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Sem apoio dos militares, reforma da previdência não avança, diz cientista política

Qualquer sinalização negativa da categoria poderia gerar incentivos aos demais setores para buscarem concessões no texto da reforma apresentada pelo governo

SÃO PAULO - Um dos focos de tensão no atual debate sobre a reforma da previdência, a presença dos militares e aceitação da categoria em cortar na própria carne na mesma proporção que outros setores da sociedade é quesito indispensável para a aprovação de uma proposta com impacto fiscal relevante no Congresso Nacional.

Essa é a avaliação que faz a cientista política Suelma Rosa, vice-presidente do conselho deliberativo do Irelgov (Instituto de Relações Governamentais). Ela participou do programa Conexão Brasília desta sexta-feira (15). Clique aqui para assistir a íntegra da entrevista.

"O governo Bolsonaro ainda precisa se conciliar com todas as suas áreas de apoio, que têm percepções, interpretações e prioridades diferentes. O ministro Paulo Guedes (Economia) já tinha apontado quatro prioridades da política econômica: reforma da previdência, reforma tributária, abertura comercial e melhoria na arrecadação. Ele precisa avançar o passo 1 para ganhar capital político e avançar nas reformas que precisamos. Mas sem apoio dos militares, acho que nada acontece", observou a especialista lembrando do peso da categoria sobre a base do atual governo.

A PEC (Proposta de Emenda à Constituição) encaminhada pelo governo Jair Bolsonaro (PSL) ao parlamento prevê economia de R$ 1,16 trilhão em dez anos, o que pode sofrer desfigurações, sobretudo se os parlamentares perceberem desunião na coalizão governista, com os militares indispostos a um ajuste mais robusto em seu sistema de aposentadorias.

Qualquer sinalização negativa dos militares poderia gerar incentivos às demais categorias para buscarem concessões no texto da reforma apresentada pelo governo, o que levaria a economia prevista a níveis muito abaixo dos desejados pela equipe econômica.

Na avaliação de Suelma, a estratégia do governo de usar as redes sociais como instrumento de construção de governabilidade até o momento não funcionou e Bolsonaro precisou lançar mão de alguns instrumentos tradicionais para a busca de apoio parlamentar – caso da liberação de emendas e da oferta de cargos na administração federal em escalões inferiores, mediante critérios técnicos.

"Bolsonaro tinha a expectativa de não usar os modelos antigos de emendas parlamentares e distribuição de cargos para construir sua base de apoio no Congresso. A proposta é usar as redes sociais para expor aquele velho modelo de fazer política. Não funcionou. Ele está precisando negociar emendas parlamentares e está negociando no terceiro e quarto escalões posições políticas", analisou.

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A especialista acredita em um calendário mínimo de dez meses para a aprovação de uma reforma previdenciária de grande porte. "Agora, quando nem a proposta chega, pode ser que o esperado. É possível que seja 2020 e não seja 2019. A pergunta é: os agentes econômicos vão tolerar esperar por tudo isso? Vão entender os tempos políticos de demorar tanto uma reforma tão necessária?", disse.

Confira um trecho do programa localizado no início desta matéria (para assistir a íntegra, clique aqui).

Você pode acompanhar o Conexão Brasília também pelo Spotify. Escute ou faça o download do programa pelo embed abaixo:

 

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