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Por que o Ibope veio tão diferente do Datafolha para a corrida presidencial?

Pesquisas mostram taxas de rejeição de candidatos e cenários de segundo turno divergentes. No primeiro turno, as fotografias se aproximam

Candidatos
(Reprodução)

SÃO PAULO - A diferença nos resultados e em interpretações geradas a partir das pesquisas divulgadas por Datafolha (BR-02376/2018) e Ibope (BR-05221/2018) para a corrida presidencial nesta semana provocou discussões nas redes que reavivaram até mesmo o ceticismo de parte dos eleitores com a confiabilidade destes levantamentos.

No primeiro levantamento, apresentado na última segunda-feira (10), Jair Bolsonaro (PSL) aparecia menor na simulação de primeiro turno e mais vulnerável em cenários de segundo turno testados. Já no segundo, divulgado ontem (11), o deputado parece ter conquistado maior apoio após ser atacado a facada durante ato de campanha em Juiz de Fora (MG) na última quinta-feira (6).

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O desempenho de Bolsonaro é maior neste Ibope em comparação com o Datafolha, assim como a variação em suas intenções de voto em relação a pesquisa realizada pelo mesmo Ibope uma semana antes. Nos cenários de segundo turno, a pesquisa divulgada ontem mostrou o deputado mais forte, em situação de empate técnico com todos seus adversários.

As quatro tabelas abaixo comparam as duas pesquisas:

1) Pesquisa estimulada de primeiro turno:

Candidato Ibope (de 8 a 10/09) Datafolha (10/09)
Jair Bolsonaro 26% 24%
Ciro Gomes 11% 13%
Marina Silva 9% 11%
Geraldo Alckmin 9% 10%
Fernando Haddad 8% 9%
Álvaro Dias 3% 3%
João Amoêdo 3% 3%
Henrique Meirelles 3% 3%
Guilherme Boulos 0% 1%
Vera Lúcia 1% 1%
Cabo Daciolo 1% 1%
João Goulart Filho 0% 0%
Eymael 0% 0%
Brancos e nulos 19% 15%
Indecisos 7% 7%

2) Pesquisa espontânea:

Candidato Ibope (de 8 a 10/09) Datafolha (10/09)
Jair Bolsonaro 23% 20%
Lula 15% 9%
Ciro Gomes 5% 5%
Geraldo Alckmin 4% 3%
Fernando Haddad 4% 4%
Marina Silva 3% 2%
João Amoêdo 2% 2%
Álvaro Dias 1% 1%
Henrique Meirelles 1% 1%
Cabo Daciolo 0% -
Guilherme Boulos 0% -
Eymael 0% -
Vera Lúcia 0% -
João Goulart Filho Não foi citado -
Brancos e nulos 18% 12%
Indecisos 21% 37%

3) Rejeição

Candidato Ibope (de 8 a 10/09) Datafolha (10/09)
Jair Bolsonaro 41% 43%
Marina Silva 24% 29%
Geraldo Alckmin 19% 24%
Fernando Haddad 23% 22%
Ciro Gomes 17% 20%
Cabo Daciolo 11% 19%
Vera Lúcia 11% 19%
Eymael 11% 18%
Guilherme Boulos 11% 17%
Henrique Meirelles 11% 17%
João Goulart Filho 8% 15%
João Amoêdo 10% 15%
Álvaro Dias 9% 14%

4) Simulações de segundo turno

Cenário Ibope (de 8 a 10/09) Datafolha (10/09)
Ciro Gomes x Jair Bolsonaro 40% x 37% (22% BNI*) 45% x 35% (20% BNI)
Geraldo Alckmin x Jair Bolsonaro 38% x 37% (25% BNI) 43% x 34% (23% BNI)
Jair Bolsonaro x Marina Silva 38% x 38% (24% BNI) 37% x 43% (20% BNI)
Fernando Haddad x Jair Bolsonaro 36% x 40% (24% BNI) 39% x 38% (23% BNI)

* Brancos, nulos e indecisos

Uma comparação mais cautelosa entre as pesquisas revela pouca diferença (a maioria delas dentro das respectivas margens de erro de 2 pontos percentuais) nos cenários espontâneo e estimulado de primeiro turno apresentados pelas pesquisas. Por outro lado, as taxas de rejeição dos candidatos e, principalmente, as simulações de segundo turno, mostram quadros distintos. Por que isso ocorre?

Alguns especialistas receberam a última pesquisa com ceticismo. "O único aspecto anômalo da pesquisa Ibope foi a interação entre a rejeição a Bolsonaro e as simulações do segundo turno das eleições. Não é fácil explicar porque o candidato com maior rejeição está empatado com candidatos de menor rejeição. É uma indicação clássica de problemas com a pesquisa", observaram os analistas da CAC Consultoria Política em nota a clientes.

Questionamentos à parte, é preciso levar em consideração dois aspectos centrais sobre os últimos levantamentos Ibope e Datafolha. O primeiro, é a metodologia adotada por cada um dos institutos em seus levantamentos. Enquanto o Datafolha trabalha com coletas em pontos de fluxo, o Ibope faz amostras domiciliares. Tal fator pode justificar diferenças em números apresentados pelos institutos.

Para o cientista político Jairo Pimentel, pesquisador do Cepesp (Centro de Política e Economia do Setor Público) da FGV-SP, não é possível responder com precisão por que as pesquisas deram resultados distintos, mas há hipóteses que poderiam indicar caminhos. Ele pontua que não há no Brasil estudos aprofundados sobre a realização de pesquisas e os impactos de diferenças metodológicas aplicadas pelos institutos.

Segundo o especialista, seria difícil afirmar qual modelo – face a face ou telefônico, por ponto de fluxo ou domiciliar, por exemplo –, teria maior precisão. A esta altura, também vale lembrar que pesquisas eleitorais não têm por objetivo antecipar o resultado das urnas. Os levantamentos são fotografias do sentimento dos eleitores em momentos específicos de uma dada disputa. Uma sucessão de pesquisas com uma mesma metodologia pode indicar tendências dos candidatos, mas não antecipar resultados.

O segundo aspecto a ser considerado neste caso específico é o período de coleta de cada pesquisa. O Ibope foi a campo entre os dias 8 e 10 de setembro, o que pode ter tornado os resultados mais expostos ao atentado contra Bolsonaro, ocorrido dois dias antes do início das entrevistas. Já o Datafolha fez todas as entrevistas em 10 de setembro, período temporal mais distante do episódio.

Outro ponto a ser destacado é que ambas as pesquisas têm nível de confiança de 95%. Isso significa que, se o questionário fosse aplicado mais de uma vez no mesmo período e sob mesmas condições, esta seria a chance de o resultado se repetir dentro da margem de erro máxima. O raciocínio inverso também vale: cada pesquisa tinha 5% de chance de estar "errada". Pelo volume de levantamentos feitos até outubro, é possível que tal situação aconteça em algum momento com alguma pesquisa.

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