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Apesar de vitória expressiva, Bolsonaro não poderá fugir dos partidos políticos para governar

Por mais que insista na negação da política tradicional e opte por negociações via bancadas informais, Bolsonaro precisará conversar com lideranças partidárias para aprovar sua agenda econômica e de costumes

SÃO PAULO - A vitória de Jair Bolsonaro (PSL) por 10,757 milhões de votos sobre Fernando Haddad (PT) na eleição presidencial e os recentes acenos no meio político dão ao novo presidente eleito um quadro mais confortável de governabilidade ao menos nos primeiros meses de gestão, em que pese a renovação do recorde no nível de fragmentação partidária observado para a próxima legislatura. Com o passar do tempo, militar reformado enfrentará crescentes desafios para conciliar as promessas de campanha em direção a uma nova forma de operar a política e a necessidade de construir uma base de apoio sólida para aprovar sua agenda de propostas para a economia e os costumes.

Durante a campanha, Bolsonaro disse que não se curvará ao chamado "toma lá, dá cá", como ficou conhecida a prática de oferta de recursos orçamentários e cargos na administração pública em troca de apoio parlamentar, e prometeu indicar quadros técnicos para comandar as mais diversas áreas do governo. Apesar de ganhar o apoio de um eleitorado desiludido com a política e cansado de como se dão as relações nas esferas de poder, o discurso adotado pelo líder nas pesquisas ainda é questionado por analistas.

Para a formação de maioria no Congresso, aliados de Bolsonaro apontam para a negociação via bancadas informais, o que diminuiria a força dos partidos no processo político. Nesse sentido, ganhariam protagonismo frentes parlamentares como a agropecuária, evangélica e da segurança. Inclusive, tais grupos deram manifestações de boa vontade com a candidatura do congressista ao longo da campanha eleitoral. Um contraponto feito por alguns analistas é que tais bancadas mostram coesão apenas em pautas que lhes interessam, setoriais, o que seria insuficiente para garantir a sustentação de um governo pelo tempo.

"Ele tem pela frente o desafio de manter sua tropa animada ao mesmo tempo em que vai precisar fazer concessões para conversar com esse Congresso. Tivemos uma renovação grande, mas ainda tem praticamente metade da Câmara funcionando com a chavinha da anterior. Ele vai ter que conciliar o discurso antipolítico e antiestablishment com as relações que ele vai de fato ter de manter, mas não tem como fugir da articulação via partido político. Quando conversamos com os integrantes dessas frentes mesmo, eles concordam que é um bom início de aproximação, mas só isso, passando à margem dos partidos, é difícil ter uma governabilidade que dê tranquilidade para tocar pautas constitucionais que exigem maiorias qualificadas", observou o analista político Paulo Gama, da XP Investimentos.

Paulo Gama participou de programa de análise sobre o cenário eleitoral na InfoMoneyTV. A transmissão também contou com a presença de Ricardo Ribeiro, analista político da MCM Consultores, e Suelma Rosa, vice-presidente do conselho deliberativo do Irelgov (Instituto de Relações Governamentais). Assista a íntegra do painel clicando aqui.

"A coincidência de pautas de Bolsonaro com essas três bancadas permite uma aproximação em um primeiro momento. O poder é um ímã e, de pronto, o Congresso vai se mostrar disposto a ajudar e a formar uma base. Mas ele vai precisar usar e se servir dessa proximidade ideológica ou desse interesse coincidente com essas bancadas para criar essa boa vontade, e, a partir daí, mobilizar essa base para temas que não necessariamente são coincidentes", pontuou.

Por outro lado, a despeito da oportunidade que as bancadas informais representam no sentido de uma aproximação, seria muito difícil relativizar a importância dos partidos no processo político. "As bancadas temáticas têm um papel de opinião pública, de fazer propaganda dessas medidas econômicas, mas não contam com os instrumentos regimentais que são usados pelos partidos (fechamento de questão, indicação para comissão, para relatoria, distribuição de tempo para falar em plenário). Isso passa necessariamente pelos partidos. Então, de alguma maneira ele vai ter que se entender com os partidos para tocar isso pra frente", complementou o especialista.

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