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As 5 notícias que abalaram a confiança do mercado com a Reforma da Previdência

Tudo apontava para uma semana em que haveria avanço da reforma dentro do Congresso, mas vários sinais emitidos nos últimos dias mostraram o contrário

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes
(Alan Santos/PR)

SÃO PAULO - Após atingir os 100 mil pontos na última terça-feira, tudo apontava para uma semana positiva para o Ibovespa, com o mercado de olho principalmente no avanço da Reforma da Previdência com a apresentação da reforma dos militares.

Porém, desde então, o noticiário ficou mais negativo para as perspectivas para a Reforma da Previdência, um dos principais catalisadores do ânimo para o mercado, levando assim o índice para sua pior semana desde agosto, enquanto o dólar foi para os R$ 3,90.

Na própria quarta-feira o mercado reagiu negativamente à reforma apresentada para os militares, além da queda da popularidade do governo Bolsonaro mostrada pela pesquisa Ibope. No dia seguinte, o grande susto do mercado foi a prisão do ex-presidente Michel Temer, que abalou as perspectivas sobre a relação com o Congresso, já deterioradas com o adiamento da escolha do relator da Reforma na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça na Câmara).

Mas o grande abalo se deu na sexta, quando o índice caiu 3,10% em meio ao noticiário sobre a relação deteriorada entre o governo Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). 

Confira abaixo as notícias desta semana que abalaram a confiança do mercado com a reforma: 

1. Reforma dos militares não agrada

Na última quarta-feira, o Ibovespa fechou em queda de 1,55% após a apresentação da reforma da Previdência dos militares com novas regras que deverão gerar ao longo de 10 anos uma economia de R$ 97,3 bilhões e novos gastos de R$ 86,65 bilhões com a reestruturação da categoria militar. Ou seja, uma economia líquida de R$ 10,45 bilhões em uma década, considerada muito baixa. 

A avaliação geral é de que a proposta de reforma dos militares enfraquece parte do argumento do governo de que todas as categorias farão sacrifício. 

O economista da Tendências Consultoria Fabio Klein avaliou, em entrevista ao Estadão, que a proposta já chega ao Congresso desidratada, o que deve fazer aumentar os custos para aprovação do conjunto da reforma da Previdência. "Haverá uma longa briga, que vai exigir forte papel de negociação e intermediação do presidente."

"Os detalhes da proposta foram uma decepção", disse o professor da Universidade de São Paulo Luís Eduardo Afonso. "No fim, o governo espera economizar R$ 10,45 bilhões em dez anos, após um pacote de concessões ao qual nenhum outro trabalhador teve direito. É uma reforma assimétrica, em que os demais trabalhadores vão ter de se esforçar muito mais pela saúde do sistema."

No Congresso, os deputados também reagiram negativamente. Até mesmo entre os parlamentares da base, há uma impressão de que a reestruturação dá um recado errado à sociedade. Para o delegado Waldir (PSL-GO), líder do partido do presidente na Casa, é necessário analisar com cuidado a medida. 

De acordo com análise da consultoria de risco político Eurasia, a proposta não inviabiliza a reforma da Previdência e é um desgaste contornável, mas aumenta o risco de diluição da reforma, cuja versão final tende a gerar economia de R$ 400 bilhões a R$ 600 bilhões ao longo de 10 anos. 

2. Ibope negativo para Bolsonaro

Vale destacar que, na última quarta, praticamente ao mesmo tempo em que Bolsonaro entregava a proposta dos militares ao Congresso, o Ibope divulgou pesquisa mostrando que a avaliação positiva (ótima ou boa) do governo caiu 15 pontos desde janeiro, e cinco desde fevereiro, em comparação com os outros dois levantamentos feitos neste ano pelo instituto.

Enquanto isso, o índice de quem considera o governo ruim ou péssimo subiu 13 e cinco pontos, desde janeiro e fevereiro, respectivamente. Bolsonaro tem  a pior avaliação entre presidentes no início do primeiro mandato desde 1995 quando analisado o mês de março: Dilma Rousseff teve 56% de aprovação em 2011, Lula ficou com 51% em 2003 e Fernando Henrique Cardoso aparecia com aprovação de 41% em 1995. 

Assim, a queda de aprovação de Bolsonaro é sinal de alerta e "está fora de controle do governo", destacou o cientista político da Eurasia, Christopher Garman, à Bloomberg. Com a queda da popularidade, um flanco se abre para o Congresso fazer cada vez mais exigências em troca da aprovação de reformas. 

3.  Definição do relator da CCJ adiada

A indicação de um relator para a Reforma da Previdência na CCJ foi adiada pelo PSL, partido de Bolsonaro, na última quinta-feira. Assim, a visão é de que o cronograma para a reforma da Previdência pode atrasar, já que a tramitação na CCJ é a primeira das etapas para a aprovação da mesma - e esse adiamento não agradou o mercado. 

O adiamento foi creditado à análise de que o projeto da reestruturação da carreira dos militares deu tratamento diferenciado à categoria. "Ao ver o texto dos militares e as diferenças contidas ali, pedi o adiamento do relator na CCJ. O governo nos mandou um abacaxi e não temos como descascá-lo com os dentes. É preciso nos dar a faca", disse.

Após cancelar o anúncio do relato, o presidente da CCJ, Felipe Francischini, afirmou que o início da discussão da proposta na Casa depende do governo se organizar para montar uma estratégia de atuação na Câmara. Francischini disse ainda que a vinda do ministro da Economia, Paulo Guedes, na terça-feira (26) às 14h, deve ajudar esclarecer dúvidas existentes entre os membros da CCJ.

Já o líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir (GO), reclamou que nenhum representante do governo procurou os líderes partidários para discutir a proposta antes de entregá-la oficialmente ao Congresso. Como um recado ao Palácio do Planalto, o líder do partido do presidente Jair Bolsonaro frisou também que o Congresso é independente em relação ao governo e, por isso, pode tomar as suas próprias decisões. Ele pediu para que o governo altere o texto dos militares ou deixe a Câmara alterá-lo, desde que assuma ter privilegiado uma categoria.

4. Temer preso

Contudo, o grande evento da última quinta que abalou o mercado foi a prisão de Michel Temer pela força-tarefa da Lava Jato do Rio de Janeiro nesta quinta-feira (21). 

Na avaliação de analistas políticos consultados pelo InfoMoney, o acontecimento tem potencial de atrapalhar a tramitação da reforma da Previdência e contribui para ampliar o clima de tensão na capital federal.

"Deve aumentar a incerteza e a confusão. Esse clima de desconfiança e disputa entre velha e nova política tende a se acentuar. Acho que prejudica o clima e a relação entre governo e Congresso Nacional", diz o analista político Ricardo Ribeiro, da MCM Consultores. Para o especialista, o clima belicoso que pode ser intensificado com o evento e adiar o calendário da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) na Câmara dos Deputados. "É ruim para quem precisa de 60% [de apoio nas duas casas legislativas] para aprovar reforma". complementa.

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O cientista político Carlos Melo, professor do Insper, diz que a prisão continua a interferir no foco das reformas no Poder Legislativo. "Bolsonaro venderá como realização dele, mas não creio que cola. O governo precisa agir no Congresso, mais do que na propaganda", afirmou.

Assim, o Ibovespa teve uma sessão de forte baixa de 1,34% na última quinta-feira, após chegar a cair 2,64% na mínima do dia. Quem ajudou a amenizar a queda foi Rodrigo Maia, que falou que a prisão de Temer não alteraria o calendário de reformas, dando alívio ao principal temor de mercado. 

5. Maia: fonte de alívio num dia, de queda no outro

Se Maia ajudou a amenizar a queda do mercado na última quinta-feira, o mesmo não aconteceu na sessão desta sexta. Segundo informações do jornal O Estado de S. Paulo, Maia avisou ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que deixará a articulação política pela reforma da Previdência. Ele tomou a decisão após ler mais um post do vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), com fortes críticas a ele. Irritado, o deputado telefonou para Guedes e disse que, se é para ser atacado nas redes sociais por filhos e aliados de Bolsonaro, o governo não precisa de sua ajuda.

Carlos Bolsonaro, o filho "zero dois" do presidente, compartilhou na quinta-feira nas redes a resposta de Moro à decisão de Maia de não dar prioridade agora ao projeto que prevê medidas para combater o crime organizado e a corrupção. "Há algo bem errado que não está certo!", escreveu Carlos no Twitter. Com isso, o mercado já abriu com forte movimento de aversão ao risco, uma vez que ele é considerado uma peça-chave para a aprovação da Reforma. 

Maia tem se colocado como principal articulador político do governo na Câmara dos Deputados. Ele articulou a eleição dos presidentes das comissões e tem feito reuniões nos estados ressaltando a importância da aprovação da reforma da previdência, ressalta Juliano Griebeler, diretor de relações governamentais da Barral M. Jorge.

E, como o governo não conseguiu estabelecer um processos de relacionamento com os congressistas para manter a governabilidade, Maia tem ocupado essa papel, o que o coloca em uma posição extremamente importante para a aprovação da reforma, destaca o analista. 

Desta forma, os recados de Maia durante o dia foram muito mal recebidos pelo mercado. Maia chegou a gerar um alívio para o mercado ao responder um tuíte da deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP), em que ela questionava o deputado federal sobre o seu compromisso com o Brasil. "Nunca vou deixar de defender a reforma da Previdência", afirmou. 

Porém, logo após o tuíte, Maia deu declarações afirmando que a responsabilidade por votos para a Previdência agora é de Bolsonaro e, uma vez que o presidente tiver a maioria dos votos necessários para aprovar a reforma e achar que é a hora de votá- la, pode avisar o parlamentar para que a votação entre na pauta. Ou seja, dando mais sinais de que pensa em se afastar da articulação. Depois disso, o líder do DEM na Câmara dos Deputados, Elmar Nascimento (BA), afirmou que Maia já não vai ser articulador político de governo". O deputado "está fora de ser esse interlocutor" e "está no quadrado dele como presidente da Câmara", complementou. 

Nascimento afirmou que a paciência dos deputados "acabou" e que não existe mais interlocução. "O ambiente na Câmara é muito ruim", completou. 

Mais tarde, no Chile, Bolsonaro afirmou que está aberto para conversar com Maia e que não deu motivo para o parlamentar do Rio de Janeiro tomar essa atitude. Bolsonaro disse ainda que é "só conversando" que será possível trazer Maia de volta ao papel. "Você nunca teve uma namorada e, quando ela quis ir embora, o que você fez? Não pediu para ela voltar? Você não conversou?", perguntou a um jornalista.

Em meio à turbulência, a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), líder do governo no Congresso Nacional, tentou colocar "panos quentes" e foi só elogios ao presidente da Câmara. De acordo com a deputada, Maia é um dos que "mais tem trabalhado" pela aprovação "logo" do "principal plano do governo", a reforma da Previdência. "Na prática, sem Maia, a coisa não vai e o Brasil empaca. Simples assim", escreveu a líder do governo.

Pouco antes, também pelo Twitter, Flávio Bolsonaro, que é filho do presidente Jair Bolsonaro (PSL) também saiu em defesa do presidente da Câmara, dizendo que Maia é "fundamental na articulação para aprovar a Nova Previdência". Para o senador, Maia "está engajado em fazer o Brasil dar certo".

Contudo, no fim do dia, o ministro da Economia, Paulo Guedes, resumiu o sentimento sobre a relação entre o governo e o Congresso.  Ao chegar para a cerimônia de posse da nova superintendente da Susep (Superintendência de Seguros Privados), Solange Paiva Vieira, ele disse, em tom de brincadeira: "Não posso falar hoje, porque parece que o pau está comendo".

Conforme ressalta Juliano Griebeler, com dificuldade em estabelecer um relacionamento entre Casa Civil e Congresso Nacional e sem o apoio de Maia, a reforma pode demorar muito mais do que o previsto e ser desidratada além do esperado pela equipe econômica.

Ainda pode ser cedo para tirar conclusões sobre os efeitos dessas rusgas na tramitação da Reforma e as dificuldades não eram propriamente algo inesperado pelo mercado. Contudo, os sinais dos últimos dias mostraram ainda mais obstáculos, apontando que os ruídos sobre a reforma devem seguir no radar dos investidores. 

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