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Vitória de Obama beneficiará o Brasil e a Bovespa, avaliam economistas

Pesquisas apontam que eleição nos EUA mostra empate técnico entre os dois candidatos, mas por aqui a torcida é clara

Obama em campanha - 02/09/12 - eleições EUA
(Larry Downing/Reuters)

SÃO PAULO - Se cada cidadão do mundo pudesse votar para presidente dos EUA, não haveria dúvida: o candidato democrata Barack Obama estaria reeleito. Popular, o primeiro afrodescendente a assumir a cadeira de presidente da maior economia do mundo também é que fará mais bem para o Brasil e para a Bovespa caso seja eleito, na opinião dos economistas.

Entre seus eleitores norte-americanos, no entanto, a situação é um pouco diferente: as pesquisas mostram que Obama está em um empate técnico com o candidato republicano Mitt Romney - algo que pode trazer instabilidade para as bolsas mundiais. Mas entre os economistas brasileiros ouvidos pelo InfoMoney, a torcida é clara. "Obviamente o Obama seria melhor para o Brasil", avalia Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating. 

Economicamente falando, a expectativa é que o candidato democrata se dê melhor. "São duas propostas bastante diferentes, mas acho que o Obama seria melhor para a economia global", avalia André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos. E ao ser melhor para a economia global, Obama também seria bom para o Brasil. 

Perfeito destaca que a popularidade mundial do presidente, seu carisma e suas características de unir as pessoas são o que a economia global precisa no momento - já que o globo passa por dificuldades na Europa, no próprio Estados Unidos e as tensões entre China e Japão são crescentes. "O Obama é mais de consensos do que de conflitos", acredita o economista. 

Presidente vs candidato
A disputa entre Obama e Romney também envolve um certo grau de perigo para a economia mundial, principalmente para os investidores em bolsa. Os norte-americanos já avisaram: caso o republicano seja o eleito, eles deverão aumentar o nível de investimentos em ações, segundo pesquisa elaborada pela gestora de recursos BlackRock. Um movimento comprador nas bolsas dos EUA deve se traduzir em altas também no mercado brasileiro.

O nível de incerteza, porém, é elevado, e há chances de que sob um governo ruim, as bolsas voltem à registrar um ciclo de baixa - e não de alta. "Falar de Obama é mais fácil, ele tem mais histórico", acredita Agostini. Caso o democrata seja o vencedor do pleito, nada muda, as políticas devem continuar parecidas. O republicano vencendo, veremos uma guinada da política econômica da maior potência mundial - trazendo o grau de instabilidade que o mercado geralmente abomina.

Romney não é exatamente um homem sem preparo para ocupar a Casa Branca. Fora governador de Massachusetts por quatro anos - quando eliminou o déficit e reformou o sistema de saúde pública -, comandou uma empresa de private equity e organizou as Olimpíadas de inverno de Salt Lake City. Mas pesa contra si o fato de que não se saberia como o candidato seria como presidente. "Com Romney, nós não sabemos como faria", afirma o economista da Austin Rating.

Obama seria melhor para a relação comercial Brasil/EUA
A avaliação de Agostini é que o candidato democrata tem trazido importantes benefícios para as relações entre os dois países. "Pelas condições de negociação, pela proximidade com os latinos, as relações comerciais deverão ser mais interessantes", acredita. Obama, cita o economista da Austin, tem sido importante para a redução das necessidades de visto entre os dois países, e isso permite que mais brasileiros desfrutem de viagens aos EUA.

"E isso favorece o setor exportador", acredita. Esse próprio fortalecimento pode ser positivo para as ações listadas na BM&FBovespa, já que muitas delas são exportadoras ou possuem forte ligação com o mercado norte-americano, como a JBS (JBSS3) ou a Gerdau (GGBR4). Agostini, porém, alerta: o crescimento Brasil ainda é muito calcado no mercado interno, e o setor externo corresponde à apenas 20% do PIB (Produto Interno Bruto). "Isso não é determinante", avalia. 

Mas será melhor para economia global?
O ponto principal ressaltado tanto por Perfeito quanto por Agostini é a crença de que Obama seria melhor para a economia global. "Obama seria melhor principalmente por conta das políticas monetárias acomodatícias", avalia Perfeito, em referência às políticas utilizadas pelo Federal Reserve, que embora seja independente do governo federal, acabam depende do aval do presidente para definição da liderança da instituição. 

Obama reapontou Ben Bernanke, originalmente colocado no posto por George W. Bush, para um segundo mandato e este iniciou às políticas de expansão de portfólio como forma de colocar dinheiro na economia, os Quantitative Easings. Mesmo filiado ao partido republicano, Bernanke não conta em Romney como um amigo. Com o segundo mandato a terminar em 2014, o economista não deverá ser reapontado caso o republicano seja o ocupante da Casa Branca. 

Bernanke já disse não querer buscar o terceiro nem mesmo sob Obama, mas é possível são de que o democrata venha a colocar outro economista que favoreça políticas mais acomodatícias. Teoricamente, porém, a tentativa de reaver a economia norte-americana através dos QE pode fortalecer toda a economia mundial, favorecendo o Brasil.

Romney, por sua vez, favorece medidas de maior rigidez monetária, uma tradição de uma grande ala do partido republicano, e alguns setores da mídia norte-americana acusaram-o de querer o retorno do padrão-ouro - algo que entusiasma boa parte do eleitorado por lá.

Por conta do que vê como uma tentativa forçada de enfraquecer o dólar, Romney já avisou que o próximo presidente do Fed será alguém que compartilhe as suas visões econômicas. E isso vai de encontro com os interesses brasileiros: isso acabaria com o que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, vem alertando ser a "guerra cambial". Os programas do Fed estariam inundando os emergentes de dólares, elevando, artificialmente, o valor das moedas desses países e tornando o produto norte-americano mais barato. 

China, manipuladora de moeda? 
A "guerra cambial" também é tema da eleição norte-americana: Romney já avisou, no primeiro dia como presidente, deverá declarar a China como uma "manipuladora de moeda" - permitindo que os EUA iniciem uma série de sanções econômicas ao gigante asiático. E abrindo espaço para que o produto brasileiro entre no mercado norte-americano, o maior do mundo. 

Contudo, esse tipo de conflito entre as duas maiores potências mundiais, e principais parceiros comerciais do Brasil, dificilmente beneficiaria o País. "O mundo está passando por um momento em que não seria positivo alguém que criasse ruídos", afirma Perfeito. Pelo enfraquecimento as duas economias, o Brasil correria o risco de perder fôlego juntamente.

O País é um grande exportador de commodities metálicas para a China, que por sua vez, é um grande exportador de produtos beneficiados para os Estados Unidos. Corte uma ponta e provavelmente todo o ciclo sentirá os efeitos. "O Obama provavelmente poderá construir uma economia mais cooperativa no longo prazo", avisa o economista da Gradual. 

O agente anti-cíclico
Com a economia fraca, candidatos de oposição, como fora Obama em 2008, tendem a ganhar força com campanhas baseadas em mudanças. E é exatamente o que Romney apoia no momento. Seu slogan, "Real Change on Day One" (Mudança de verdade no primeiro dia) mostra que o eleitorado está insatisfeito com o ritmo das mudanças do governo democrata nos últimos quatro anos, ou pior, com o caminho que elas tem tomado.

Após anos do que os norte-americanos acreditam ser "gigantismo estatal", Romney promete ser o candidato da iniciativa privada: ele mesmo foi empreendedor ao gerir um dos primeiros grandes fundos de Private Equity nos EUA, e acredita que é fortalecendo a economia privada que fará os Estados Unidos voltar a crescer. "Enquanto o Romney quer incentivar mais a iniciativa privada, o Obama vê importante uma política fiscal mais expansionista", destaca o economista da Gradual.

Na avaliação dele, esse tipo de crença é um erro por parte do candidato republicano. "A iniciativa privada não cria o crescimento, ela segue em busca de lucro", afirma. Perfeito acredita que é necessário um agente anti-cíclico agindo na economia, ou seja, o governo, para estimular o crescimento - através desse tipo de política fiscal.

A grande crítica, porém, fica com o déficit dos EUA - sob Obama, o orçamento ficou no vermelho durante praticamente todo o governo e a dívida cresceu assustadoramente, e o medo é que isto esteja alimentando uma crise ainda maior que 2008. Alguns economistas salientam que os EUA precisarão de ao menos uma década de "desalavancagem", tanto das contas públicas, quanto das privadas. 

Flerte de Romney com a América Latina... pode ser ruim! 
Um dos principais pontos quando se fala de Romney é sua predisposição de fazer negócios com a América Latina em alternativa à China - ponto que ele ressaltou bastante durante campanha e durante os debates e foi considerado um "flerte". Para evitar negociar com os "manipuladores", o candidato republicano estaria interessado em aumentar a exposição aos países ao sul dos EUA, inclusive o Brasil.

Na visão de Perfeito, isso seria um problema. "Se eles vão olhar para a América Latina, é para conseguir melhorar o resultado da balança comercial por aqui", afirma. "Eles terão interesses comerciais mais acentuados", salienta. Já Obama, embora mais protecionista, possui alguns interesses em comum com o Brasil, como o desenvolvimento de um mercado de carros movidos à etanol nos EUA - que poderia fazer com que o Brasil se tornasse um grande exportador do combustível.

Já Agonisti duvida de que as intenções de Romney são verdadeiras, por conta da preferência dada por George W. Bush, último presidente republicano, pelo comércio com a China. "Talvez ele tenha falado isso com viés meramente eleitoreiro, já que os latinos são grande parte do eleitorado", finaliza.

 

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