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O petróleo voltou a recuar nesta terça-feira após notícias de que o Irã estaria disposto a reabrir o Estreito de Ormuz em até sete dias, caso os Estados Unidos deem os primeiros passos para reduzir a pressão militar. O movimento levou o Brent a operar novamente abaixo da marca psicológica de US$ 100 por barril nesta terça-feira (22), alimentando a percepção de que a crise energética no Oriente Médio pode estar próxima de uma solução.
Mas ainda há muito cautela no mercado. Houve volatilidade na própria sessão, em meio à fala de Donald Trump, presidente dos EUA, na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Ele pediu “isolamento econômico completo” do Irã, o que fez com que o petróleo zerasse a perda, que foi revertida posteriormente. O presidente também disse que EUA e Venezuela fecharam acordo envolvendo 65 mi de barris de petróleo e que grandes petroleiras estão entrando no país.
Em relatório da última semana, o JPMorgan ressaltou que a grande questão para a commodity deixou de ser quando o conflito termina e passou a ser como o mercado consegue funcionar enquanto ele continua.
No início do conflito entre Estados Unidos e Irã, o banco trabalhava com a hipótese de que haveria limites econômicos que forçariam uma solução diplomática relativamente rápida. Entre esses limites estavam petróleo próximo de US$ 100, gasolina elevada nos EUA e pressões inflacionárias relevantes. Contudo, vários desses níveis já foram ultrapassados.
Segundo a equipe liderada por Natasha Kaneva, o Brent está negociando acima do valor justo estimado pelo banco. Pelos cálculos da instituição, as condições atuais de oferta e demanda justificariam preços mais próximos de US$ 90 por barril, mas o mercado continua pagando um prêmio significativo pelo risco geopolítico.
Isso ocorre porque os investidores não estão precificando apenas a interrupção atual do fornecimento, mas a possibilidade de novas perdas adicionais de produção.
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Estoques ainda evitam um choque maior
Um dos motivos pelos quais o petróleo não disparou ainda mais foi a forma como consumidores, governos e refinarias reagiram à crise.
Ao contrário do que o JPMorgan esperava meses atrás, o ajuste não ocorreu por meio de uma grande queima de estoques globais. Em vez disso, o mundo passou a consumir menos petróleo do que se imaginava inicialmente.
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Os estoques globais caíram cerca de 555 milhões de barris desde o início da crise, volume significativamente inferior ao previsto anteriormente pelo banco. Ao mesmo tempo, a demanda passou a rodar aproximadamente 4,4 milhões de barris por dia abaixo dos níveis observados um ano antes.
Na prática, o mercado encontrou uma forma de equilibrar oferta e demanda sem consumir toda a reserva disponível.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que o anúncio de uma possível reabertura de Ormuz provoca quedas imediatas nas cotações: os investidores ainda acreditam que existe capacidade suficiente para absorver parte dos choques sem uma explosão permanente dos preços.
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Mercado físico
O problema é que os sinais do mercado físico contam uma história diferente.
Segundo o Bank of America, a combinação de restrições ao fluxo de petróleo no Estreito de Ormuz, ataques à infraestrutura energética e limitações adicionais em exportações do Oriente Médio e da Rússia transformou o choque atual em algo mais estrutural do que episódico.
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A instituição afirma que os estoques globais de petróleo e derivados seguem em queda, enquanto reservas estratégicas já foram parcialmente utilizadas. Ao mesmo tempo, margens de refino continuam extremamente elevadas, sugerindo escassez relevante de combustíveis.
O próprio mercado de diesel continua enviando um sinal de alerta. Enquanto o petróleo cai, os preços do diesel permanecem próximos de máximas históricas nos Estados Unidos e na Europa, refletindo dificuldades no abastecimento global de produtos refinados. A situação também é destacada pelo JPMorgan, que vê o diesel como um dos principais pontos de vulnerabilidade da cadeia energética atual.
Fluxo continua passando por Ormuz
Outro ponto importante é que o mercado físico ainda não voltou à normalidade.
Em relatório divulgado na semana passada, o JPMorgan chamou atenção para a surpreendente resistência dos fluxos de petróleo no Oriente Médio. Apesar dos problemas de infraestrutura e dos riscos militares, a região continua exportando volumes relevantes por meio de soluções logísticas alternativas.
Segundo o banco, os embarques pelo Estreito de Ormuz voltaram a ganhar importância e alcançaram cerca de 10,4 milhões de barris por dia recentemente, ajudando a compensar parte das perdas em outras rotas. A Arábia Saudita, inclusive, elevou significativamente os embarques na região nas últimas semanas.
Mas essa solução depende, em boa medida, da continuidade da tolerância iraniana ao trânsito de embarcações. “Por enquanto, a alternativa está funcionando, desde que o Irã permita”, resume o banco.
Risco assimétrico
Para o Bank of America, este é o ponto de cautela mesmo quando o petróleo cai. A casa revisou sua projeção para o Brent no segundo semestre de 2026 para US$ 95 por barril, acima dos US$ 83 estimados anteriormente. Embora espere uma média próxima de US$ 80 em 2027, o banco enfatiza que a principal mudança está no aumento do risco de cenários extremos.
Na avaliação da instituição, caso os confrontos persistam por mais tempo ou ocorram novos danos à infraestrutura energética, o petróleo poderia precisar subir muito acima de US$ 150 por barril para forçar uma destruição efetiva da demanda global.
Ole Hansen, chefe de estratégia de commodities do Saxo Bank, disse que não vê muito espaço para queda adicional nos preços do petróleo até que haja um aumento na oferta pelo Estreito de Ormuz, particularmente de produtos refinados, onde a verdadeira escassez persiste.
Os preços do diesel subiram na Europa e nos Estados Unidos, atingindo níveis recordes, à medida que as guerras no Irã e na Ucrânia reduziram drasticamente as exportações de alguns dos maiores produtores, como Rússia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
(com Reuters)
