Parâmetros fundamentalistas podem sofrer distorções em crises

Múltiplos atrativos podem não corresponder à realidade; para analista, investidor deve aguardar tendência para se posicionar

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SÃO PAULO – O noticiário econômico recente, com as crises fiscais na Zona do Euro e nos EUA, além do corte do rating norte-americano pela S&P na última sexta-feira (5), vem derrubando as bolsas de todo o mundo, com o Ibovespa se aproximando dos níveis atingidos durante a crise do subprime em 2008.

Segundo a equipe de análise da XP Investimentos, levando em consideração a diferença do valor de mercado das empresas em relação aos seus lucros, a pontuação do índice estaria próxima ao patamar atual, uma vez que as empresas lucram mais do que em 2008.

Múltiplos atrativos
Alguns investidores podem se sentir tentados ao notar algumas empresas com múltiplos descontados, com ações cotadas abaixo de seu valor patrimonial, por exemplo. Neste caso, o analista sênior Hamilton Alves, do BB Investimentos, alerta para essa distorção: “esses parâmetros fundamentalistas são distorcidos em tempos de crise. O ‘efeito manada’, com uma grande saída de investidores, como as que vemos nessas épocas acabam por derrubar os preços do papel abaixo de seu valor patrimonial, o que não corresponde à realidade da empresa”, afirma.

Neste sentido, Torres ainda lembra que “os fundamentos devem ser reavaliados após a melhora do cenário, assim como precificação das empresas, suas expectativas de resultados – que devem ser revistas para baixo -, de faturamento, geração de caixa”, como consequência de um menor crescimento global.

Ainda há espaço para queda
Entretanto, Ivanor Torres, analista de mercado da Geral Investimentos, alerta aqueles que pensam em montar posições neste momento, acreditando estar diante de uma oportunidade no mercado. “Enquanto não houver um movimento de reversão, não é aconselhável para o pequeno e médio investidor entrar em algum papel. Se compararmos com 2008, ainda temos espaço para um ajuste ainda maior”, constata.

Na opinião de Alves, o investidor deve aguardar por uma tendência e ter paciência neste momento de busca por liquidez no mercado. “Por mais que ache que alguns papéis estejam sendo negociados a múltiplos atrativos, o investidor deve esperar pela consolidação de uma tendência, quando o mercado estiver se recuperando, para entrar. É muito mais seguro do que tentar adivinhar um ponto de entrada agora”, afirmou.

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Para onde ir?
O analista da Geral Investimentos recomenda, assim como em outros momentos de crise, os setores mais conservadores, com resultados mais previsíveis, bons pagadores de dividendos e menor influência externa, como o de energia elétrica. “Além do setor elétrico, o de telecomunicações é uma boa alternativa, uma vez que também vem revelando bons resultados neste ano”.

O operador de mesa da Diferencial Corretora, Marco Aurélio Etchegoyen, destaca que os papéis do setor de siderurgia estão próximos aos níveis constatados durante a crise de 2008, mas chama a atenção para o fato do setor já vir tendo dificuldades desde meados de 2010. “Com a entrada de aço estrangeiro muito barato no Brasil, as companhias tiveram que trabalhar com descontos pressionando as margens”, afirma.

Lembrando o bom momento vivido pela economia brasileira, Torres acredita que os investidores devem focar seus investimentos em empresas que têm seus negócios voltados para o mercado interno. Já Hamilton Alves, acredita que ainda seja cedo para mensurarmos as reais consequências para as empresas do País, mas crê que o setor financeiro, assim como em 2008, deve ser um dos mais afetados.