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SÃO PAULO – Um dos assuntos “do momento” no quadro econômico brasileiro vem sendo a forte disparada do dólar nas recentes sessões. Neste sentido, após ter operado durante quase um ano abaixo dos R$ 3,00, a moeda norte-americana não somente ultrapassou esta barreira como rompeu a marca dos R$ 3,20 na semana anterior.
Mas quais os fatores que explicam esta disparada recente do dólar? E o principal: o que podemos esperar do dólar daqui para a frente? A moeda norte-americana subirá mais, se estabilizará neste patamar relativamente elevado ou sofrerá um movimento de ajuste e atingirá patamares menores?
Alta acumulada em maio já chega a quase 9,0%
Antes de iniciarmos nossa discussão sobre os fatores que vêm influenciando a alta do dólar, é interessante descrevermos o movimento em si da moeda norte-americana. Para se ter uma idéia, há alguns meses o dólar já vinha apresentando uma trajetória mais “estável”, sem registrar oscilações bruscas como estas verificadas desde o início do mês.
A maior “calma” do dólar no período podia ser atribuída, sobretudo, às boas perspectivas em relação ao desempenho da economia brasileira e à própria economia mundial. Além disso, a manutenção da taxa de juro norte-americana em um patamar reduzido, garantindo a liquidez do mercado internacional, também contribuiu para a maior calmaria no cenário cambial.
Mas a ampliação das perspectivas de elevação do juro dos Estados Unidos pelo Federal Reserve foi o suficiente para trazer um maior nervosismo ao mercado, levando o dólar Ptax a acumular uma expressiva alta de 8,84% somente no mês de maio, especialmente após a disparada do preço do barril de petróleo no mercado mundial.
Para analisarmos a trajetória do dólar nas recentes semanas, visualizemos a tabela abaixo, que traz a cotação do dólar nas primeiras semanas de maio e a variação acumulada em cada uma delas:
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| Período | Cotação do final do período (em R$/USS)* |
Variação (em %) |
| 01-30/04 | 2,9447 | +1,24 |
| 03-07/05 | 3,0504 | +3,59 |
| 10-14/05 | 3,0982 | +1,57 |
| 17-21/05 | 3,2051 | +3,45 |
*Refere-se à cotação do dólar Ptax, calculada diariamente pelo BC
Dólar sobe impulsionado por petróleo e juro nos EUA
Visualizado o movimento de expressiva alta do dólar, passemos então a analisar as causas desta disparada da moeda norte-americana. Inicialmente, podemos apontar a forte elevação do barril de petróleo desde o início do mês, em função do agravamento dos conflitos no Iraque e da queda das reservas de petróleo nos Estados Unidos, como um dos fatores.
Mas de que maneira um petróleo mais caro afeta o preço da divisa norte-americana no Brasil? Uma alta no petróleo significa que mais dólares devem ser utilizados para efetuar a compra da commodity pelos importadores brasileiros, ocasionando a diminuição da oferta da moeda no Brasil. A queda da oferta, por sua vez, resulta em alta do preço do dólar.
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Outro fator que vem influenciando intensamente o mercado de câmbio brasileiro é a possível alta do juro dos Estados Unidos, pois os bons indicadores referentes à economia norte-americana ampliam a perspectiva de uma elevação do juro norte-americano já no mês de junho por parte do Federal Reserve, o que pode intensificar o fluxo negativo de capitais da economia brasileira.
Isto porque é justamente a manutenção dos Fed Funds no reduzido patamar de 1,0% ao ano que tem ampliado a liquidez internacional, garantindo capitais aos países emergentes, dentre eles o Brasil. Um aumento da taxa tende a redirecionar o capital dos investidores para mercados de menor risco, como é o caso do norte-americano, levando a uma fuga de capitais do mercado brasileiro.
Mercado e governo: será o fim da “lua-de-mel”?
Além das questões de natureza econômica, o cenário político também vem dando a sua contribuição para a alta do dólar. É que, ao contrário do que aconteceu em 2003, o ano de 2004 está sendo marcado pela deterioração das relações entre o governo petista e o mercado, trazendo uma dose extra de nervosismo aos investidores.
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Desde o caso Waldomiro, em fevereiro, o governo vem passando por uma série de instabilidades, que vão desde a derrota no Congresso acerca da reabertura dos bingos e patamar do salário mínimo a polêmicas envolvendo uma reportagem do jornal norte-americano The New York Times sobre o consumo excessivo de álcool pelo presidente da República.
O fato é que o mercado não está mais tão confiante com a maneira que o governo está conduzindo as questões macroeconômicas do Brasil, gerando desta maneira um ambiente propício a especulações.
Dólar deve encerrar o ano em R$ 3,08, segundo Focus
Entendidos os fatores que vêm impulsionando o dólar recentemente, agora cabe a pergunta: qual deverá ser a tendência da moeda norte-americana nos próximos meses? De acordo com o relatório Focus, que reúne projeções de aproximadamente cem instituições financeiras e é divulgado semanalmente pelo Banco Central, o dólar deve passar por um movimento de ajuste já no curto prazo.
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Neste sentido, o Focus acredita que a moeda norte-americana deverá encerrar o mês de maio em um patamar de R$ 3,08, o que corresponde a uma queda de 3,90% frente à cotação do dólar Ptax de sexta-feira, dia 21 de maio. Neste patamar, a moeda norte-americana acumularia uma alta de 4,60% em maio, considerando-se a cotação do dólar Ptax do final de abril.
Para junho, a expectativa é de que o dólar registre uma ligeira queda de 1,30% frente ao fechamento projetado para maio, atingindo, dessa maneira, o patamar de R$ 3,04, segundo as expectativas do Focus. Para o final do ano, o relatório de mercado do BC projeta um dólar cotado a R$ 3,08, o que representa uma elevação acumulada de 6,13% no ano.
Percebe-se, dessa maneira, que após a recente disparada, o mercado acredita que o dólar deva passar por um movimento de ajuste, se acomodando em um patamar mais reduzido que o atual. Ainda assim, vale lembrar que, segundo as apostas do Focus, a moeda norte-americana não deve retornar ao patamar dos R$ 2,90, em torno do qual esteve até abril, ficando em um patamar acima dos R$ 3,00.