Mercado de opções

Petrobras e a aula de como funcionam os “comprados x vendidos” no mercado de opções

Os investidores que operaram os papéis da estatal na última segunda-feira podem ter sofrido com a forte volatilidade, mas certamente tiveram uma valiosa lição sobre o funcionamento do mercado

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SÃO PAULO – A decisão da Petrobras (PETR3, PETR4) de marcar a divulgação do balanço do primeiro trimestre de 2015 para uma sexta-feira pré-vencimento de opções trouxe um ingrediente extra de histeria para este dia tipicamente volátil na Bovespa – e a reação das ações da petrolífera nesta sessão deixa isso evidente. Muitos investidores podem ter errado a direção dos papéis da estatal, mas certamente todos eles tiveram uma bela aula prática de como funciona a briga entre “comprados” e “vendidos” no mercado de opções.

Antes de entender essa relação, vamos refrescar o entendimento do mercado mercado de opções. Sugerimos a leitura desse artigo especial do InfoMoney (clique aqui para acessá-lo), mas para quem quer apenas um breve resumo, utilizaremos os dois próximos parágrafos para isso.

Um contrato de opção dá o direito de comprar ou vender um ativo até determinada data e a um preço de exercício (chamado também de “strike”) já estabelecido. Essa opção pode ser de compra (chamada de “call”) ou de venda (“put”). Quem compra uma opção está adquirindo o “direito” de comprar ou vender algum ativo; já quem vende a opção, tem a obrigação de atender a exigência daquele que comprou o contrato. O vencimento destes contratos acontece na terceira segunda-feira de cada mês.

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Quem compra uma call acredita que, em algum momento até o vencimento deste contrato, o preço da ação será superior ao strike desta opção. Já quem compra uma put aposta no contrário, ou seja, que a ação esteja cotada a um valor menor que o preço de exercício do contrato até o seu vencimento. Quanto mais uma opção estiver “dentro do dinheiro” (ou seja, esteja vantajosa para ser exercida), mais ela valerá; por outro lado, uma opção “fora do dinheiro” no dia do vencimento estará fadada a “virar pó”, termo utilizado neste mercado quando o contrato perde totalmente seu valor – o que na prática significa perder 100% do capital aplicado nesta opção.

Comprados x Vendidos
A explicação de por que ocorre essa briga de “comprados” e “vendidos” é exatamente o que justifica tamanha volatilidade nos dias que antecedem cada vencimento: os grandes investidores (fundos de investimento, tesourarias e outras pessoas jurídicas), que são aqueles capazes de exercer uma pressão no mercado pela quantidade de capital disponível para investir, farão de tudo para fazer com que o preço da ação siga na direção que faça sua opção ficar “dentro do dinheiro” antes do vencimento, evitando que seu capital aplicado vire pó.

O lado dos “vendidos” é composto pelo lançador de uma opção de compra e o titular de uma opção de venda, enquanto o lado dos “comprados” é dividido entre o lançador de uma opção de venda e o titular de uma opção de compra. Dessa maneira, quando se aproxima o vencimento das opções, os “comprados” ampliam suas posições nas ações de modo a tentar elevar os preços. Por outro lado, os “vendidos”, atuam de modo inverso, de modo a diminuir a cotação dessas ações.

“As tesourarias de grandes bancos acabam tendo poder de influenciar o mercado no próprio dia do vencimento por conta do próprio volume que ele consegue gerar. Obviamente, ele faz de tudo para que a opção não vire pó”, explicou o analista-chefe da Leme Investimentos, João Pedro Brugger. É assim que funciona uma das pontas interessadas em um dia como foi essa segunda-feira. A ordem geral é comprar ações para forçar a ponta da demanda e levantar o papel em direção ao preço esperado. Desta forma, pode-se evitar perdas mais expressivas.

A aula da Petrobras
Agora que já entendemos essa “batalha” do mercado de opções, que lição podemos tirar com o pregão de hoje da Petrobras? Basta ver o comportamento que as ações preferenciais da empresa (que possuem maior liquidez entre os derivativos) tiveram ao longo do dia e quais foram os contratos mais negociados no exercício de opções da Bovespa.

Após passarem os últimos sete pregões oscilando na maior parte do tempo entre R$ 13,50 e R$ 14,10, os papéis PETR4 abriram esta segunda-feira com forte alta de 4,2%, saltando de R$ 14,06 (fechamento de sexta-feira) para R$ 14,65. Esse preço, no entanto, foi máximo que a ação alcançou no dia: a partir daí, ela engatou um movimento de queda que chegou até R$ 13,52 na mínima do dia, e encerrou o pregão valendo R$ 13,78 – queda de 1,99% frente ao fechamento anterior e de mais de 6% em relação à máxima do intraday.

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Enquanto isso, o comunicado divulgado pela BM&FBovespa no começo da tarde mostrou que a opção que mais movimentou dinheiro no exercício foi a “call” de Petrobras com “strike” de R$ 14, com giro de R$ 179,2 milhões.

Conseguiu notar alguma relação entre os dois fatos? Acompanhe o raciocínio: imagine que você era um dos investidores que possuía essa call de Petrobras a R$ 14. Após vários pregões de indefinição, a ação da companhia finalmente conseguiu superar com força a barreira dos R$ 14 justamente na abertura do último dia de vida desta opção. Qual seria uma decisão sensata a ser tomada? Se você pensou “exercer a compra desta ação a R$ 14 e vendê-la ao preço de mercado para embolsar os ganhos”, você entendeu o racional do mercado: os “comprados” fizeram a pressão necessária para colocar as calls dentro do dinheiro e venderam as ações após o exercício, puxando os preços do papel para baixo.

Vale mencionar que as outras duas opções mais exercidas também eram para comprar ações da petrolífera: uma com strike de R$ 13 e a outra de R$ 11, cujos volumes somaram R$ 93,71 milhões e R$ 78,27 milhões, respectivamente. Tendo adquirido as ações a um preço tão abaixo do que ela está valendo no mercado, esses compradores não se importariam tanto se a venda dos papéis não fosse feita na máxima de R$ 14,65, já que outros valores menores ainda trariam um bom lucro. Esse espírito de “folga” de quem estava comprado ajudou a derrubar as cotações de PETR4, que gradualmente foram caindo ao longo da sessão.

Conclusão
Entender o racional do mercado de opções não irá garantir 100% de sucesso nas operações, mas certamente te dará algumas pistas sobre o que pode acontecer com as ações que possuem maior liquidez neste mercado (caso de Petrobras e Vale) na proximidade do vencimento mensal dos contratos. Acompanhar quais as “calls” e “puts” mais negociadas nos dias que antecedem a 3ª segunda-feira do mês é uma boa dica para mapear a reação destas ações.

Além do mais, é importante estar por dentro das notícias que envolvem esta empresa, já que a volatilidade trazida pelo vencimento de opções pode apimentar a reação dos investidores a novos fatos sobre a companhia. No caso recente da Petrobras, além do balanço do 1º trimestre, que foi divulgado na noite de sexta-feira, também influenciou nos mercados o relatório divulgado pelo Goldman Sachs, que anunciou o corte de recomendação das ações da petrolífera de “neutra” para “venda”. A opinião de um grande banco de investimentos acaba tendo grande peso sobretudo na decisão dos investidores estrangeiros, e como eles respondem por mais da metade do volume financeiro negociado na Bovespa, o efeito é bastante perceptível nas ações.