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Haddad em construção, Bolsonaro forte e Alckmin ameaçado: 3 análises sobre as pesquisas Ibope e MDA

Para entender um pouco melhor o significado dos números apresentados pelas recentes pesquisas e quais são as sinalizações para os próximos passos da corrida para o Palácio do Planalto, o InfoMoney compilou as opiniões de especialistas

Haddad, Alckmin e Bolsonaro
(Reprodução)

SÃO PAULO - Nos últimos dias, os institutos MDA e Ibope divulgaram uma série de pesquisas eleitorais com recorte nacional e regional sobre a corrida presidencial. Os levantamentos mostraram uma consolidação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na liderança da disputa, em contraste com a elevada probabilidade de sua candidatura ser barrada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Os números também indicam apoio expressivo dos eleitores ao deputado federal Jair Bolsonaro (PSL), nome que conta com a maior taxa de intenções de voto na ausência do petista. Juntos, os dois são os únicos que aparecem com mais de 2%. Mas ainda há muita água para rolar e a maioria dos brasileiros ainda não bateu o martelo sobre quem apoiar nesta eleição presidencial.

Para entender um pouco melhor o significado dos números apresentados pelas recentes pesquisas e quais são as sinalizações para os próximos passos da corrida para o Palácio do Planalto, o InfoMoney compilou as opiniões de especialistas. Veja os destaques abaixo:

Carlos Eduardo Borenstein, analista político da consultoria Arko Advice
Na avaliação do analista, os resultados das últimas pesquisas mostram que Lula superou levemente o eleitorado tradicional do PT, o que reforça a ideia de que a estratégia de vitimização está funcionando. Ele também surfa na onda da impopularidade do governo do presidente Michel Temer e no fato de ser o último presidente que governou o país e um momento de crescimento econômico.

Para Borenstein, o expressivo crescimento de brancos, nulos e indecisos quando a candidatura de Lula não é considerada mostra a disposição do eleitorado em votar no ex-presidente como sucessor de Temer no Planalto.

Os levantamentos mostram que há espaço para uma transferência de votos de Lula para Haddad. Segundo o Ibope, 60% dos eleitores hoje dizem não votar no ex-prefeito de São Paulo "de jeito nenhum", mas este percentual não chega a surpreender por de tratar de um eleitorado já ligado à rejeição ao PT e à política tradicional. De qualquer forma, caso queira ser um candidato competitivo em eventual disputa de segundo turno, Haddad teria que se preocupar em reduzir tal patamar de rejeição.

"Ao mesmo tempo, 13% dizem que votariam nele com certeza, o que o colocaria em empate técnico com Marina Silva e Ciro Gomes. Outros 14% dizem que poderiam votar em Haddad. Essa soma dá quase os 30% que dizem que votariam em um candidato apoiado por Lula", observou.

Do outro lado, Borenstein acha cedo cravar Bolsonaro como favorito para ir ao segundo turno. "Observamos que, desde 2017, ele está consolidado e tem um voto muito forte, em torno de 15% a 17% do eleitorado, que é o que mostra a pesquisa espontânea. Mas temos que aguardar como vai ser a reação do eleitorado à propaganda, o que tende a levar entre 10 e 14 dias para acontecer", disse.

Em função disso, o analista diz que é preciso verificar a estratégia de Alckmin para crescer em uma fatia do eleitorado que antes votava no PSDB e agora declara apoio a Bolsonaro. "Alckmin sinaliza que vai disputar esse voto de centro-direita com o deputado, no chamado 'Brasil azul'. Mas é uma situação em que ele começa a campanha bastante pressionado, não apenas pela baixa intenção de voto. Pelo menos por enquanto o PSDB carece de narrativa", pontuou.

O cenário ainda é muito indefinido, mas o analista chama atenção para o fato de a campanha curta tornar o jogo ainda mais intolerante a erros de campanha. "Quem acertar na largada tem uma chance muito grande de ao menos estar no segundo turno", concluiu.

Jairo Pimentel, pesquisador CEPESP (Centro de Política e Economia do Setor Público), FGV
Na avaliação do especialista, são grandes as chances de uma repetição de disputa entre um candidato vermelho (à esquerda) e outro azul (à direita). De um lado, ele vê o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), atual vice na chapa encabeçada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como franco favorito para ir ao segundo turno. Preso há mais de quatro meses por corrupção passiva e lavagem de dinheiro após condenação em segunda instância, Lula está inelegível e tem poucas chances de poder participar da disputa. Seu substituto mais provável é Haddad.

Já do outro lado, uma batalha entre o deputado Jair Bolsonaro (PSL) e o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) ainda tem desfecho absolutamente imprevisível. O primeiro conta com expressiva vantagem nas pesquisas e o apoio convicto de uma fatia relevante do eleitorado. Já o segundo estruturou a maior aliança e contará com ampla vantagem no horário eleitoral e em inserções diárias na programação de rádio e televisão.

"Com o endosso de Lula, não há dúvida de que Haddad é o grande candidato [da esquerda] para ir ao segundo turno. Com a campanha, a transferência [de Lula para Haddad] vai se cristalizar e ele é o favorito para ir ao segundo turno. A dúvida é: vai chegar em primeiro ou segundo lugar no primeiro turno? Temos uma definição mais clara neste campo. Ele está virtualmente no segundo turno", observou Pimentel.

Para ele, a estratégia do PT de manter Lula candidato mesmo com o elevado risco de ser impedido de disputar, em função da Lei da Ficha Limpa, provou-se eleitoralmente eficaz. "Do ponto de vista ético, moral e político, podemos considerar essas críticas de confundir o eleitorado. Do ponto de vista eleitoral, foi a melhor estratégia possível", disse. Mesmo assim, ele admite o risco de uma fragmentação de votos entre candidaturas de esquerda ameaçarem a ida de o nome petista ao segundo turno, embora também chame atenção para o peso do chamado "voto útil" na reta final.

No campo azul, Pimentel observa um ambiente de mais incerteza. "Bolsonaro atingiu um teto, não passa dos 20%. Por outro lado, seu voto espontâneo é elevado e está cristalizado. Está difícil ele cair, e, se isso acontecer, não será uma queda astronômica", analisou. Embora conte com poucos recursos e tempo na televisão, o parlamentar concentra sua estratégia nas redes sociais, ambiente cujos resultados ainda são uma incógnita para analistas políticos.

"A tarefa de Alckmin é mais difícil. Enquanto Bolsonaro tem que 'empatar o jogo', ele precisa virar. Com muito tempo de televisão e considerando o elevado número de indecisos, o tucano vai crescer. A dúvida é se será suficiente", pontuou.

"Alckmin enfrenta um adversário resiliente em um cenário de crítica em relação ao establishment. Além da vinculação com a imagem de [Michel] Temer, ele está há muito tempo no Estado. Pairam dúvidas se vai poder trazer a renovação necessária ou se ele é uma continuidade à política como está", ponderou o cientista político. "Alckmin vai subir nas pesquisas. O quanto ele vai subir e se vai ser suficiente só vamos saber na prática", concluiu.

Eurasia Group
Para os analistas da consultoria de risco político, Bolsonaro e PT ganharam força ao longo dos últimos dois meses e começarão o período de campanha oficial na televisão em uma posição forte -- melhor até do que a anteriormente prevista. A tendência hoje apontada pelos especialistas é de uma disputa de segundo turno entre o parlamentar e um nome que venha a substituir Lula como candidato petista na disputa. Mesmo que o ex-presidente, condenado e preso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, seja impedido de participar da disputa em função da Lei da Ficha Limpa, ele ainda tem elevado potencial de transferir votos a um herdeiro político.

"A base de Bolsonaro parece ter se solidificado. Não apenas seu apoio espontâneo é de 15%, mas 70,7% dos apoiadores de Bolsonaro dizem que seu apoio a ele 'definitivamente não mudará'. Isso é muito mais elevado que o registrado por Marina Silva (33,9%), Alckmin (36,7%) e Ciro Gomes (37,3%). Isso sugere que essa eleição tem dois polos fortes: Bolsonaro em um lado e o PT liderado por Lula no outro, quem tem grande potencial para elevar Fernando Haddad na campanha", escreveram os especialistas em relatório a clientes.

A Eurasia cita o apoio de 32% a Lula no Rio Grande do Sul, segundo o último levantamento Ibope, como uma sinalização de que a força do PT não se limita ao Nordeste e está espalhada por distintas regiões do País. Na outra ponta, eles destacam que Bolsonaro roubou parte da base tradicional de Alckmin, tendo sua melhor performance em estados em que os tucanos venceram na disputa de 2014. Além disso, eles sustentam que a mensagem antiestablishment do parlamentar está claramente ressoando entre os eleitores cansados com escândalos de corrupção.

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