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SÃO PAULO – Às vezes, o mundo se depara com um grande acontecimento econômico que é mal compreendido e, por isso, deixado de lado como algo de pouca relevância. Pouco depois, entretanto, esse acontecimento volta e pega todos de surpresa. O avanço da China como grande influenciadora das dinâmicas de crescimento, preços, emprego e riqueza no mundo, e o colapso das seguradoras e do mercado imobiliário nos EUA também se encaixam nesta descrição.
Segundo Mohamed El-Erian, presidente da Pimco, atualmente há um acontecimento assim ao qual as pessoas deveriam se atentar: a deterioração simultânea e significativa das finanças públicas nas economias desenvolvidas. “Isso não pode ser olhado sob uma perspectiva míope, pensando apenas na Grécia”, afirma o gestor. “É uma mudança de regime significativa nas economias avançadas, que terá efeitos no longo prazo”.
1 e 2: Emergentes e avançados
Para El-Erian, há seis pontos que mostram que o problema de déficit não é tão simples ou tão raso quanto parece – e que irá, na verdade, mudar a dinâmica da economia. Primeiramente, é preciso considerar a origem do problema inicial: a expansão descontrolada das folhas de pagamento dos governos, realizada para socorrer os mercados financeiro e imobiliário durante a crise, além de garantir o consumo.
Essa expansão, é claro, tem suas consequências. “Nos EUA, a dívida avançou impensáveis 20 pontos percentuais do PIB em menos de 2 anos, e mesmo no cenário mais otimista, deve seguir avançando pelos próximos 10 anos”, explica o gestor. Com isso, os países que representam mais de 40% do PIB global têm déficits fiscais de mais de 10% dos PIBs nacionais – nos últimos 30 anos, essa porcentagem foi entre 0% e 5%.
O segundo ponto é amplamente ligado ao primeiro. Se antes os emergentes eram os países com maiores déficits, hoje esse é um fardo dos desenvolvidos. “As classificações convencionais estão perdendo relevância – em especial, os conceitos ligados à relação economias avançadas versus emergentes”.
3 e 4: Plano de ação dos governos
Para El-Erian, não há dúvidas de que os governos das economias avançadas vão se adaptar à nova situação. O problema, aqui, é como, quando e qual o impacto colateral causado pela adaptação. “É preciso ter uma combinação de crescimento e boa vontade do setor privado em manter as dívidas do governo. Mas com o desemprego em alta e o crescimento em baixa, há muitos riscos, que exigirão decisões difíceis sobre elevação de impostos e corte de custos. Caso isso não aconteça em tempo, teremos forte alta da inflação para conter o débito, e até mesmo um default”, afirma o gestor.
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Uma das possíveis medidas seria impor soluções para setores específicos das economias domésticas, o que é relevante quando há uma possibilidade limitada de “migração” de atividades para outros países. “É o caso atualmente, devido a natureza generalizada do problema nas finanças públicas”, diz El-Erian.
5 e 6: Globalização, surpresa e timing
A globalização, que ajudou a “espalhar” a crise, também se mostra um fator complicador no caso da dívida. Isso porque a eficácia de qualquer medida de consolidação fiscal não depende só do governo, mas da reação de outros países.
“Tudo isso sustenta a teoria de que o choque às folhas de pagamento é altamente relevante, e não pode ser dispensado como um evento isolado, temporário e, mais importante, reversível”, afirma o presidente da Pimco.
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O que nos leva ao sexto ponto de El-Erian: não devemos ficar surpresos quando os problemas de dívida se expandirem, causando novos danos ao setor privado e público. Além disso, reconhecer o problema a tempo é necessário, mas pode não ser suficiente. É preciso também uma reação correta – e o histórico sugere que não é fácil para governos e empresas superar compromissos internos feitos antes de o problema estourar.
Em suma, não adianta simplesmente ignorar a questão do avanço dos déficits públicos, relegando-o a países como a Grécia – cuja dívida já tem menos efeito nos mercados, depois dos anúncios de ajuda de países da Zona do Euro. “Quanto mais cedo percebermos o problema e seu tamanho, maior a probabilidade de conseguirmos ficar alguns passos a frente do colapso, ao invés de logo embaixo dele”, conclui o gestor.