Petrobras: bons resultados e dividendos no 3T, mas “capex” em alta gera preocupação

Resultados operacionais surpreenderam positivamente, mas analistas veem investimentos em capital em alta podendo comprometer estimativas para estatal

Lara Rizério

Ativos mencionados na matéria

Navio-sonda a serviço da Petrobras usado na perfuração na Bacia da Foz do Rio Amazonas é visto na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, Brasil
20/05/2025
REUTERS/Pilar Olivares
Navio-sonda a serviço da Petrobras usado na perfuração na Bacia da Foz do Rio Amazonas é visto na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, Brasil 20/05/2025 REUTERS/Pilar Olivares

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A Petrobras (PETR3;PETR4) divulgou resultado do terceiro trimestre de 2025 (3T25) e dividendos de R$ 12,2 bilhões (cerca de US$ 2,3 bilhões) na noite da última quinta-feira (6).

As expectativas para os resultados, aponta a XP Investimentos, eram elevadas, considerando a queda nos preços do petróleo, o fluxo de caixa decepcionante no 2T25 e a expectativa em torno do novo plano estratégico.

“Ainda assim, a Petrobras entregou resultados acima do esperado”, aponta a equipe de análise. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) ajustado totalizou US$ 11,95 bilhões (+17% trimestre a trimestre), superando as estimativas da casa e as do consenso em 5%”, apontam Regis Cardoso e João Rodrigues, analistas da XP. O lucro líquido foi de aproximadamente US$ 6,1 bilhões, 37% acima da estimativa da XP.

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Para o Morgan Stanley, os resultados operacionais foram fortes, impulsionados pelo crescimento da produção, e levaram a um aumento sequencial do FCF (fluxo de caixa livre) para US$ 2 bilhões (após arrendamentos), em comparação com os US$ 800 milhões do 2T25.

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A Genial Investimentos ressalta o resultado operacional e financeiro robusto no 3T25, com expansão de margens, forte geração de caixa e execução acelerada de projetos estratégicos. A receita líquida consolidada somou R$ 127,9 bilhões, avanço de 7,4% trimestralmente, impulsionada pelo aumento de 8% na produção total e exportações recordes de 814 kbpd (mil barris por dia), que compensaram parcialmente o Brent ainda em patamar moderado após um trimestre marcado por grande volatilidade no preço da commodity.

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Capex e dividendos

Por outro lado, a XP aponta que o principal ponto de atenção foi o aumento do capex. Os investimentos reportados foram de US$ 5,5 bilhões (versus US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões nos últimos trimestres e alta de 24% ante o 2T25), impulsionados principalmente por projetos de desenvolvimento do pré-sal. Com isso, elevou o gasto acumulado no ano para US$ 14 bilhões, de um orçamento anual de US$ 18,5 bilhões.

Apesar disso, a Petrobras atendeu às expectativas elevadas de geração de FCFE (fluxo de caixa livre ao acionista) e anunciou distribuição de dividendos de cerca de US$ 2,3 bilhões (yield de 3%).

O Goldman Sachs, embora reconheça que os dividendos anunciados no trimestre (principal foco dos investidores) ficaram essencialmente em linha com o que o mercado esperava, apontou que o resultado acima do esperado no Ebitda ajustado e no fluxo de caixa operacional foi compensado pelo capex em caixa maior do que o previsto no trimestre.

“Buscaremos entender melhor, durante a teleconferência de resultados, quais foram os principais fatores que impulsionaram a aceleração sequencial do capex no 3º trimestre (incluindo se houve outra expectativa de investimentos, como ocorreu no 4º trimestre de 2024) e as implicações para o capex no 4º trimestre”, avalia o Goldman. O banco americano também espera ouvir os comentários da administração sobre o novo plano estratégico da Petrobras, com projeção de ser divulgado em 27 de novembro.

O Bradesco BBI acredita que o capex pode ofuscar os fortes resultados operacionais, já que se manteve persistentemente alto ao longo do ano e aumentou ainda mais dias antes da apresentação da atualização estratégica da empresa. “Talvez a empresa devesse abordar melhor a inflação da cadeia de suprimentos nos negócios offshore”, avalia.

A Genial também ressalta que, apesar do resultado operacional acima das estimativas, o fluxo de caixa livre foi pressionado pelo maior volume de investimentos no trimestre – ainda que maior parte dos volumes estejam sendo alocados no melhor segmento de negócio que a empresa pode atuar (Exploração & Produção).

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A casa de análise também ressalta que resta aguardar o Planejamento Estratégico 2026-2030. “Vale lembrar que no trimestre passado a empresa oficializou via fato relevante o interesse em ingressar no segmento de distribuição. Sendo assim, apesar do recorde recente de produção e sólidos resultados, fortes emoções não devem ser descartadas até o dia do evento em si”, aponta a casa de análise.

O Itaú BBA aponta que os resultados operacionais mais robustos e a melhoria na eficiência fiscal compensaram o aumento das despesas de capital, e os dividendos ordinários ficaram em linha com a sua previsão, em US$ 2,2 bilhões (rendimento de 3,0%).

“Ainda assim, considerando que a execução das despesas de capital tem sido um tema central em nossas recentes conversas com investidores, acreditamos que o mercado provavelmente reagirá negativamente ao aumento dos gastos, ofuscando o resultado operacional positivo. Isso é particularmente relevante, visto que a aceleração das despesas de capital no segundo semestre de 2025 pode gerar preocupações sobre a capacidade da empresa de cumprir os esforços de otimização de capital previstos no Plano Estratégico”, avalia o BBA.

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O BBI, por sua vez, não acredita que o plano seja um catalisador significativo. “Além de uma curva de produção mais forte, esperamos poucas mudanças na perspectiva de capex”, reforça.

Para o BTG Pactual, o trimestre reforçou como a dinâmica operacional da Petrobras continua a se traduzir em fluxo de caixa e dividendos, mesmo em um ambiente de preços de petróleo menores. Ainda assim, a dívida líquida subiu para US$ 59 bilhões e, combinada com um preço de brent mais baixo, limita a flexibilidade. “Mantemos nossa visão de que a prioridade da gestão segue sendo preservar os dividendos ordinários, mesmo à custa de uma alavancagem temporariamente maior. Sob a atual combinação de capex crescente e brent menor, dividendos extraordinários permanecem improváveis”, aponta.

BBA, JPMorgan, Goldman Sachs seguem com recomendação de compra ou equivalente para os ativos da estatal, enquanto a Genial possui recomendação de manutenção para os papéis.

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O Bradesco BBI tem recomendação de compra para os ativos, mas faz ponderações. O banco prevê uma deterioração dos dividendos nos próximos trimestres devido à atividade de fusões e aquisições (leilão de exploração e produção + avaliação de investimentos e etanol de milho), com o rendimento de 2026 previsto para cair para 8% (de 10% em 2025). Ainda assim, acredita que a empresa continua subvalorizada.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.