Planejamento para sua aposentadoria pode demandar decisão radical

Professor da Universidade de Boston rejeita ações; sem renda variável, trabalhe mais tempo ou viva com menos conforto

Publicidade

SÃO PAULO – O planejamento tradicional para a aposentadoria inclui uma parcela da carteira em ações, em busca dos maiores retornos possíveis no mercado. No entanto, a opção é muito mais questionada do que aparenta.

Zvi Bodie, professor da escola de administração da Universidade de Boston, é destes que discordam radicalmente das premissas assumidas pela tradição teórica das finanças. Um radicalismo conservador, pois a poupança para a aposentadoria é sagrada – não pode estar exposta a risco algum.

O embate é mais acirrado com os que enxergam o mercado de modo simplista, ofuscados pelos rendimentos que as ações podem trazer. Mas há também aqueles que buscam o que está por trás das ilusões do mercado, focando seus investimentos na capacidade de crescimento das empresas.

Apenas o que sobra

É preciso defender o professor das críticas sobre casuísmo. Sua aversão completa a riscos vem de longa data, sendo tema de alguns livros e estudos publicados muito antes da eclosão da atual crise.

Isto não quer dizer que Zvi Bodie descarte as ações como opção para investimento. Contudo, recomenda que somente se deva alocar em renda variável aquilo que se pode perder. Para a aposentadoria, ele não titubeia ao recomendar que os investidores aloquem 100% de sua carteira em títulos públicos protegidos da inflação.

Se para chegar à aposentadoria é preciso arriscar, em busca de retornos maiores, o acadêmico sugere a revisão das premissas. “Você precisa fazer um sacrifício em algum lugar”, disse em entrevista recente à CNN; signifique isto aceitar um padrão de vida mais baixo ou se aposentar mais tarde.

Continua depois da publicidade

Ele reconhece, contudo, que alguns riscos não podem ser eliminados. Seja qual for o ativo escolhido ou a disposição para continuar no mercado de trabalho. “Há alguns riscos com os quais temos que conviver. E não é possível resolver isso pelo investimento em ações”, comentou Bodie.

Moderação

Sem a ganância cega pelos retornos, capaz de causar desastres de um dia para o outro, não são poucos os investidores que veem nas ações uma forma de potencializar a poupança para aposentadoria.

Para isto, é crucial alterar estratégia e foco, ao mesmo tempo em que se pondera a fase da vida por que passa o investidor. Investidores como Warren Buffett, o bilionário controlador da Berkshire Hathaway, tentam pôr o mundo das hipóteses de lado, atentando principalmente para fatores específicos de cada empresa.

Continua depois da publicidade

“Eu não compro ações tendo por base se nós vamos sair da recessão em três meses, seis meses ou um ano. Eu compro porque acredito em seu valor ao longo do tempo”, disse Buffett em recente entrevista à revista Fortune. “E eu acredito ser um erro que os investidores focalizem projeções para o negócio, em vez de olhar para o valor intrínseco do negócio”, completou.

Juventude enganosa

Embora busque refúgio em uma análise qualitativa diferente, o investidor não pode descuidar dos riscos a que está sujeito. Se do dia para a noite suas posições podem ser pulverizadas, a proximidade com a idade da aposentadoria pede uma menor exposição aos riscos, pois resta pouco tempo para se recuperar possíveis perdas. Da mesma forma, vale a pena correr mais riscos quando se é jovem.

Zvi Bodie discorda da ideia de que o risco do investimento em ações é menor no longo prazo. “O dinheiro para aposentadoria pertence aos ativos verdadeiramente seguros, cujo valor não se desfaz, não em ações”, conclui o professor da Universidade de Boston.