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O improvável ganhador com a confusão jurídica que quase soltou Lula no domingo

Potencial de transferência de votos de Lula ameaça voo de Ciro Gomes e desloca "blocão" para apoiar Geraldo Alckmin

Lula
(Filipe Araújo)

SÃO PAULO - O vaivém jurídico em torno da possível soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no último domingo deu novas demonstrações do capital político de que dispõe o improvável candidato petista. Preso há três meses pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no âmbito da operação Lava Jato e com cada vez menos chances de poder disputar a presidência em outubro em função da Lei da Ficha Limpa, Lula ainda terá relevante papel no processo eleitoral.

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Líder nas pesquisas de intenção de voto nos cenários de primeiro turno que consideram sua candidatura, Lula tem poder nada desprezível de transferir votos a um herdeiro político na disputa. Segundo levantamento feito pelo Ibope entre 21 e 24 de junho, o ex-presidente tem 33% das intenções de voto, contra 15% do segundo colocado, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL).

Pesquisa Datafolha feita entre os dias 6 e 7 do mesmo mês mostra que 30% dos entrevistados com certeza escolheriam um candidato apoiado por Lula, enquanto 17% admitem essa possibilidade. Em uma disputa de elevado nível de fragmentação de candidaturas e patamares baixos, cresce a chance de o ex-presidente conseguir colocar seu candidato no segundo turno, independentemente do nome escolhido.

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Apontado como mais provável "plano B" do PT para as eleições de outubro na ausência de Lula do páreo, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad tem desempenho tímido nas pesquisas de intenção de voto e enfrenta um elevado nível de desconhecimento por parte dos eleitores, apesar da experiência à frente do Ministério da Educação e da prefeitura da maior cidade do país. Nos mais recentes levantamentos divulgados, o petista tem pontuação que varia de 2% (Datafolha) a 8% (DataPoder360), dependendo do cenário considerado e da metodologia aplicada.

O aparente quadro negativo apresenta significativa mudança à medida que seu nome é mais claramente associado à imagem de Lula, ainda candidato oficial do PT, embora com chances remotas de participar da disputa, em função de um possível enquadramento na Lei da Ficha Limpa. É o que mostra a série de pesquisas feitas pelo Ipespe, por encomenda da XP Investimentos. Segundo o último levantamento, realizado entre 2 e 4 de julho, Haddad pode crescer de 2% para 11% com a simples inclusão da informação de que ele seria o nome apoiado por Lula. Seriam mais de 11 milhões de votos conquistados.

Alguns dos possíveis efeitos políticos do episódio do último domingo ainda são desconhecidos, mas Lula pode ter conquistado uma nova arma em seu discurso de vitimização, o que ajuda a mobilizar o eleitorado a três meses do primeiro turno. O episódio pode acender um sinal de alerta sobre a candidatura de Ciro Gomes (PDT), já que reforça o peso de Lula. O ex-governador do Ceará não espera contar com o apoio petista no primeiro turno e sabe que terá que disputar votos na esquerda para avançar na disputa. Nos últimos dias, o pedetista aproximou-se de um importante acordo com o PSB. Em outra frente, Ciro tenta uma aproximação com os partidos do chamado "blocão" (DEM, PP, PRB e Solidariedade).

O grupo de partidos tem considerado uma série de possibilidades para essas eleições. No momento, intensifica conversas com Ciro e o pré-candidato tucano Geraldo Alckmin. Para boa parte das lideranças deste bloco, o ex-governador de São Paulo é o nome preferido, mas as dúvidas sobre a viabilidade da candidatura incentivam negociações com outros perfis. Esta foi a oportunidade que Ciro precisava, sobretudo entre os parlamentares do Nordeste. Não há garantias de que os quatro partidos caminhem junto no processo, mas no momento as conversas têm se dado de forma coletiva. No grupo das legendas, o PRB é o mais resistente a uma coligação com o pedetista.

Conforme pontua o jornalista Bruno Boghossian, em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo, a sombra de Lula voltou a pesar no tabuleiro eleitoral. O barulho provocado pela confusão do último domingo teria assustado integrantes do bloco liderado por DEM e PP, que deram um passo atrás na aproximação ensaiada com Ciro Gomes. A avaliação é que a força do petista tende a atrapalhar a candidatura do pedetista, o que levaria o "blocão" para mais perto de Geraldo Alckmin. A bagunça na esquerda pode ser um trunfo importante para o êxito da centro-direita na disputa. O campeão de "resta um" tem uma nova chance para ganhar parado, mas a inércia não será suficiente para cristalizar apoio sustentável.

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