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SÃO PAULO – Compreender a crise atual é como unir peças de um quebra-cabeça confuso. Respeitando a metáfora, o gestor da Pimco Bill Gross afirma já ter completado as bordas e algumas das lacunas interiores.
Os quatro cantos da grande imagem são resumidos da seguinte forma por Gross:
- A queda no preço dos imóveis tem que cessar para que a economia norte-americana volte a crescer de maneira saudável.
- As soluções encontradas para a crise levarão a um aumento da regulamentação sobre os mercados e impulsionarão a inflação.
- O banqueiro John Pierpont Morgan estava certo: é o caráter, e não o portfólio de ativos, que fundamenta a confiança na tomada de empréstimos.
- Há mais pessoas compensando as perdas do subprime do que se imagina.
Limite para as casas
“Casas representam o ativo mais valioso dos consumidores norte-americanos”, lembra Bill Gross. Logo, se elas continuarem mais e mais baratas, certamente arrastarão consigo os alicerces da economia.
Segundo cálculos do gestor, uma queda acumulada de 20% nos preços dos imóveis seria muito mais grave que a explosão da bolha tecnológica, em 2001. Isso é válido graças aos impactos diretos sobre a riqueza das famílias.
Temendo o pior, Gross critica a ortodoxia dos republicanos. O presidente George W. Bush e o secretário do Tesouro Henry Paulson argumentam que o setor imobiliário deve chegar ao seu piso de forma natural, para só então iniciar uma recuperação sustentável. “No entanto, podemos ter passado do ponto de inflexão sadio, sem ter chegado ainda no natural”.
Efeitos colaterais
O recente convite para que bancos de investimento participem do seleto clube de acesso à janela de redesconto vem acompanhado de um preço alto. Requisitos de solvência típicos de bancos comerciais podem ser estendidos aos grandes nomes de Wall Street. Na visão de Bill Gross, isso compromete os lucros de Goldman Sachs, Lehman Brothers e Merrill Lynch.
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Em complemento, o gestor da Pimco avalia os sacrifícios inerentes à tentativa de dar nova vida a títulos ilíquidos atrelados ao subprime. Sob posse de importantes agentes privados, esses títulos só recuperam sua atratividade se seu custo de oportunidade cair muito. Por isso, quedas maciças da Fed Funds Rate funcionam como uma peculiar busca pela reflação de ativos impopulares.
Má reputação
A venda forçada do Bear Stearns para o JP Morgan é mais um exemplo – o maior até agora – da parte oculta do setor financeiro vindo à tona. O gestor da Pimco lembra que o Bear era o mais alavancado dos grandes bancos de investimento, e sua fama nunca foi muito boa em Wall Street. A combinação de ambos os fatores culminou em rápidas chamadas de margem contra ativos que vinham sendo financiados com desconfiança pelo sistema.
Bill Gross acha que a queda do Bear é explicada por uma frase notável de J. P. Morgan: “empréstimos não são baseados primeiramente em dinheiro ou propriedade; antes de tudo isso, vem o caráter”. O caráter não é dado por agências de classificação de risco, mas sim pelas impressões diretas advindas do próprio mercado.
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Todos pagam a conta
Embora nem todos percebam, a ajuda às principais vítimas do subprime depende de uma socialização das perdas. Segundo o gestor da Pimco, aquele norte-americano comum, cujas economias estão aplicadas em fundos de renda fixa pós-fixados, viu seu rendimento esperado despencar em apenas alguns meses.
Além da deterioração da poupança, há o risco inflacionário. Como já dito por Gross, a reflação de ativos quase mortos tende a elevar o nível geral de preços. Pior para as famílias.