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As 3 ondas do tsunami que abalou o governo Bolsonaro

Ouça o 17º episódio do podcast apresentado pelos analistas políticos Débora Santos e Victor Scalet, da XP Investimentos, e pelo jornalista Marcos Mortari, do InfoMoney

Jair Bolsonaro
(Marcos Corrêa/Presidência da República)

SÃO PAULO - Como antecipado pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, um tsunami político atingiu o governo nos últimos dias. Derrotas no Congresso Nacional, avanço de investigação contra o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) – filho do mandatário – e manifestações de rua ampliaram a instabilidade no Palácio do Planalto e trouxeram dúvidas sobre o futuro de um governo que começou há 140 dias.

Os fatores de instabilidade da atual gestão foram assunto da 17ª edição do podcast Frequência Política, feito em parceria entre a equipe de análise política da XP Investimentos e o InfoMoney.

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#TsunamidaEducação
Para os especialistas, o governo tem sido o principal responsável pelo estouro de suas próprias crises. Foi o caso das manifestações contrárias ao contingenciamento médio de 30% sobre as despesas discricionárias em educação. O movimento, apesar de comum a outros governos, teria se agravado por uma comunicação errática e pelas reações de membros da atual gestão.

"As manifestações foram provocadas pelo governo. Ele escolheu um inimigo e se colocou como alvo. Esses contingenciamentos de recursos foram muito mal comunicados para a população nesses últimos dias e deram uma oportunidade para que viesse um movimento genuíno das universidades e pessoas preocupadas com a educação, mas também teve uma carona [por grupos opositores]", observou a analista Débora Santos.

Na prática, os tropeços do governo na comunicação dos cortes, medida apesar de indesejável comum a outras gestões, catalisaram o clima de insatisfação na sociedade. "Inicialmente parecia uma questão ideológica, com a 'balbúrdia' e a possibilidade de cortes em determinados cursos e instituições de ensino", avaliou Marcos Mortari, jornalista do InfoMoney. "Depois, isso foi modificado [por um corte geral]. Mas também ficou a aparência de que só a educação sofreu o contingenciamento".

A onda extrapolou os blocos de oposição e promoveu uma derrota cara ao governo em um campo em que costuma levar ampla vantagem: as redes sociais. "Eles foram derrotados nas redes – e não foi nem por 7 a 1, mas por 9 a 1. Mesmo a mobilização online dos apoiadores do presidente não foi capaz de conseguir vencer essa movimentação", pontuou o analista Victor Scalet.

Tropeços no parlamento
O clima ruim nas ruas somou-se ao ambiente ruim no Congresso Nacional. Na semana em que se esperava que a Medida Provisória 870, que trata da nova estrutura ministerial do governo, pudesse ser votada no plenário da Câmara dos Deputados, o que se viu foi a convocação do ministro Abraham Weintraub (Educação) para dar explicações sobre os cortes, pode decisão de ampla maioria dos parlamentares: 307 contra apenas 82.

A nova demonstração de fragilidade do governo na casa legislativa acendeu novos sinais de alerta, agravados ao final da semana. "A impressão que deu foi que o 'centrão' quis impor uma situação desgastante para o governo com a convocação do ministro, mas, depois, as principais figuras deste grupo político não quiseram se expor e deixaram oposição e governo se baterem", disse Mortari.

"O ministro fez uma defesa bastante técnica do motivo do corte e das áreas que sofreriam alterações. Foi lido como uma minivitória, mas tem que ser nesse contexto de que nunca é uma vitória um ministro ter que explicar na Câmara", afirmou Scalet. Apesar de a redução de danos para a participação do ministro no plenário, as dificuldades para o avanço de MPs prevalece.

"Essa questão da MP da reforma administrativa é um problema sério. Eles não estão conseguindo amarrar a articulação no Congresso para a questão do Coaf, a criação dos novos ministérios e para como reverter isso em um ganho de votos e apoio político do presidente. E nesse ambiente de falta de articulação, o que acontece é que temos o centrão superinchado e dando as cartas. O que pode acontecer com essas MPs daqui pra frente?", analisou Santos.

Flávio na mira do MP
A terceira onda veio com a quebra dos sigilos bancário e fiscal do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente, em inquérito sobre movimentações financeiras do parlamentar. O caso, embora sob sigilo, teve parte do conteúdo apurado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro vazado na imprensa.

As novas informações trouxeram de volta ao Palácio do Planalto um fantasma que atormenta Bolsonaro desde novembro do ano passado. "O potencial de estrago disso é gigantesco, porque o MP pediu a quebra de sigilo entre 2007 e 2018. São mais de 10 anos de movimentação financeira", explicou Santos.

As expectativas são de que novos vazamentos provoquem turbulência política. Ao governo soma-se a preocupação com a possibilidade de novas implicações com a primeira-dama Michele Bolsonaro.

"Se na quebra de sigilo de Fabrício Queiroz aparecer mais movimentação financeira com a primeira-dama, há uma questão constitucional inédita: como faz para quebrar o sigilo bancário da primeira-dama? Quem tem competência jurídica para fazer isso? O juiz de primeira instância? São perguntas que talvez tenham que ser feitas e que o Judiciário vai ter que ter resposta. De todos os ângulos que se olha, a questão é muito ruim", concluiu a especialista.

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