Populismo de Trump catapulta o Brasil na visão de investidores globais

Investidor estrangeiro vê Brasil como único na região capaz de absorver o fluxo, com queda da Selic como catalisador; para eles, eleição não importou até aqui

Paulo Barros

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A leitura de que os Estados Unidos passaram a se comportar como um “emergente populista” está se consolidando na percepção de investidores globais, que passam a ver o Brasil como um dos principais destinos do fluxo que sai de ativos americanos.

Segundo o Bradesco BBI, encontros recentes com investidores nos EUA reforçaram essa visão: “Os EUA estão cada vez mais sendo percebidos como um ‘mercado emergente populista’. Essa comparação, que antes era anedótica, agora se tornou mais disseminada entre os investidores”.

As razões são as já conhecidas: a interferência do governo Trump nas instituições, como o Federal Reserve, e as incertezas fiscais e de política comercial. Juntas, elas enfraquecem o dólar e levam capital para mercados emergentes.

Oportunidade com segurança!

É aí que o Brasil se destaca. O banco relata que o interesse por ativos brasileiros é maior do que o peso do país nos índices globais sugeriria. Embora represente cerca de 4% do MSCI de mercados emergentes, o Brasil concentra atenção desproporcional dos investidores por combinar liquidez, valuation e potencial de retorno.

Isso porque a Bolsa brasileira é vista como o único mercado da América Latina capaz de absorver volumes relevantes de capital estrangeiro, o que reforça seu papel como porta de entrada regional. “O Brasil é o mercado âncora da América Latina e o único com liquidez verdadeiramente escalável na região”, dizem os analistas.

O fluxo estrangeiro vem sendo responsável por recordes seguidos do Ibovespa em 2026. O índice chegou a ultrapassar os 180 mil pontos pela primeira vez na última sexta-feira (23) e encerrou o pregão aos 178.858 pontos. Na semana, acumulou ganhos de 8,53%, a melhor semana desde a primeira de abril de 2020, quando registrou alta de 11,71%.

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Na última semana, investidores estrangeiros foram compradores líquidos de R$ 7,7 bilhões, elevando o fluxo acumulado no mês para R$ 12,4 bilhões, a metade do ano de 2025 inteiro.

Eleições começam a entrar no radar (só agora)

Além do cenário externo, os investidores veem no Brasil dois gatilhos para 2026. O primeiro é o início esperado do ciclo de corte de juros, partindo de uma das maiores taxas reais do mundo. O consenso captado pelo banco é de cortes entre 200 e 300 pontos-base ao longo do ano, o que levaria a Selic de 15% a um nível entre 13% e 12%.

O segundo é o ciclo eleitoral. A eleição passou só agora a ocupar o centro das discussões, principalmente pelo impacto fiscal das propostas em debate. Ainda assim, o Bradesco BBI relata que o risco fiscal é visto como “ruim, mas administrável”, e não como um fator capaz de desorganizar o cenário macro.

Apesar do interesse elevado, o banco observa que poucos investidores estão se posicionando diretamente para a eleição. Muitos já estão overweight em Brasil, mas preferem aguardar episódios de volatilidade para aumentar exposição.

A leitura é que investidores estrangeiros enxergam o cenário brasileiro como mais assimétrico do que os investidores locais e estariam dispostos a comprar eventuais quedas provocadas pelo noticiário político.

Nos encontros, as perguntas se concentraram em empresas com capacidade de capturar tanto o cenário global quanto o doméstico. Entre os nomes mais citados estão Petrobras (PETR3;PETR4), Vale (VALE3), Weg (WEGE3 e BTG Pactual (BPAC11).

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Com esse pano de fundo, o Bradesco BBI mantém recomendação overweight (equivalente a compra) para o Brasil e aponta o país como sua principal aposta na América Latina.

Paulo Barros

Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa)