Fato Real

Perda do Grau de Investimento: Desastre Econômico e Aumento da Incerteza Política

Efeitos econômicos da notícia estavam parcialmente refletidos no mercado. Chegou a hora das definições políticas

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Em primeiro lugar a boa notícia: o Brasil, lugar de imensas potencialidades humanas e econômicas não há de sucumbir de algum modo por força deste fato, por mais que ele represente um desastre no curto prazo. É preciso ter isso em mente. Sempre.

De outro lado, nada mais justo quando uma agência de classificação de risco (rating agency), no caso a Standard & Poor´s, se antecipa aos resultados desastrosos que virão, fruto da política econômica do governo da presidente Dilma Rousseff. Suspeito, e agora isto não é tão importante, que a atitude de hesitação e adesão do Ministro Levy ao dilmismo foi a “gota d´água” para que a Standard & Poor´s retirasse do Brasil o véu que ainda recobria o completo desastre econômico que a presidente Dilma patrocinou e cujas dores recairão sobre o povo que dizia proteger.

Tais agências, em muitas das crises sistêmicas desde os anos 1990 até a crise de 2008, quase sempre desprezaram os riscos potenciais de políticas econômicas equivocadas, especialmente dos países centrais do capitalismo. Nesta hora, não se pode criticar a avaliação da atual política econômica, pois que, sob qualquer parâmetro de análise, o que se vê é simplesmente um desastre. Não há que se alegar, de forma alguma, um caráter, digamos, “ideológico”, à análise da qual decorreu o rebaixamento do grau de investimento do Brasil. Fosse o governo da atual presidente da cepa da esquerda “moderna” europeia ou da direita reformista de tantos países do globo, o que foi feito desde a sua primeira posse em matéria econômica deve ser classificado na categoria de “analfabetismo econômico”.

Este governo errou sistematicamente nas identidades e equações básicas da administração econômica. Vagueou entre (i) calamitoso déficit fiscal que infestou a administração pública de ineficiências macro e microeconômicas, (ii) a reversão rápida e volumosa das contas externas, (iii) a repressão artificial dos preços administrados, sobretudo os de energia, (iv) a concessão de benefícios tributários a setores que contribuíram para o decréscimo da produtividade do país como um todo e (v) o desprezo absoluto pela transparência dos movimentos das contas públicas, as denominadas “pedaladas fiscais”, as quais funcionaram como antessala da “maquiagem” da política econômica em tempos eleitorais.

Não seria possível que esta estratégia pudesse persistir. Na inauguração de seu segundo mandato, a presidente se travestiu de conservadora e quis combinar a versão desastrosa da política anterior com avanços irregulares e incompreensíveis na gestão da política econômica pós-conversão à mínima ortodoxia. Atraiu o Ministro Joaquim Levy para que este fosse o biombo que a esconderia do tal do “mercado” que nada mais é do que uma parcela (bem informada) da sociedade brasileira, com suas virtudes e suas idiossincrasias. Todavia, manteve ao seu lado, próceres da política econômica “analfabeta” do primeiro mandato, sobremaneira o Ministro Aloizio Mercadante e o Ministro do Planejamento Nelson Barbosa. Tudo bastante simbólico do caráter do governo, com resultados desastrosos, pois, em matéria econômica não há como se fazer concessões que abalem a essência da direção estratégica e das necessidades táticas daquilo que se quer atingir. No caso, o Brasil precisava de estabilidade. Isso significa fortaleza e determinação para corrigir as trágicas medidas e políticas antes adotadas e absoluta transparência para atrair os agentes econômicos, capital e o trabalho, na direção correta, qual seja, investir e consumir.

A presidente Dilma demonstrou que a sua ignorância econômica ia muito além das mazelas que já tinha produzido na primeira administração. A emissão de sinais trocados, diariamente, tais como, a redução dos ministérios, os cortes (recortes) de despesas, o aumento de tributos, a concessão de (novos) benefícios tributários, as hesitações de remeter medidas duras ao próprio Executivo e assim por diante, deixaram a sociedade boquiaberta: para onde a presidente pretende nos levar? A ausência de virtude intrínseca às medidas econômicas evidenciou que a presidente não sabe liderar o país. Não à toa, um ajuste que poderia implicar em crescimento zero, resultará em 2015 em recessão de, pelo menos, 3%. Há falta absoluta de confiança. Simples assim.

Ademais, há os fatos recentes que envolvem o Ministro Levy. De prócer do conservadorismo dentro do governo, o Ministro se associou, na última terça-feira em Paris, às políticas hesitantes da presidente Dilma Rousseff: propôs o aumento de tributos quando se esperava que imperativamente propusesse o corte de despesas. Teria jogado a toalha ao chão o Ministro que representava a “ilha de racionalidade” deste governo destrambelhado?

As consequências deste rebaixamento vergonhoso e perfeitamente evitável do grau de investimento são de natureza estrutural. O encarecimento do crédito será o mais visível. Os efeitos do crédito mais caro decorrerão da retirada de volumosos recursos de fundos e investidores diretos que, por regra estatutária ou normativa, apenas aplicam em países que sejam investment grade, ou seja, tenham o almejado grau de investimento. Obviamente, os mercados acionário e cambial balizarão os “novos” patamares de preços dos ativos brasileiros. Tudo na direção da queda de valor.

Resta saber como reagirá a presidente e seu governo. Doravante, deveria prevalecer a ortodoxia que até hoje rejeitaram o PT, em larga medida, e a presidente, por ignorância ou falta de convicção. Se no ano passado o ajuste era de natureza “dura”, uma combinação de disciplina macroeconômica e persistência, agora a política econômica tem de afastar a desconfiança imediata para que as medidas possam funcionar. Todavia, as medidas necessárias ao restabelecimento da “ordem” terão de ser “duríssimas”. Sinceramente, temo que este governo não seja capaz de suportar a pressão política que será descarregada sobre ele.

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“Grau de Investimento” não é assunto que se comenta entre o povo humilde ou o denominado “cidadão comum”. Todavia, estes serão as maiores vítimas deste “assunto sofisticado”. Quem sob o manto de populismo eleitoral dizia-se protetora das classes menos abastadas acabou por via transversa de um “assunto sofisticado” tirando empregos e destruindo esperanças de milhões de famílias. Do ponto de vista político os efeitos deste desastre já são visíveis nas pesquisas de opinião pública sobre a presidente da República e seu governo. Há de piorar, com efeito.

Ademais, uma palavra sobre o ex-presidente Lula. É profundamente lamentável constatar que o ex-primeiro-mandatário foi um dos maiores conspiradores contra os ajustes necessários à política econômica. Sua responsabilidade não é menor relativamente ao que agora ocorre. A corrupção de seu governo, exposta à luz do dia pela Operação Lava Jato contribuiu decisivamente para que o ambiente político se deteriorasse dramaticamente. Esta conta é sua assim como do atual governo.

Creio que o Legislativo terá leitura mais atenta deste desastre que presenciamos em relação ao nosso país. Pressinto que suas excelências, deputados e senadores, apontarão os seus dedos julgadores na direção do Palácio do Planalto. É certo que isso não será completamente justo quando se verifica a qualidade dos processos e das matérias votadas nas Casas Legislativas. Todavia, em tempos de farto noticiário sobre a renúncia e o impeachment da presidente da República, parece certo que o coro legislativo se tornará mais associado aquilo que multidões andam pedindo nas ruas e as oposições conspiram nas madrugadas regadas à vinho e whisky.

O Brasil merece mais.