Em mercados / politica

Economia não deve sofrer tantos riscos sendo Bolsonaro ou Haddad eleitos, diz economista da Rio Bravo

De acordo com Evandro Buccini, há um entendimento geral de que é preciso resolver o problema fiscal de curto prazo e candidatos estão buscando por moderação

Evandro Buccini
(/Divulgação)

SÃO PAULO - A campanha eleitoral de primeiro turno caminha para os seus instantes finais e foi acompanhada de perto pelos investidores, principalmente com o crescimento de Jair Bolsonaro (PSL) nas últimas pesquisas, o que animou a Bolsa brasileira em meio às expectativas mais promissoras para a realização de reformas caso ele seja eleito. 

Porém, para Evandro Buccini, economista-chefe da Rio Bravo Investimentos, mesmo Fernando Haddad (PT) sendo eleito, não há tantos motivos para temor dos mercados, mesmo que haja uma reação forte no curto prazo, conforme ressaltou em entrevista ao InfoMoney. Isso porque há um entendimento de que algo precisa ser feito dada a crise fiscal urgente do País. 

"Todos entendem que é preciso resolver o problema fiscal de curto prazo. Há divergências sobre se será do lado da receita ou da despesa, mas todos reconhecem que alguma coisa tem que ser feita", avaliou. Assim, pelo menos na parte de política econômica, não haveria tantas divergências, sendo Bolsonaro ou Haddad os eleitos. 

Por outro lado, ele avalia, a reação do mercado após a eleição pode ser diferente, dependendo se Bolsonaro ou Haddad forem eleitos, provavelmente com uma forte reação negativa do mercado caso o petista seja o vencedor do pleito. 

Buccini destaca ainda que a forte incerteza política que vem tomando conta dos mercados também acabou contaminando as perspectivas para o crescimento econômico do País, o que deve levar a um carregamento estatístico para o ano que vem, que também deve ser de baixo crescimento. "De qualquer forma, as ações que o governo tomar no ano que vem vão ser vitais para garantir um crescimento mais sustentável no futuro", avalia.

Sem ver grandes temores para a agenda econômica do próximo candidato, Buccini avalia que há uma certa dúvida da negociação e da capacidade política do Bolsonaro, uma vez que a realização de reformas dependerá de uma boa bancada no Congresso - para a realização de emendas constitucionais, é preciso 308 dos 513 deputados. Já em termos econômicos, o que aparece com um discurso menos moderado entre os candidatos é Ciro Gomes (PDT) que, inclusive, já afirmou que irá revogar o teto de gastos e a reforma trabalhista, além de dissolver o acordo Embraer-Boeing caso seja eleito. Já Haddad geraria temor por ser um novo governo do PT, que não agrada o mercado por conta das políticas passadas intervencionistas, mas não seria radical. 

Reformas prioritárias

Dentre as reformas prioritárias, o economista aponta que "a da previdência é a principal e a mais pronta porque já foi discutida e debatida, com pelo menos um projeto na Câmara que já foi colocado nas comissões e que pode ser aproveitado".

Por outro lado, a reforma tributária, que também é bastante destacada pelos candidatos nas campanhas e com uma ou duas visões diferentes, precisa de um arranjo político para ser feita por ser muito complexa, envolvendo assuntos federativos e interesses dos estados. 

Uma outra reforma, também muito necessária e que nem todos os candidatos têm foco é uma reforma de estado, diz o economista, de forma a combater os privilégios de alguns funcionários públicos, desengessar os gastos públicos, não só para facilitar o manejamento dos gastos obrigatórios e obedecer o teto de gastos, mas também pela questão federativa estadual.

"Os estados estão quebrados, grande parte deles porque têm muita gente no funcionalismo, com salários de ativos e inativos perfazendo uma despesa com relação à receita de mais de 100%. É preciso ter alguma flexibilidade para o estado cortar gastos com pessoal, o que não quer dizer demissão", avalia.

Para Buccini, há alguns motivos para não ter tanto temor com os rumos que o próximo presidente adotar independentemente de quem ele seja.  A democracia e as instituições são fortes, aponta ele. Assim, se o presidente resolver fazer alguma coisa que mude a direção da política econômica para o Brasil dos últimos 20 anos (sendo boa parte dela resumida ao tripé econômico, formado por câmbio flutuante, meta de inflação e meta fiscal) corre o risco de sofrer muito politicamente como sofreu a ex-presidente Dilma Rousseff no final.

"Foi muito rápido o processo de impeachment da Dilma se comparado com os outros países porque o Brasil criou um consenso de política econômica que é difícil de desviar se as consequências forem ruins. Se entra um presidente que resolve não atacar déficit fiscal, o câmbio vai se depreciar, a inflação vai voltar e logo ele vai ser obrigado a rever os seus atos", avalia.

Quando questionado sobre o fato de que alguns candidatos, como Ciro Gomes, destacarem que podem revogar medidas como a emenda constitucional do teto de gastos, Buccini afirmou: "se o presidente propor a revogação do teto de gastos sem ter nada para por no lugar, a reação vai ser tamanha que vai obrigá-lo a repensar. O teto é importante por isso. Se o presidente quiser excluir investimentos do teto, mas ele apresenta um plano fiscal que continue melhorando as contas públicas, levando a resultado primário, talvez seja possível fazer a revogação. Mas não terá espaço para revogar o teto sem colocar nada no lugar". 

A Bolsa subiu 3,75% na última semana. Invista em ações: abra uma conta na Clear com taxa ZERO de corretagem
 

Para o economista, a reação sobre uma revogação da emenda constitucional pode vir tanto de agentes de mercado, como dos preços da economia e da própria população, mesmo que haja uma grande fatia que não veja com bons olhos a PEC do teto. "Acho que existe uma parte da população não desprezível que quer uma forma de rigidez fiscal, de bom senso fiscal, de controle orçamentário básico que não existe hoje no setor público e que o teto - não no curto, mas no longo prazo - vai trazer", avalia. 

Olhando para o crescimento econômico de curto prazo, Buccini não se mostra tão otimista sobre o Brasil. "Hoje, a melhor forma de o Brasil crescer seria um evento externo, o País não parece ser capaz de andar pelas próprias pernas. Se a gente fazer as reformas, o crescimento não vai ser automático", avalia. Para 2019 e 2020, o economista faz uma projeção de crescimento de 2% a 2,5% ao ano. 

 

Contato