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Ao longo de 2006, a inflação americana incomodou. Os consumidores temiam um aumento do custo de vida, os analistas previam aumento de juros e o banco central americano (FED – Federal Reserve Bank) tinha enorme dificuldade em utilizar a política monetária para compensar a desaceleração do setor imobiliário.
O ano de 2007 não começou diferente. Quais eram os motivos de pressão inflacionária que predominaram até então? Alta utilização de recursos e commodities em alta. No entanto, a economia está desacelerando com mais força e o aumento do desemprego parece ser uma questão de tempo. Assim, os fatores que ainda mantém o risco inflacionário são um dólar fraco e commodities, em particular, o petróleo. Será?
As evidências dos efeitos do dólar sobre o núcleo da inflação (medida que o Fed utiliza para caracterizar estabilidade de preços) são menos claras. Um cenário de stress para inflação engloba a China como fator de pressão. O fim do regime de câmbio fixo pode trazer uma nova perspectiva para a inflação dos produtos chineses quando a taxa finalmente começar a flutuar. Por enquanto, não utilizaremos uma premissa tão incerta quanto esta para traçarmos nosso cenário de inflação.
| “Devemos nos preocupar com esse novo recorde histórico que o petróleo atingiu?” |
Para o caso das commodities, as evidências são menos nebulosas. Um artigo esclarecedor de Hooker (2002) mostra que a correlação dos preços do petróleo e do núcleo da inflação variou muito ao longo do tempo, com uma forte quebra estrutural na década de 80.
Até 1981, o contágio era bastante forte: se os preços do petróleo duplicassem, o core PCE (medida de preços do consumidor mais observado pelo Fed, que exclui preços de alimentos e energia) aumentaria em 3 pontos percentuais.
Desde então, a sensibilidade da inflação aos aumentos do preço do óleo caiu significativamente, tornando-se negligenciável. Nesse cenário, a política monetária norte-americana foi menos influenciada pelas variações do petróleo, se concentrando mais sobre o contágio desses preços sobre as expectativas dos consumidores, certamente mais relevantes para o objetivo do controle de preços.
Assim, a primeira grande pergunta é: devemos nos preocupar com esse novo recorde histórico que o petróleo atingiu no dia 6 de novembro, encerrando o dia em US$ 96,70? O Federal Reserve, por obrigação e eficiência, é o agente mais conservador do mercado, e levantou dúvidas quanto à sustentabilidade da inflação devido às recentes altas do petróleo.
O debate não tem uma resolução inequívoca. Há alguns indícios de que o efeito das altas do óleo para o PCE core é muito baixo, enquanto outros acreditam que estamos passando por um choque e, por isso, os modelos podem não responder corretamente.
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Fico no primeiro time, achando que não há com que nos preocuparmos em relação à inflação, com o petróleo batendo a casa dos US$ 100. Pode ser um risco para atividade, mas isso seria outro debate. A segunda grande questão seria: o que causou tal mudança na transmissão do petróleo para inflação?
Minha primeira suspeita recai sobre o aumento da eficiência da política monetária e da inclusão das expectativas nos modelos dos bancos centrais. O gráfico abaixo mostra que o núcleo do PCE e o preço do petróleo tinham correlação razoável até meados da década de 80, com crescente descolamento.
No entanto, essa é uma discussão longa, que merece atenção. Com os indícios que temos hoje, não podemos confirmar, nem rejeitar de forma inequívoca nenhuma afirmação. A resposta só virá com o tempo, com as respostas que os dados econômicos sempre nos dão.
Ivo Chermont é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney, às terças-feiras.
ivo.chermont@infomoney.com.br