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Ascensão de Bolsonaro: o cansaço das ideologias e o desejo de retorno ao senso comum

O que poderia explicar um eleitorado tão pouco homogêneo estar fazendo esse movimento espontâneo e desarticulado? Uma resposta óbvia está sendo dada: o antipetismo. Mas é mais do que isso 

Jair Bolsonaro
(Shutterstock)

Autores do texto: Alan GhaniAlexandre Pacheco, colunistas do InfoMoney

Nos últimos dias, empresários, investidores, autônomos, empregados de empresas e aposentados fizeram um movimento forte em direção ao candidato Jair Bolsonaro.

O que poderia explicar um eleitorado tão pouco homogêneo estar fazendo esse movimento espontâneo e desarticulado? Uma resposta óbvia está sendo dada: o antipetismo. Faz sentido, e isso não é pouca coisa, mas acreditamos que há um elemento adicional nessa migração de votos:

O cansaço geral que as pessoas estão sentindo a respeito das “ideologias”, e que resulta no desejo desesperado de retorno ao “senso comum”.

Vamos chamar de “ideologia” qualquer conjunto de ideias estruturadas por intelectuais, que tem como propósito alterar o comportamento das pessoas e da sociedade. Alguns intelectuais acreditam que a sociedade não caminha naturalmente, espontaneamente para um futuro melhor, e se dedicam a criar, com base exclusiva na razão, modos de alterar o modo de pensar e de agir das pessoal.

São exemplos de ideologias barra-pesada o Comunismo, o Socialismo e o Nazismo. É exemplo de ideologia mais leve a Social Democracia. São ideologias porque as sociedades não convergem naturalmente para essas ideias, sendo necessário o uso do Estado para implantá-las à força.

Há exemplos históricos de revoluções criadas por intelectuais com base em ideologias, que resultaram em violência, assassinatos em série, destruição e fome: Revolução Francesa, Revolução Russa, Revolução Chinesa, Revolução Cubana. Todas elas têm traços comuns: seguem as cartilhas de intelectuais que defendem ideias de aumento do poder do Estado, o que se alcança destruindo liberdades individuais, a família, a religião, as associações civis, o ensino livre e as manifestações culturais espontâneas.

Essa é uma característica dos movimentos intelectuais: o desprezo pelas pessoas comuns, pela inclinação natural das pessoas em se organizar em família, em ter a sua religião, em se organizar naturalmente em clubes e de seguir tradições. Particularmente, os intelectuais desprezam as lições aprendidas com nossos antepassados (bisavós, avós, pais, tios), porque sabem da força que esse conhecimento, fundado no senso comum, tem sobre as crenças das pessoas.

As ideias dos intelectuais, então, normalmente concentram o inverso desses valores fundados no senso comum: o conhecimento fora do mundo acadêmico para eles é desprezível. Acreditam, os intelectuais, que não existe cultura fora do meio universitário e dos livros, de forma que, se você não tem nível superior, nem é gente.

Daí vem a cartilha intelectual: ateísmo militante, com agressões habituais a católicos e evangélicos; agressões à ideia de família, que chamam negativamente de “patriarcado”; desprezo pelos times de futebol, que no seu entender são o “ópio do povo”; desejo de alteração de preferências das pessoas, controlando o uso de carro e o fumo de cigarros, impondo a linguagem do politicamente correto e até mesmo controlando piadas, ditados populares e literatura tradicional; imposição de práticas repulsivas, como aborto, liberação de drogas, educação sexual para crianças e eliminação de símbolos religiosos em espaços públicos.

Esses intelectuais a que nos referimos concentram-se, hoje, nas universidades públicas. Influenciam fortemente a imprensa e classe artística – a chamada “classe falante”. Não é por outra razão que vemos ideologia para todos os lados. Nas universidades, nos livros, nas músicas, nos jornais, nas revistas. Em todo lugar.

Na classe política, poucos se atrevem a defender publicamente o Comunismo, e até mesmo uma versão mais leve de ideologia de esquerda, o Socialismo. Mas a classe política brasileira quase que inteira é influenciada pelas ideologias, preferindo uma versão mais leve: a Social Democracia. Nesse balaio da Social Democracia podemos colocar quase toda a classe política do Brasil que tem representação do Congresso Nacional hoje: PMDB, PSDB, PT, DEM, REDE...

Nos Estados Unidos há forte consciência desse movimento ideológico destrutivo causado pela classe falante. Alguns movimentos conservadores colocam-se contrariamente a ele, defendendo o valor que o “senso comum” de uma pessoa que nem mesmo passou pela faculdade é capaz de cultivar, e que é possível ter vida fora dos meios universitários.

A eleição de Donald Trump retratou esse movimento. Tirando os exageros retóricos e as ofensas que ele usa habitualmente, o racional dele é prático. Ele despreza a ideologia não por opção política, mas porque ele despreza tudo aquilo que não funciona. Por trás do seu racional, está a busca por resultados práticos e por ganhos reais, valendo-se do senso comum.

Todas as soluções difíceis que as ideologias e os intelectuais defendem, ele deixa de lado. E isso atinge fortemente a classe falante. Como defensor do senso comum, ele se opõe naturalmente contra toda a intelectualidade, a imprensa, os artistas e a classe política, quase que totalmente alinhadas com Hillary Clinton e com o Partido Democrata, que nada mais é que uma espécie de mistura de PSDB, PT e PSOL que tem 50% do eleitorado americano.

O mal que a alta cultura está provocando no Brasil é fenômeno já muito bem documentado. Certamente, o livro “O Imbecil Coletivo”, de Olavo de Carvalho, recentemente reeditado pela Editora Record, foi o primeiro grande alarme que se deu a respeito, já na década de 90, mas essa ideia, aparentemente, ainda não está clara na cabeça do povo. Outra obra de Carvalho que mostra a influência de ideologias na destruição da cultura, dos valores e das instituições é “O Mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”. Recentemente, o antropólogo Flávio Gordon, no seu livro “Corrupção da Inteligência” mostra que a chegada e a permanência do PT no poder (2002 a 2016) não seria possível sem a influência das ideologias de Gramsci e Marcuse, – filósofos marxistas – na academia. Para Gordon, os jornalistas, num processo mimético, compram as ideias dos intelectuais e espalham o tóxico ideológico por toda a sociedade    

No Brasil, a ascensão dos votos em Bolsonaro aparenta ter o mesmo sentido do que foi visto nos Estados Unidos, apesar da maioria da população que faz parte desse movimento espontâneo e desarticulado por aqui ainda não ter claro na sua cabeça esse sentido, de revolta contra as ideologias que desprezam o senso comum. Mas é isso o que está por traz desse movimento de migração de votos para o Bolsonaro. E eventualmente ele seja mais forte no interior, fora dos grandes centros urbanos onde estão concentradas as universidades públicas, que dominam o discurso da classe falante.

O que a maioria das pessoas quer é trabalhar, pagar suas contas, cuidar da sua família, ter sua religião respeitada, cultivar a memória que tem do seu passado e repetir o que o vovô, a vovó, a mamãe e o papai fizeram e ensinaram a fazer. A maioria das pessoas não quer mais ser violentada por universidades públicas, jornais, revistas e programas de televisão com ideias malucas.

É isso o que Bolsonaro representa, além do antipetismo, quando fala da família, das universidades públicas, da imprensa, de Deus. O retorno, que as pessoas querem desesperadamente, ao senso comum.

*Alan Ghani é Economista, PhD em Finanças e Professor de Pós Graduação (Insper, FIA e SaintPaul)

**Alexandre Pacheco é Advogado, Professor de Direito Empresarial e Tributário da Fundação Getúlio Vargas, da FIA, do Mackenzie e Doutorando/Mestre em Direito pela PUC.

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