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15h00 – 16/08
Coluna do Tamer
PARIS – A novela argentina continuou dominando o mercado financeiro dos países emergentes, num sobe-e-desce tenso e cansativo, mas com muitos analistas apostando num final próximo. Na terça-feira, foi um deus-nos-acuda na City de Londres, com a declaração – infeliz ou propositada? – do presidente Bush impondo a condição do déficit zero para um apoio americano.
Ela veio quando todos esperavam que já tivesse sido encontrada uma solução junto ao Fundo. Ontem, quarta-feira, o cenário mudou de forma radical. Em apenas um dia os títulos argentinos se valorizaram 3,5%, sinal de que o mercado financeiro de Londres estava apostando numa solução mais rápida, apesar do puxão de orelhas de Bush. Mas o que mudou? “Parece que desta vez o governo argentino jogou duro e pôs as últimas cartas na mesa: ou vocês nos ajudam ou vamos já para a moratória. Não há mais saída. Com promessa de déficit zero, sem déficit zero, quebramos. Esta é, no momento, a percepção do mercado”, diz à coluna um analista da City muito voltado para o mercado argentino. Para ele e grande parte dos participantes do mercado, isso explica a recuperação súbita dos papéis argentinos, que tiveram ontem um dia de extraordinário movimento. “Tecnicamente, parece que está tudo resolvido entre o governo argentino e o FMI. Agora, a decisão é política. E há muita pressão sobre o governo americano para que ele possa sustentar sua posição.”
Papel sobe!
Ontem, o quadro era ainda de volatilidade – e isso deve perdurar ainda por alguns dias -, mas a impressão na City de Londres era de que “desta vez, vai…” Nesse vai-não vai, num dia-a-dia tão nervoso quanto as verdadeiras conseqüências de um default argentino sobre os mercados emergentes, o mercado era comprador. Isso não afetou os papéis brasileiros, com os C-bonds sendo negociados a 72,5% do valor de face, “mesmo porque, com o acordo com o FMI, o Brasil está se distanciando um pouco da crise argentina, cujos efeitos estão sendo sentidos mais sobre o câmbio do que sobre a economia, como um todo”, assinala aquele analista.
Investidor teme
Para ele, o que preocupa agora os investidores não é tanto essa questão cambial, ou mesmo o “contágio” argentino, mas o risco de o Brasil não registrar uma taxa de crescimento sustentável. Eles não ficaram muito tranqüilos com o crescimento do PIB em 2,49%, no primeiro semestre, pois abrangeu só um mês de racionamento de energia e está abaixo dos 2,7% previstos pelo governo e pelo próprio mercado. Estamos ainda à espera das chuvas de setembro, a crise de energia ainda não foi embora, será preciso muita chuva para recompor os reservatórios e garantir o consumo, que aumenta depois das férias de julho. A impressão na City era de que para os investidores diretos, no Brasil, o cenário de médio prazo é mais importante do que os efeitos imediatos de uma solução negativa da crise argentina. Este é um fator importante, sim, pesa sobre os juros internos, sobre a inflação, mas não o único. Ou seja, “os US$ 15 bilhões que o FMI colocou à disposição do Brasil são suficientes para agüentar o que vier de Buenos Aires, mas não para uma taxa de crescimento econômico inferior a 2,5%”, diz esse analista.
E aqui entram outros fatores com o racionamento, a desaceleração da economia mundial, a retração do mercado externo – as exportações não devem crescer mais de 5,0% – o que leva a uma necessidade maior de financiamento externo, que os US$ 15 bilhões do FMI, sozinhos, não resolvem. Concluindo: há muito mais coisa a fazer internamente além de proteger-se da Argentina, de onde os investimentos que estão fugindo para o Brasil…
EUA indefinidos
Os dados da semana sobre a economia americana eram os mais indefinidos possíveis, dando margem a qualquer tipo de interpretação ou previsão, pessimista ou otimista. Os estoques caem, mas cai também a produção industrial, e as vendas recuam. “Apesar dos bilhões de dólares embutidos na redução dos estoques, há ainda muito nas prateleiras para vender”, afirma o economista-chefe do First Tennessee Capital Markets, Chris Low. Em julho, o que conteve uma desaceleração maior da economia foi a venda de carros.
Surpresa? Por quê?
O economista-sênior do Federal Reserve (Fed) de São Francisco, Glenn Rudebusch, em sua análise mensal do comportamento da economia americana, diz que não vê razão para surpresas, pois pouco mudou em relação aos cenários projetados pelo Fed, há alguns meses. O que pode ter havido foi uma precipitação de analistas diante de alguns dados positivos, mas o Fed mantém sua estimativa. “No terceiro trimestre (este), a economia vai crescer 1% e 2% no último trimestre. Na metade do próximo ano, o crescimento anualizado vai passar de 3%. Há algumas indicações de que os fatores de desaceleração ficaram para trás.” Ele aponta o aumento de vendas no setor imobiliário no primeiro semestre, o recuo dos preços da energia, gasolina e outros tipos – “5,8% em julho, o menor em 15 anos”, o efeito das fortes reduções das taxas de juros que só agora se farão sentir, e ao recuo da inflação. Dá para acreditar? O JP Morgan, em sua última análise da economia mundial, é mais cauteloso. Seu economista-chefe, Bruce Kasman, acredita que neste trimestre a economia americana poderá crescer 1%, estimulada pelas reduções dos juros, mas um crescimento sustentado “depende de estímulos externos”, que hoje existem apenas nos países de língua inglesa.
Estagnação
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Na falta de confiança na recuperação americana, restaria a Europa. E o que dizem as estatísticas desta semana? São, diríamos, no mínimo chocantes. A inflação está recuando em toda a União Européia. De acordo com as estatísticas oficiais, ela está agora em 2,8% em média. Mas o crescimento do PIB também recua. Os preços estão caindo não porque os custos baixaram, mas porque consumidores se retraíram e as empresas estão perdendo dinheiro.
Os efeitos, para os países exportadores, como o Brasil, virão mais adiante, ainda este ano, com uma queda maior no consumo, reforçando o círculo vicioso.