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Moro no Senado: como foi o desempenho do ministro em audiência sobre os vazamentos?

Em sessão com mais de 8h de duração, ex-juiz da Lava-Jato critica atuação de hackers, não reconhece autenticidade das conversas vazadas e defende sua conduta. Analistas comentam atuação

Sérgio Moro
(Pedro França/Agência Senado)

SÃO PAULO - Dez dias após a primeira divulgação de conversas mantidas com o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato, o ex-juiz da operação e atual ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, participou de audiência pública na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal para tratar do assunto.

Na maior parte de suas intervenções, a figura mais popular do governo Jair Bolsonaro (PSL) insistiu na crítica à atividade ilegal dos hackers que invadiram seu celular e os dispositivos de procuradores, não reconheceu a autenticidade das informações divulgadas pelo site The Intercept Brasil e defendeu que nenhuma das conversas representaria uma ação irregular no exercício da magistratura.

"Estou absolutamente tranquilo em relação à conduta que realizei como juiz. Houve aplicação imparcial da lei em casos graves de corrupção e lavagem de dinheiro", afirmou. O atual ministro defendeu que contatos entre juízes, advogados, membros do Ministério Público e policiais federais é comum à realidade brasileira.

Em sua fala, ele reduziu a dimensão das reportagens até o momento publicadas sobre o assunto. "Tendo a pensar que esse 'escândalo' é consideravelmente menos escandaloso do que o Intercept relatou o do que eu acreditava originalmente", disse.

Por diversas vezes, Moro chamou de "sensacionalistas" as ações do veículo e citou artigo escrito por Matthew Stephenson, professor de direito em Harvard, intitulado "O incrível escândalo que encolheu? Novas reflexões sobre o vazamento da Lava-Jato". O autor do texto mudou de opinião sobre o caso ao longo dos dias que sucederam a publicação da primeira reportagem sobre o assunto.

Embora tenha negado qualquer irregularidade nas conversas vazadas, o ministro admitiu a possibilidade de deixar cargo no governo Bolsonaro. "Não tenho nenhum apego pelo cargo em si. Se houver alguma irregularidade da minha parte, eu saio", afirmou em resposta ao senador Jaques Wagner (PT-BA).

Apesar disso, o ex-juiz diz ter certeza que, se todo o material for divulgado na integralidade e sem distorções, não se verificarão irregularidades em sua conduta.

Desempenho favorável?

A despeito de a sessão ter tido momentos de maior tensão, analistas políticos viram como positiva a atuação do ministro, que teria conseguido se esquivar de ataques mais contundentes da oposição e pouco se desviar da narrativa apresentada desde o início dos vazamentos.

"[A audiência foi] Como esperado, com Moro sendo pressionado pelos partidos de esquerda e protegido pela maioria dos demais. Conta a favor do ministro o fato de que é impossível, no momento, garantir a autenticidade das mensagens publicadas pelo Intercept", observa Ricardo Ribeiro, da MCM Consultores.

Para ele, a combinação entre a crítica aos hackers, a não confirmação da autenticidade do conteúdo e a defesa das investigações em contraste com a imagem da corrupção garantiu blindagem ao ministro junto aos senadores nesta quarta-feira.

"Moro foi bem. Conseguiu impor sua narrativa de que os diálogos divulgados foram feitos de forma criminosa. Também reafirmou que a Lava-Jato não tem direcionamento político, através dos números da operação relativos a acusações e condenações. A oposição e os críticos não conseguiram impor a narrativa de perseguição política", pontua Carlos Eduardo Borenstein, da Arko Advice.

Já Leopoldo Vieira, analista político da Idealpolitik, chama atenção para a estratégia adotada pelo ministro de usar o apoio popular à operação Lava-Jato como escudo. "Ao polarizar com os deputados petistas, sob a assertiva de que o objetivo dos vazamentos é proteger os corruptos, Moro apostou corretamente na polarização com a esquerda para receber o apoio engajado da base da nova direita", sustenta.

"Ao dar destaque ao mérito de julgamentos, escapando de responder sobre o método utilizado, corner que o Intercept tentou colocar ele, Moro conquista simpatia dos que defendem os resultados e o legado da operação, sob qualquer viés político e ideológico. E fortalece que os apoiadores do governo e da Lava-Jato vejam a coordenação com Dallagnol como um mal necessário para derrotar o PT e o establishment político", complementa.

Superada a longa audiência com senadores, que durou mais de 8h, o ministro deverá ir à Câmara dos Deputados, na próxima semana, também para dar explicações sobre o assunto aos parlamentares. O encontro está marcado para 26 de junho.

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