Paz impossível, guerra improvável: a lógica por trás da irracionalidade da Coreia do Norte

Para especialista em segurança internacional, apesar da retórica agressiva mantida entre Washington e Pyongyang, as chances de um confronto militar direto são remotas, mas não impossíveis

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SÃO PAULO – O nível de tensão nas relações entre Estados Unidos e Coreia do Norte voltou a se intensificar nos últimos dias, após a aprovação unânime de novas sanções econômicas ao regime de Kim Jong-Un pelo Conselho de Segurança da ONU e os avanços de Pyongyang em seu programa nuclear. De um lado, o governo do país asiático fala em vingança aos responsáveis pela medida que pode reduzir em um terço sua receita anual de exportações, enquanto de outro, o presidente Donald Trump promete “fogo e fúria como o mundo nunca viu” caso as ameaças não cessem.

Segundo o jornal The Washington Post, com base em autoridades de inteligência norte-americanas, a Coreia do Norte produziu com sucesso uma ogiva nuclear miniaturizada, que pode ser transportada por seus mísseis balísticos. O domínio dessa tecnologia é visto por especialistas na área de segurança e defesa como um ponto chave para um país que aspira tornar-se potência nuclear plena. No xadrez das relações internacionais, os avanços de Pyongyang alteram a disposição das peças e podem trazer uma nova correlação de forças nos planos regional e global, o que mobiliza iniciativas de obstrução por parte de determinados atores.

Para entender um pouco mais do que está em jogo no acirramento da disputa entre os governos de Kim Jong-Un e Donald Trump e quais podem ser as consequências para os mais diversos atores do sistema internacional, o InfoMoney entrevistou, por e-mail, o especialista em Segurança Internacional e professor de Relações Internacionais na FESPSP e FMU, Bernardo Wahl:

InfoMoney – Ao que tudo indica, os avanços norte-coreanos em tecnologia militar e nuclear têm ocorrido em um ritmo mais intenso que o esperado. Quais são os interesses de Kim Jong-Un e como isso mexe com as balanças de poder regional e global?
Bernardo Wahl – Kim Jong-un tem sido mais assertivo do que os seus antecessores. Sua estratégia deve ser entendida no contexto da posição geopolítica relativa da Coreia do Norte: o país pode servir de trampolim estratégico ou de bloqueio para potências como China, Japão, Rússia e EUA. A primeira estratégia de qualquer Estado é a sua preservação. A dependência norte-coreana em relação à Rússia e à China se tornou mais difícil e complexa. Assim, foi adotada política de hostilidade intensa e construção de medidas para preservar o regimes de ameaças internas e externas. Pyongyang não pode depender apenas de seus armamentos convencionais. Embora eles tenham poder de fogo, é necessária ameaça com mais credibilidade: as armas nucleares. Elas fazem parte de uma estratégia de blefe: a Coreia do Norte não poderia lançar um ataque nuclear, pois seria aniquilada. Sua aparente irracionalidade pode fazer com que ela pareça perigosa, não ao ponto de ser atacada preemptivamente (no teste do míssil balístico intercontinental em quatro de julho de 2017, os EUA poderiam ter eliminado a liderança norte-coreana com um míssil Tomahawk, mas não o fizeram). A estratégia norte-coreana deve preservar o regime e paralisar os oponentes, sem o uso da força militar pelos adversários, os quais suportam as afirmativas de poder da Coreia do Norte sem entrar em pânico. O resultado é um certo “impasse dos indiferentes”, ou uma situação de paz impossível e guerra improvável.

IM – Qual é a real dimensão dos riscos geopolíticos que a Coreia do Norte traz e quais são as chances de um confronto com os Estados Unidos?

BW – O risco geopolítico se refere basicamente aos riscos colocados a atores econômicos e governos pela ascensão e declínio relativo de grandes potências, assim como o impacto de guerras convencionais em Estados e empresas. Na última década, a Coreia do Norte tem sido um problema, mas não um risco significativo. Isso pode ter mudado em 2017. Existe uma retórica agressiva entre EUA e Coreia do Norte, por exemplo que o presidente Trump prometeu “fogo e fúria” a Pyongyang caso as ameaças continuem, enquanto os norte-coreanos ameaçam lançar mísseis em Guam, entre inúmeros outros exemplos. As chances de um confronto militar direto são remotas, um último recurso, mas não impossíveis, considerando as lideranças dos dois países. A opção tem sido o uso de sanções econômicas, como as recentes aprovadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, uma eventual retomada das negociações pelo fim do programa nuclear da Coreia do Norte (a qual provavelmente não recuará) e o uso de guerra cibernética e eletrônica para eventualmente tentar sabotar os testes de mísseis norte-coreanos. Existe a possibilidade, ainda que remota, de se aceitar a Coreia do Norte enquanto potência nuclear, mas isso contribuiria para a proliferação atômica horizontal (isto é, quando mais países detêm armas desse tipo).

IM – Qual é o papel de atores como China e Rússia nesse conflito?

BW – Atualmente a China é o parceiro mais importante da Coreia do Norte: seu maior aliado comercial e principal fonte de alimentos e energia. Pequim tem auxiliado na manutenção do regime de Kim Jong-un e, historicamente, tem se oposto à sanções internacionais mais severas, esperando evitar o colapso do regime em Pyongyang e um influxo de refugiados na fronteira entre China e Coreia do Norte. Porém, os testes nucleares e de mísseis norte-coreanos, entre outras coisas, complicaram as relações. A China se preocupa com a estabilidade e direção da liderança norte-coreana, mas pouco tem feito para evitar as ambições nucleares do vizinho. Simultaneamente, a Rússia parece estar dando mais apoio à Coreia do Norte, no sentido de auxiliar países que se opõem ao poder norte-americano e também pelo desejo de Moscou em desenvolver e garantir a segurança de suas regiões mais orientais. A Rússia busca uma solução não-militar para o impasse envolvendo a Coreia do Norte.

Marcos Mortari

Responsável pela cobertura de política do InfoMoney, coordena o levantamento Barômetro do Poder, apresenta o programa Conexão Brasília e o podcast Frequência Política.