossos fundamentos mudaram”, diz.

O economista se mostrou otimista com o andamento de reformas como a tributária e a administrativa, admitindo a possibilidade de aprovação de alguma delas ainda este ano. “Eu acho que o ímpeto reformista tem durado mais do que muitas pessoas pensavam. O ponto é a qualidade do produto final. Considerando as restrições do nosso sistema político acho que as coisas estão andando bem.”

Sobre o texto da reforma tributária, houve uma certa concordância entre os economistas. Volpon afirmou que sem uma simplificação efetiva no sistema tributário nacional é difícil chamar o projeto de reforma: “acaba sendo mais um rearranjo”. Cassiana, por sua vez, elogiou a busca por maior progressividade na tributação, porém ressaltou que o texto atual eleva a carga de impostos para as empresas.

Os dois apontam, entretanto, que é muito cedo para dar uma opinião sobre a reforma tributária, uma vez que os parlamentares devem colocar muitas emendas e destaques na redação atual, que tem sido bastante debatida na Câmara dos Deputados.

Fed pode abortar crescimento global

No ponto que considerou ser de maior relevância no longo prazo, Volpon disse que o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, “pode abortar o crescimento global” dependendo de como conduzir sua política monetária daqui para frente.

“Temos que distinguir os dois choques inflacionários, o de oferta, com picos de inflação, e o choque estrutural de demanda, que não deve se normalizar tão facilmente ao longo do tempo”, explica.

O economista da WHG comenta que a recessão provocada pela pandemia do coronavírus foi muito atípica, talvez única na história, pois o cidadão americano não teve uma implosão no seu patrimônio como em 2008. “As famílias americanas estavam no topo do ciclo de prosperidade em termos de posição patrimonial”, relembra.

Todavia, as medidas de isolamento social reduziram o ritmo da atividade, provocando demissões e obrigando o governo dos EUA a elevar o gasto fiscal em níveis só comparáveis aos da Segunda Guerra Mundial ao mesmo tempo em que o Fed expandiu muito o seu balanço.

“O que veremos nos EUA é o descompasso entre oferta e demanda. É isso que vai puxar a inflação para cima. Quando os componentes transitórios acabarem teremos uma inflação bem acima do que o mercado espera no momento”, previu.

Para ele, quando o Fed começar a retirar estímulos, poderá tomar dois caminhos, o gradual realizado de 2004 a 2008 ou a alta abrupta e inesperada de 1994, que provocou uma grave crise nos países emergentes. Ou seja, em suas próprias palavras: “a grande dúvida é se esse ciclo acaba mal ou bem.”

Menos alarmista, Cassiana acredita que o repique inflacionário nos EUA é transitório e o objetivo da condução econômica nos EUA foi estimular esse aumento da inflação, com mudança explícita do regime de metas, destacou. Para ela, o Fed tem os instrumentos para lidar com a inflação mais alta e conta com muita credibilidade no mercado.

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