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Bagunça na esquerda mantém probabilidade de vitória de candidato de centro

Provável divisão do campo político entre duas candidaturas com viabilidade eleitoral ameaça desempenho desta força

Ciro Gomes e Lula
(Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula)

SÃO PAULO - Se o quadro de múltiplas candidaturas e resultados nada satisfatórios de nomes centro-direita nas pesquisas eleitorais preocupa o mercado sobre o futuro de reformas econômicas para o país, um estímulo não intencional vindo da esquerda mantém chances de êxito deste grupo político na corrida presidencial. É o que observa o analista político Rafael Cortes, da Tendências Consultoria, no Mapa Político. O conteúdo está disponível na Loja de Relatórios do InfoMoney.

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Segundo o especialista, da mesma forma como acontece na centro-direita, as disputas internas na esquerda podem pôr em risco o desempenho deste espectro político em outubro. A divisão de votos entre o ex-governador do Ceará Ciro Gomes e um possível nome lançado pelo PT -- provavelmente o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad -- pode barrar a ida de ambos ao segundo turno, abrindo maiores chances à centro-direita, desde que não mantenha o mesmo quadro de fragmentação.

"Do ponto de vista da esquerda, a eventual união do campo asseguraria a presença de Ciro no segundo turno. Se o 'plano B' petista for apoiar Ciro, as chances de segundo turno são enormes. O cenário básico, todavia, é de racha no campo da esquerda com recuperação do domínio petista. Tal celeuma no campo é um dos fatores que ainda mantêm a vitória da centro-direita como o quadro mais possível", observou Cortez no relatório.

Segundo pesquisa realizada pelo Ipespe, por encomenda da XP Investimentos, Haddad salta de 2% das intenções de voto para 11% na simulação de primeiro turno somente com a referência de apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à sua candidatura. Com este patamar, o ex-prefeito fica numericamente atrás apenas do deputado Jair Bolsonaro, que tem 20%, e aparece tecnicamente empatado com a ex-senadora Marina Silva, com 10%, e Ciro Gomes, com 8%, além do próprio ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, que figura com 7%.

Para Cortez, o principal ponto da atual agenda de barganha partidária diz respeito aos esforços de PT, no campo da esquerda, e do PSDB, na centro-direita, para manter a hegemonia da disputa presidencial, como se observou nas últimas seis eleições. Segundo ele, "não há mais tendência natural para os outros partidos desenharem suas estratégias de poder por meio do apoio aos dois partidos", severamente atingidos por desdobramentos de investigações.

"Curiosamente, ambos enfrentam um adversário em comum para proteger sua zona de influência: Ciro Gomes. O pedetista busca ampliar sua coligação de apoio partidário, sob pena de perder seu estoque de votos ao longo da campanha. À esquerda, Ciro busca a coligação com o PSB, histórico aliado do PT. Por outro lado, há sinais crescentes de negociação entre Ciro e o DEM, parceiro natural dos tucanos, desde 1994", explicou.

Na avaliação do especialista, o jogo de alianças terá importante peso na dinâmica eleitoral. Neste sentido, para Ciro a construção de uma coalizão sólida poderia ajudá-lo a evitar uma erosão durante a corrida presidencial, quando a transferência de votos de Lula a seu herdeiro político deve ser observada e o PT deve abandonar a posição de coadjuvante no processo. Para Cortez, parte do bom desempenho do pedetista na disputa se deve à momentânea ausência do "efeito Lula" na campanha.

"O potencial de transferência de votos do ex-presidente Lula não diminui. Grosso modo, 47% dos eleitores sinalizam que podem se movimentar, a partir da indicação do ex-presidente. A prisão não afetou o 'fator Lula' da campanha. Antes da definição do caminho do petista, o mercado eleitoral não deve se estabilizar. Quando o PT definir seu 'plano B', os números da candidatura de Ciro ficam em risco", avaliou.

Embora corra riscos de não ir ao segundo turno neste cenário, Ciro poderia ser o nome com maiores chances de vencer em uma disputa de segundo turno representando a esquerda. A força de Lula, porém, poderia colocar uma candidatura por ele apoiada entre os dois candidatos mais votados na corrida. Por outro lado, a rejeição à figura do ex-presidente poderia atrapalhar o desempenho deste herdeiro a partir daí.

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