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Os fatores por trás da nova onda de medo no mercado brasileiro

Embora as turbulências do mercado internacional, envolvendo a crise na Turquia, tenham sido o primeiro fator para a escalada recente de alta do dólar, a pressão no câmbio nesta semana foi ampliada pelo receio de vitória do PT na eleição presidencial

Mercado em queda
(Shutterstock)

(Bloomberg) -- Uma nova onda de estresse atinge o mercado e leva o dólar a R$ 4,00, uma marca simbólica não tocada no intradiário desde março de 2016, poucos meses antes do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Embora as turbulências do mercado internacional, envolvendo a crise na Turquia, tenham sido o primeiro fator para a escalada recente de alta do dólar, a pressão no câmbio nesta semana foi ampliada pelo receio de vitória do PT na eleição presidencial, diz o ex-diretor do Banco Central Luiz Fernando Figueiredo, sócio-fundador da Mauá Capital. Além de favoráveis ao PT, as pesquisas trouxeram uma pílula extra de desalento ao mostrar estagnação nas intenções de voto de Geraldo Alckmin, nome preferido do mercado, apesar de toda a exposição obtida pelo ex-governador de São Paulo após o acordo com o centrão.

Pesquisa Ibope divulgada nesta segunda-feira foi um atestado da força eleitoral do ex-presidente Lula, que, mesmo preso em Curitiba, cresceu para 37% das intenções de voto. Com pontuação tão alta, Lula - se for impugnado pela Justiça Eleitoral - poderá colocar seu substituto no segundo turno com a transferência de apenas cerca de 50% dos seus votos, ou até menos, se os seus oponentes mantiverem o até agora mediano desempenho nas pesquisas. Esta percepção foi reforçada pela sondagem da XP investimentos, divulgada na sexta. Fernando Haddad - provável substituto de Lula - teve 15% das intenções de votos na sondagem, atrás apenas de Jair Bolsonaro (PSL), quando teve seu nome associado ao ex-presidente.

O receio de Lula ter sucesso na transferência de seus votos e colocar o PT no segundo turno preocuparia menos o mercado se o provável adversário de Haddad fosse algum nome de centro, como Alckmin. O mercado entende que um moderado como Alckmin teria grandes chances de vencer no 2º turno, mas a perspectiva de um revival da decisão eleitoral entre PT e PSDB tem se enfraquecido. “Uma considerável parte do mercado vinha sustentando o otimismo com base na ideia de que um nome de centro iria quebrar a polarização entre direita e esquerda”, diz Carlos Kawall, economista do Banco Safra.

Alckmin conta com uma valorosa carta na manga com os programas de rádio e TV, que começam em 31 de agosto. O tucano tem cerca da metade de tempo, mas para chegar ao segundo turno precisa roubar votos de Bolsonaro, que será um nanico em tempo na mídia tradicional, mas tem exército gigante de apoiadores nas redes sociais. Um aspecto negativo para Alckmin é que o período de tempo de TV este ano será mais curto, de pouco mais de um mês. Um desafio para o ex-governador, que no último Ibope teve apenas 7% das intenções de voto, pouco mais de um terço dos 20% de Bolsonaro.

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“Alguns candidatos que não são os preferidos do mercado estão fortes e os mais de centro estão indo mal”, diz Italo Lombardi, estrategista para América Latina do Crédit Agricole. Ele observa que, até um tempo atrás, o cenário mais negativo era a vitória de Bolsonaro, que não era visto como ideal, mas não chegava a ser temido pelos investidores. Embora Alckmin ainda tenha chances com o tempo de TV, o mercado estaria agora não apenas vendo maior chance de um 2º turno entre PT e Bolsonaro como também uma chance maior de vitória do candidato petista, que tende a ser Haddad. “O mercado de novo reaviva o cenário de o PT poder voltar”, diz Lombardi.

 

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