O tri mais fraco do ano? Petrobras cai após balanço, mas mercado espera melhora

Números foram abaixo do esperado mesmo com expectativas já mais baixas, mas ainda foram vistos como bons; distribuição dos dividendos extra seguem na agenda dos investidores

Lara Rizério

Fachada da sede da Petrobras, no Rio de Janeiro (FOTO ANDRÉ MOTTA DE SOUZA/AGÊNCIA PETROBRAS)

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A Petrobras (PETR4) divulgou seus resultados dos primeiros três meses de 2024 (1T24) na noite da última segunda-feira (13) sem grandes emoções como na divulgação passada, quando a retenção dos dividendos (parcialmente revertida em abril) foi o grande destaque. Ainda assim, os resultados foram mais fracos do que o esperado, o que também levou a dividendos um pouco mais baixos do que a maior parte dos analistas estava projetando. Com isso, as ações PETR3 caíram 2,74%, a R$ 42,93, enquanto as PETR4 tiveram baixa de 1,80%, a R$ 40,87.

O lucro líquido da Petrobras recuou 37,9% no primeiro trimestre na comparação com o mesmo período do ano anterior, somando R$ 23,7 bilhões, com menores volumes de vendas e devido à redução do preço do petróleo e da margem de diesel.

O lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação (Ebitda) ajustado totalizou R$ 60,04 bilhões entre janeiro e março, queda de 17,2% versus o mesmo período de 2023.

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Com o resultado, a Petrobras aprovou um pagamento de R$ 13,45 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio (JCP) intercalares aos acionistas, o equivalente a US$ 2,61 bilhões, no piso das projeções dos bancos, enquanto os que projetavam mais proventos estimavam valores acima de US$ 3 bilhões.

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A XP aponta que o Ebitda da Petrobras ficou 6% abaixo da sua expectativa, enquanto o lucro líquido ficou em linha (-2% versus expectativa). Não houve uma razão única para a diferença de Ebitda, avaliam os analistas da casa, mas sim uma combinação de pequenos itens. A produção diminuiu 5,5% no 1T24 frente o 4T23, devido a paradas de manutenção, o que levou a custos de extração mais elevados (+9,4%) e, consequentemente, a margens de exploração e produção ligeiramente mais baixas.

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Os custos foram também uma ligeira surpresa negativa tanto nos itens gerais e administrativos como nos outros custos ( paradas de manutenção + provisões judiciais + remuneração variável). “Em suma, acreditamos que o 1T24 apenas deverá desencadear pequenas revisões”, avalia a equipe de análise.

Por outro lado, a XP aponta ser interessante notar que a conversão de Ebitda para caixa foi um destaque positivo. O fluxo de caixa das operações antes de impostos e capital de giro (ou seja, o equivalente ao Ebitda na demonstração de fluxo de caixa) foi de US$ 13,1 bilhões, em linha com a estimativa da equipe de análise de US$ 13,2 bilhões, o que sugere encargos não-caixa substanciais para o demonstrativo de resultados da petroleira. A alavancagem da Petrobras também permanece baixa, uma vez que a empresa continua a gerar um fluxo de caixa substancial que excede as distribuições aos acionistas (US$ 3,7 bilhões no trimestre, dos quais US$ 232 milhões em recompras).

“A baixa alavancagem e o forte fluxo de caixa da Petrobras suscitam a questão de saber para onde fluirá o excesso de geração de caixa. Em nossa opinião, será uma combinação de potenciais fusões e aquisições (por exemplo, investimentos na refinaria de Mataripe ou na Braskem) e dividendos extraordinários no final do ano. Também esperamos que o capex aumente organicamente nos próximos anos, mas não no curto prazo. Assim, esperamos que os próximos dividendos se mantenham a um nível semelhante ao do 1T24 (cerca de 10% de dividend yield, ou dividendo em relação ao valor da ação, anualizado com base na política de dividendos), mas há potencial para subir para o FCFE yield, ou rentabilidade de fluxo de caixa (18% anualizado) se as potenciais aquisições não se concretizarem”, avalia a XP.

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O Itaú BBA também apontou um Ebitda ajustado recorrente abaixo do esperado e avaliou o baixo ritmo de implementação de investimentos, com investimentos totalizando US$ 3,0 bilhões (16% do investimento do Plano Estratégico para o ano de US$ 18,5 bilhões). “Observe que os investimentos normalmente aumentam ao longo do ano, mas em comparação com os primeiros trimestres anteriores, isso pode indicar um ritmo lento de implementação”, destaca o banco.

A Genial vê que os números da empresa ficaram abaixo das estimativas e do consenso devido principalmente a retenção de preços dos derivados no segmento de refino ao longo do 1T24, mas aposta para a normalização do mercado. Enquanto isso, reforça a avaliação de que, ainda que abaixo do consenso, a geração de caixa livre (Fluxo de caixa operacional – Investimentos) fechou em patamares muito interessantes. Assim, ainda que com um resultado abaixo do esperado, a companhia segue gerando caixa e pagando dividendos.

Olhando para frente, o Bradesco BBI espera ver uma melhora nos resultados trimestrais, antecipando o aumento dos preços do Brent e a recuperação da produção que foi afetada negativamente pelas paradas de manutenção no 1T24. Além disso, ainda prevê um dividend yield de 12% para 2025, com potencial aumento dependendo de pagamentos complementares. “Mantemos nossa classificação outperform [desempenho acima da média do mercado, equivalente à compra], já que a tese de investimento total da Petrobras ainda é sólida, apesar da perda trimestral”, avalia a equipe de análise do banco.

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Ainda que abaixo do que projetava, o Morgan Stanley vê o resultado como um “não-evento” e avalia que um fator mais importante será qualquer sinalização de nova distribuição extraordinária de dividendos nos próximos dois trimestres. “O saldo de caixa cresceu para US$ 18,2 bilhões (de US$ 17,9 bilhões no 4T23 e US$ 15,8 bilhões no 1T23), deixando poder de fogo para dividendos extraordinários e gerenciamento de passivos. Acreditamos que há espaço para que grande parte dos dividendos extraordinários retidos de 50% [em março] sejam distribuídos, talvez de forma gradual, juntamente com os resultados do 2T24 e 3T24”, avalia o Morgan.

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O banco americano, contudo, tem recomendação equalweight (desempenho em linha com a média do mercado, equivalente à neutro) por ainda ver risco de intervenção política, a mesma recomendação da Genial. A casa de research pondera, contudo, que a possibilidade do governo seguir distribuindo dividendos extraordinários no 2S24 deve ser acompanhada de perto e tende a ser um gatilho interessante para a empresa ao longo do ano. O Bradesco BBI e a XP, por sua vez, possuem recomendação equivalente à compra para os ativos.

O BTG Pactual, que tem recomendação equivalente à compra para os ativos, questiona se esse foi o trimestre mais fraco do ano e reitera que os principais pilares da tese positiva permanecem em vigor, com melhoras no balanço ao longo do ano. Menos paradas para manutenção e adição de uma nova plataforma no 2S24 deverão impulsionar a produção nos próximos nove meses, gerando maior alavancagem operacional e levando o aumento de custos a uma espiral descendente. Combinado com investimentos menores e uma posição de caixa de aproximadamente US$ 18 bilhões (acima do ideal), isso deverá suportar pagamentos mais elevados (e potencialmente extraordinários) no futuro.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.