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Após decisão do Copom, economistas divergem quanto ao rumo da Selic

Parte do mercado projeta retomada da economia, enquanto outra parcela nota a baixa inflação e espera nova redução

SÃO PAULO - Após o corte de 75 pontos-base na Selic na reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) realizada na noite da última quarta-feira (18), passando para 9% ao ano, os olhares se voltam para os próximos passos da política monetária do Banco Central. Enquanto alguns economistas projetam uma manutenção da Selic, outros esperam que a taxa básica de juro seja reduzida ainda mais. 

O comunicado oficial do BC sobre a decisão foi o seguinte: "o Copom considera que, neste momento, permanecem limitados os riscos para a trajetória da inflação. O Comitê nota ainda que, até agora, dada a fragilidade da economia global, a contribuição do setor externo tem sido desinflacionária. Diante disso, dando seguimento ao processo de ajuste das condições monetárias, o Copom decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic para 9,00% a.a., sem viés". Através desse comunicado, o mercado vem traçando possíveis interpretações e projeções sobre o rumo da política do BC. 

Selic deve ser mantida a 9%
De acordo com o economista-chefe da Banif Corretora, Mauro Schneider, o comunicado deixou aberta a possibilidade do ciclo da redução da Selic ter continuidade. Contudo, o economista avalia que as considerações da autoridade monetária sobre a inflação trouxeram dúvidas sobre as intenções do governo em relação à Selic.

Schneider ressalta que, na ata da reunião anterior, de março, o comitê descreveu os "riscos de concretização de um cenário de inflação" como decrescentes e, agora, sinaliza os riscos como "limitados", em um tom menos intenso. Desse modo, o economista considera elevada a probabilidade de encerramento da Selic a 9% no ano. 

Tomando por base a aceleração da atividade doméstica a partir do segundo semestre de 2012, o economista-chefe da Concórdia, Flávio Combat, possui a mesma projeção para a Selic. Esse movimento deve ocorrer, avalia, devido ao afrouxamento monetário, aos estímulos setoriais realizados pelo governo e pelo controle mais eficiente do câmbio, assim como pelas recentes medidas de redução dos juros pelas instituições financeiras

Combat não projeta um aprofundamento da crise global, tendo em vista os indicadores positivos para a economia dos EUA e a tendência de crescimento para a atividade econômica chinesa. "Ainda assim, alertamos que a possibilidade de um novo corte - com a Selic sendo reduzida até mesmo abaixo do mínimo histórico, de 8,75% ao ano - não pode ser completamente descartada, sobretudo diante das divergências comuns entre os comunicados do Copom e as decisões de política monetária", conclui o economista. 

O economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, ressalta ainda que o Banco Central poderia continuar com os cortes da taxa básica de juro, mas que não pode fazê-lo, pois esta política esbarraria principalmente na remuneração de poupança. Perfeito destaca que o viés baixista pode se traduzir de duas maneiras diferentes nas expectativas do mercado: na primeira hipótese, o BC cortaria o patamar da Selic além dos 9%, o que é descartado já que não há um conjunto de informações que sugiram isso; na segunda, haveria uma reação de queda ao longo da curva de juros futuros, fazendo com que os vencimentos mais longos caíssem. 

Ou deve cair mais?
Para os economistas Ilan Goldfajn e Caio Megale, do Itaú Unibanco, o comunicado do BC dá sinais claros de que os juros voltarão a ser reduzidos na próxima reunião do Copom, com uma queda de 50 pontos-base na taxa básica, permanecendo a esse patamar até o final de 2012. Os economistas avaliam que, para a autoridade monetária, os riscos de inflação permanecem limitados, com o comportamento benigno do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) nos últimos meses e a redução maginal das expectativas de inflação contribuindo para isso. Nesse cenário, eventuais entraves institucionais seriam controlados.

A equipe de economistas da LCA Consultores ressalta, por sua vez, que a ausência de sinalização a respeito dos próximos passos da política monetária frustrou uma parcela do mercado que esperava sinalização de encerramento do ajuste da Selic. Com isso, não se elimina a possibilidade de que o BC reveja o tamanho do corte - para 8,75% ou até níveis abaixo desse patamar - e tampouco invalida a sinalização da manutenção da taxa básica de juro. 

Desse modo, a consultoria aguarda a ata da reunião na próxima quarta-feira (25) para esclarecer a possibilidade de revisão de ajuste. "Até lá, mantemos a avaliação de que o ciclo atual de redução do juro básico foi encerrado com o corte promovido na última reunião", baseados na expectativa de que o cenário internacional não deve sofrer deterioração expressiva, além da possibilidade de reaquecimento da economia doméstica e perspectivas de aumento do mercado de crédito com a redução dos juros. 

Já para a equipe de economistas do Bradesco, o comunicado do BC condicionou a decisão futura aos dados - ao cenário prospectivo e aos riscos envolvidos. Ao enfatizar a contribuição desinflacionária do setor externo, avaliam, o BC mostrou que a leitura do ambiente internacional continua cautelosa. 

"Dessa maneira, embora não estejam descartadas as chances de manutenção na próxima reunião em maio, acreditamos ser mais provável que o Copom reduza novamente a taxa de juros, mas desta vez em 50 pontos-base", avaliam. Isso porque, caso o cenário do banco se confirmar, o quadro será de uma retomada no nível de atividade econômica, mas com fragilidade da indústria e acomodação da demanda. 

 

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