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SÃO PAULO – Um ano atrás, traçar perspectivas à Petrobras era uma tarefa um tanto quanto complicada. No auge da crise e da recessão econômica, o setor petrolífero enfrentava grande pessimismo entre os analistas, ainda mais com o preço do barril caindo ininterruptamente. “Nossas expectativas de que o setor seria fortemente afetado foram confirmadas”, afirma a equipe da Fator Corretora.
Mas se não foi positivo, poderia ter sido pior. Como explica a Link Investimentos, “com a perspectiva positiva frente à recuperação econômica mundial, especialmente nos EUA e China, a cotação do petróleo apresentou rápida recuperação”, puxando também os papéis da petrolífera, que rumam ao fim do ano com valorizações entre 50% e 65%.
Para 2010, aqueles que investem ou pretendem investir na estatal têm muito o que atentar: demanda e preço internacional do petróleo, possíveis mudanças regulatórias, noticiário acerca do desenvolvimento das atividades no pré-sal e o novo plano de capitalização são apenas alguns dos elementos importantes em torno da empresa neste ano que se aproxima.
Consumo no mundo
Redução da atividade econômica implica menor consumo de petróleo. Desta forma, o setor é sempre um dos mais penalizados em tempos de crise, e desta vez não foi diferente. Mas com a recuperação próxima ao horizonte norte-americano e europeu – e concreta já em muitas economias emergentes -, a expectativa dos analistas é de expansão na demanda por petróleo em 2010.
A Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) estima um crescimento de 0,8 mbd (milhões de barris por dia) do produto em 2010, puxado sobretudo pela China e pelos EUA, na medida em que este se recupera do seu quadro recessivo. Para comparação, a Opep prevê uma queda de 1,4 mbd no consumo da commodity este ano.
Desta forma, maior estabilidade é esperada pelos analistas para o preço do barril de petróleo em 2010, o que deve repercutir positivamente sobre os papéis da Petrobras. A equipe da Link lembra ainda da expectativa de pressões inflacionárias em alguns países europeus e nos EUA, “tornando as commodities um possível investimento defensivo” e, desta forma, elevando suas cotações.
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Consumo no Brasil
Se a demanda por petróleo no mundo deve continuar em trajetória de recuperação em 2010, no plano doméstico ela também recebe expectativas semelhantes. “A demanda, principalmente do diesel, voltou a níveis pré-crise após brusca queda na primeira metade do ano. Esperamos que o consumo volte a acompanhar o crescimento econômico”, arrisca a Fator.
A equipe do Safra Banco de Investimento expressa visão análoga: “cerca de 60% da receita da Petrobras vem dos ganhos com gasolina e diesel. Assim, a performance da companhia está fortemente atrelada ao PIB brasileiro”, afirmam os analistas, cuja projeção para o desempenho econômico do País é de crescimento de 4,8% em 2010.
Ampliação de oferta
Com o País retomando sua trajetória de crescimento, resta saber se a Petrobras conseguirá atender à expansão da demanda. “A empresa passou a maior parte do ano de 2009 abaixo da meta de produção estipulada, mas a maturação de novos poços produtores deve mitigar essa questão em 2010”, prevê a equipe da Fator.
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Como bem destaca a equipe do BB Investimentos, a estatal possui diversas plataformas que ainda não atingiram seus picos de produção, como a P-51 (Marlim Sul), a FPSO Cidade de Niterói, a FPSO Frade e a FPSO Espírito Santo, cuja expansão das atividades deve repercutir positivamente sobre a produção de gás e óleo da companhia nos próximos trimestres.
“A incerteza, no entanto, é se os investimentos direcionados ao desenvolvimento da produção no curto prazo não têm sido diminuídos em função dos esforços para viabilizar o pré-sal”, alertam os analistas da Fator.
Pré-sal
O ano de 2010 deverá trazer muitas novidades acerca do progresso da atuação da Petrobras no pré-sal. Está agendada para agosto do ano que vem a divulgação da viabilidade da exploração dos recursos localizados na área de Bem-Te-Vi, ao passo que relatório semelhante acerca da área de Tupi será divulgado em dezembro.Além disso, novos resultados de testes de longa duração também deverão ser anunciados ao mercado.
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No entanto, para muitos analistas, o enorme potencial do pré-sal já está incorporado aos papéis da estatal que, desta forma, deverão se mostrar mais atrelados à expectativa do anúncio do novo plano de investimentos quinquenal, referente ao período de 2010 a 2014, fato este que deve ocorrer em fevereiro do ano que vem.
“O montante de investimentos trará grandes questionamentos, pois dificilmente a geração de caixa será suficiente”, alerta a Link. A equipe do Safra concorda: “quanto menor a necessidade de aumento de capital, menor o impacto sobre as ações”. O processo de aprovação da capitalização da Petrobras já está em andamento e deve ocorrer na primeira metade desse ano, segundo projeções da própria empresa.
“O ponto requer bastante atenção do investidor, pois embute risco potencial de diluição do acionista minoritário”, conclui a equipe da Fator.
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Mudanças regulatórias
Outro aspecto de certa forma relacionado à área do pré-sal e que demandará grande atenção do investidor em 2010 é a possível mudança no ambiente regulatório de exploração do petróleo no Brasil. Diversas propostas tramitam no Congresso, estabelecendo, entre outras medidas:
- a alteração de um regime de concessão para um de partilha na área do pré-sal e em outras áreas relevantes que venham a ser descobertas no futuro.
- criação da Petro-Sal, estatal incumbida de gerir os recursos obtidos na área, sem competir com a Petrobras na operação e exploração dos blocos.
- criação de um fundo social, que destinará recursos obtidos com as operações a áreas consideradas estratégias e/ou importantes pelo governo, como combate à pobreza e desenvolvimento de educação e tecnologia.
As novas propostas, cujo desfecho deverá ser conhecido no primeiro semestre de 2010, “buscam beneficiar o governo na apropriação do óleo extraído e fortalecer seu peso decisório no setor, além de beneficiar também a Petrobrás, que terá espaço garantido na exploração das importantes descobertas”, afirma a Fator.
Entretanto, riscos também existem – e, por sinal, não são poucos. Analistas alertam, por exemplo, para a possibilidade de a Petrobras ser operadora única na área, o que poderia “forçar” a empresa a operar ou destinar investimentos muito grandes em projetos pouco rentáveis. Ademais, “a adoção de um modelo de partilha híbrido, com cobrança de royalties, pode resultar em diminuição do lucro e redução da rentabilidade dos projetos”, concluiu a Fator.
Papéis
Muitos são os pontos relevantes que demandarão a atenção dos investidores em 2010; mas afinal, qual a recomendação dos analistas para os papéis da maior empresa do País? Para o Safra, a resposta depende do horizonte de tempo do seu investimento. “No curto e médio prazo, pode ser que as ações sofram com a indefinição do processo de capitalização. Mas no longo prazo, a Petrobras segue sendo muito atrativa no universo de papéis brasileiros”, explicam os analistas.
A visão do Safra, de fato, é quase consenso entre analistas: embora as incertezas quanto à capitalização possam penalizar os papéis, os bons fundamentos da empresa e as perspectivas de forte expansão com o pré-sal sustentam recomendações positivas para aqueles que não têm pressa em resgatar seu portfólio: as equipes do BB e da Ágora sugerem compra, enquanto os analistas do Itaú e da Link mantém seu call de outperform, isto é, desempenho acima da média do mercado.