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S&P corta perspectiva e deixa Brasil a "um passo do rating junk": o que esperar agora?

S&P manteve rating, mas cortou perspectiva para negativa, o que deve piorar ainda mais as já ruins perspectivas para o Brasil, avaliam economistas; enquanto isso, o BC deve subir mais os juros

Joaquim Levy e Dilma Rousseff
(Roberto Stuckert Filho/ PR)

SÃO PAULO - O temor do governo se concretizou: o Brasil teve a sua perspectiva de rating reduzida de neutra para negativa pela Standard & Poor's, mantendo a nota do País em "BBB-", no limite do grau de investimento. 

E, com a decisão, a agência de classificação de risco sinaliza que o País poderá a ter grau especulativo em breve. "O Brasil deve perder o grau de investimento entre o final deste ano e o primeiro semestre de 2016", avalia o economista-chefe da Garde Asset, Daniel Weeks. 

Conforme destaca o economista, o corte na perspectiva pela Standard & Poor's já era esperado e, agora, fica a expectativa pelo rebaixamento do rating pela Moody's a um degrau do grau especulativo e equiparando-se à S&P.

E há alguns fatores que devem ser olhados para saber sobre por que a agência revisou a sua classificação de risco. Conforme destaca Weeks, a equipe da S&P percebeu que a capacidade do Brasil crescer ficou bem comprometida e que a recessão deve ser ainda mais longa. Além disso, esperava-se que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, conseguiria entregar um ajuste fiscal de maior qualidade e mais robusto. 

Com as revisões das metas de superávit primário na semana passada, passando de 1,13% do PIB para 0,15% do PIB, tanto por conta do cenário político deteriorado quanto pelos gastos engessados (somado a uma carga tributária já bastante alta), o cenário se evidenciou ainda mais complicado.

"Havia uma certa crença nos 'superpoderes' do Levy", ressalta Weeks. Contudo, não é isso que aconteceu, avalia o economista, destacando ainda que o poder de Levy ficou mais enfraquecido depois da semana passada, quando a presidente Dilma Rousseff deu aval para o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, que defendia a redução da meta e um ajuste mais suave. O economista ainda ressalta que isso representa uma mudança bastante significativa ao comparar com os discursos do início do ano do titular da Fazenda, de "tirar o band-aid de uma vez só", ou seja, de fazer um ajuste mais rápido.

Luz no fim do túnel? A decisão passa pelo Congresso...
"Dado que tudo isso foi por água abaixo, ainda não dá para falar que temos uma luz no fim do túnel", diz o economista, avaliando que o cenário de deterioração da confiança dos agentes econômicos pode piorar ainda mais. As incertezas são grandes, avalia, e os riscos de curto prazo aumentaram.

Além disso, há outras questões: qual é o novo modelo de crescimento do País? Sem as reformas necessárias, profundas, o cenário que se aponta é de piora.

Desta forma, o economista da Garde e o economista da Quest Investimentos, André Muller, ressaltam que um dos maiores riscos apontados é o político e é necessário que sejam feitas rediscussões no Congresso sobre oajuste fiscal. 

Um dos pontos ressaltados pela S&P, aponta Muller, é o cenário de aumento do risco político. "[A manutenção do grau de investimento] está bastante atrelada ao cenário político e à sustentabilidade fiscal, com o Congresso tendo que aprovar medidas para a realização do ajuste fiscal".

Já para Weeks, é difícil que o Brasil consiga manter o selo de bom pagador. "Vai ser difícil manter o grau de investimento". 

E, com um cenário ainda mais hostil no âmbito político, como fazer para que o Congresso passe as medidas de ajuste? Cabe lembrar que, em evento realizado pelo LIDE na última segunda-feira, o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) viu uma possibilidade nula do governo cumprir a meta de superávit e ainda fez críticas contundentes ao Palácio do Planalto sobre a tramitação das medidas de ajuste e a articulação política, o que mostra o grau de animosidade entre os poderes Legislativo e o Executivo para a aprovação das medidas. 

Para Weeks, a presidente Dilma fazer uma mea-culpa e tentar se aproximar de outros segmentos políticos não culpando mais fatores externos para a forte queda da economia, pode ser um ponto positivo para a aproximação e conciliação em buscas de reformas mais profundas. 

Efeitos de curto prazo
No curto prazo, avalia, a conclusão que se tira é de que, mais uma vez, sobrará para o Banco Central, através da política monetária, tentando assim equilibrar a política fiscal malsucedida até agora. O Copom (Comitê de Política Monetária) deve elevar a Selic em 0,5 ponto percentual, a 14,25% ao ano, na reunião da próxima quarta-feira, avalia. 

"O Brasil está apenas um degrau acima do grau de investimento. Perdendo a nota, muitos fundos lá fora não poderão mais investir aqui e venderão participações, o que trará uma pressão negativa para a Bolsa", explica Ricardo Kim, analista da XP Investimentos. No entanto, ele acredita que há muitas incertezas no cenário ainda antes que se possa falar com certeza que o Brasil vá cair para o grau especulativo, mesmo que os CDSs (Credit Default Swaps) brasileiros já precifiquem isso. 

 

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