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SÃO PAULO – “Os preços dos ativos estão incluídos não só nas nossas mentes, mas na taxa de crescimento da economia; se eles não melhoram, a economia também não”. É assim que Bill Gross, da Pimco, explica um dos principais problemas da economia atual.
O diretor da gestora de recursos afirma que “as pessoas aprenderam a se focar nos mercados, ao invés da fundação econômica por trás deles”. Com isso, todos os ativos hoje estão supervalorizados em longo prazo.
De acordo com Gross, os Estados Unidos e a maior parte das outras economias do G-7 têm sido influenciadas de maneira “significativa e artificial” pela apreciação do preço dos ativos por décadas. O crescimento, por sua vez, foi influenciado por alavancagem, securitização e o pensamento que a criação de valor era decorrente do avanço dos ativos, e não da produção de serviços e produtos.
O ovo e a galinha
Segundo Gross, o dilema lembra a discussão de quem veio primeiro – o ovo ou a galinha. Em teoria, o preço dos ativos e o crescimento PIB nominal deveriam se mover juntos. Mas não é o caso. “O que acontece é que nossa economia baseada em ativos impulsionou não só os preços de ações, mas os de todos os tipos de ativos muito acima do crescimento real necessário para sustentá-los”, afirma Gross.
Para comprovar a afirmação, a Pimco fez uma comparação entre a taxa de crescimento anual de uma série de ativos geralmente relacionados à evolução da economia – como ações, títulos de renda fixa, imóveis – com o PIB nominal, começando em 1956. No início do período de comparação, os ativos não se valorizaram a uma taxa mais elevada, pois o crescimento econômico real pesava mais. “Estávamos ganhando dinheiro produzindo coisas e não papéis”, explica Gross.
Entretanto, no início dos anos 1980, isso mudou. Com o desenvolvimento de derivativos e uso mais intenso de alavancagens, o mercado financeiro começou a se sobrepor. Com isso, passou a ser mais produtivo investir em papéis do que em empresas e indústrias. “Estávamos esvaziando nosso futuro produtivo à custa de ativos sem valor algum como subprimes”, afirma a gestora.
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100%
A conseqüência disso é que o retorno dos ativos foi 100% maior do que teoricamente deveria ter sido. Gross deixa claro que essa avaliação é simplista e pessimista – o que significa que o Dow Jones deveria estar a 7 mil pontos e o preço dos imóveis deveria ser metade do que era em 2007. “A alavancagem financeira levou a uma valorização extraordinária dos preços – e pode haver conseqüências disso, caso o crescimento do PIB volte a ser mais importante”.
Segundo Gross, essa valorização excessiva não passou despercebida pelas autoridades. Entretanto, o problema é que o preço dos ativos está hoje tão ligado ao avanço da economia que o atual patamar de preços deve ser sustentado para gerar crescimento do PIB nominal no futuro. “O objetivo agora é manter o paciente (a economia capitalista, no caso) viva através de apoio aos preços, mas no ritmo do antigo normal, se possível”, afirma.
Apesar de alguns ajustes já haverem ocorrido, as medidas de estímulo do governo norte-americano têm ajudado a sustentar o preço dos ativos. As intervenções do governo já atingem, segundo a Pimco, em torno de US$ 5 trilhões, compensando em parte os US$ 15 bilhões de supervalorização.
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Gross aponta que esse não seria o único jeito de sair da crise: a China, por exemplo, tomou outro caminh, e não está investindo no mercado financeiro, mas colocando dinheiro na economia real.
Fim do rali
Segundo Gross, o PIB nominal deve mostrar sinais de estabilização perto de 4% para que o Fed esteja disposto a arriscar uma alta dos juros. “O custo atual dos mercados de débito norte-americanos é próximo de 6% e o PIB nominal deve crescer em torno disso para que haja mudança na taxa”, explica. Considerando as dúvidas sobre a sustentabilidade desses 4%, o Fed deve esperar entre 12 e 18 meses com crescimento do PIB nominal em 4% para abandonar a taxa de 0% ao ano.
Uma taxa de juro em 0% ao ano, como a atual, é anormal nos mercados. Assim, com essas políticas atípicas, Gross explica que os investidores de bonds devem reconhecer que os compradores artificiais de notas indexadas à inflação e títulos de dívida do governo- os programas de auxílio – pressionaram todas as taxas de juros.
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Estendendo a análise para o mercado de bonds norte-americano como um todo, os yields são de apenas 3,5%. “Para obter mais do que isso, é preciso disseminar a noção de uma recuperação em V e um retorno à economia normal – o que não é provável, e os riscos superam as recompensas agora”, afirma Gross. Com isso, ele conclui que o rali que já dura 6 meses nos ativos de risco, apesar de ainda contar com o apoio do Fed e outras autoridades, já atingiu seu ponto máximo.