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SÃO PAULO – Há algum tempo, analistas da política econômica como os ex-presidentes do Banco Central Arminio Fraga e Gustavo Franco já vêm alertando que o governo Dilma lida com o câmbio, a inflação e as contas públicas de uma maneira diferente dos anteriores.
Mas o ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman é um dos poucos que já veem como abandonado o tripé de sustentação do Plano Real. Doutor em economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), ex-economista-chefe do Santander e sócio-diretor da Schwartsman & Associados Consultoria Econômica, o professor e consultor acha que a política econômica mudou para pior nos últimos dois anos e que a crise não justifica as medidas que vêm sendo adotadas. Leia a seguir os principais trechos da entrevista ao InfoMoney:
InfoMoney – A economia brasileira freou forte desde 2011. Com o prolongamento da crise externa, de onde virá o crescimento do PIB nos próximos anos?
Alexandre Schwartsman – O Brasil já não tem condições de crescer muito independente da crise externa. Em 2012, a expansão deve ser próxima a 1,5%. Até vejo alguma aceleração no próximo ano, para 3% ou 3,5%, mas não passaremos muito disso. Não estamos mais naquela situação em que o governo dava estímulos à demanda e crescíamos. Medidas para favorecer o consumo funcionaram bem após a crise de 2008, quando havia gente desempregada para ser absorvida no mercado de trabalho. Agora vejo outros obstáculos. Estamos com uma taxa de desemprego em torno de 5,5%, a mais baixa da história. Então se o crescimento do PIB acelerar para 4,5% ou 5,5%, faltará gente para produzir porque a população em idade ativa cresce só 1% a 1,5% ao ano.
IM – Então tomar medidas para elevar o crédito ou estimular o consumo não resolve o problema?
AS – Melhora um pouco no curto prazo, mas de onde vai vir a mão de obra se as empresas começarem a investir e a contratar? Mão de obra qualificada sempre foi um problema no Brasil. A novidade agora é que a mão de obra não-qualificada também está se tornando um obstáculo. O problema tem que ser tratado indiretamente com o aumento do investimento e a melhoria da infraestrutura de forma que, com o mesmo número de trabalhadores, seja possível produzir mais. Também é necessário simplificar a legislação tributária. Estima-se que uma empresa brasileira gaste em média 2.600 horas por ano só para realizar a tarefa de pagar impostos. O segundo colocado nesse ranking é Camarões, que gasta a metade. Se fosse possível deslocar esse pessoal que está calculando impostos para produzir outras coisas, daria para aumentar a produtividade. O Brasil tem 27 legislações estaduais de ICMS e as empresas precisam contratar alguém só para ficar acompanhando isso o dia inteiro.
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IM – Há chances de o governo Dilma fazer a reforma tributária?
AS – A vontade política para resolver isso é zero. Supostamente o governo tem a maior base de sustentação da história. E o que ele faz com essa base? Nada. Falta liderança. Liderança não é gritar com o subordinado. Liderança é ter um projeto de país e propor as medidas que fazem sentido.
IM – Por que o investimento não destravou no Brasil com a expressiva queda de juros da última década?
AS – Os juros caíram e o governo despejou um caminhão de dinheiro no BNDES, mas o investimento permanece teimosamente baixo, em 17% a 18% do PIB. O modelo de crescimento adotado foca na expansão do consumo e em gasto público. Nos oito primeiros meses deste ano, o gasto federal cresceu 6,5% além da inflação. No Plano Real, o gasto público em relação ao PIB só não cresceu em 1999 e 2003. Então não sobra dinheiro para o investimento. É necessário um programa de ajuste fiscal de verdade, não pautado em aumentos de impostos. Mas governo hoje tem dificuldades para atingir as metas fiscais. Sem mágica contábil, eles não atingem a meta neste ano.
IM – Se o governo adotasse menos protecionismo e reduzisse tarifas à importação, não seria possível crescer mais de 3% a 3,5% sem inflação?
AS – Com um modelo baseado no crescimento do consumo, esbarraríamos em problemas de mão de obra do mesmo jeito. Ninguém vai cortar o cabelo em Buenos Aires, levar os filhos para uma escola no Uruguai, pegar táxi em Nova York ou alugar um carro no Paquistão. O setor de serviços não tem concorrência dos importados, enfrenta o aumento do custo da mão de obra e repassa aos preços cobrados dos clientes. Já a indústria perde margem porque sofre com a competitividade dos importados.
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IM – É por isso que parece consenso que teremos inflação alta em 2013?
AS – Sim. Dá para disfarçar isso com um corte das tarifas de energia, que dará um respiro. Em 2012, também houve um alívio com a mudança de metodologia no cálculo do IPCA. A inflação que está em 5,2% ou 5,3% em 12 meses estaria em 5,8% ou 5,9% se não fosse essa mudança.
IM – Teremos alta de juros em breve?
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AS – O Banco Central vai segurar ao máximo. Quando sobra oferta, eles correm para baixar os juros. Mas não vejo a mesma simetria quando falta oferta. O risco é que lá na frente venha uma estilingada nos juros. Aí vamos ver o tamanho do buraco onde a gente se meteu. Se não fosse a redução do preço da energia, o mercado já estaria discutindo inflação acima de 6% em 2013. O modelo é outro. No último relatório de inflação, o Banco Central diz que a previsão de inflação está acima do centro da meta para 2012, 2013 e 2014. Então por que eles estão baixando os juros? O mandato deles não é para manter a inflação sob controle? Os objetivos do Banco Central são crescer em primeiro lugar, ter juro baixo em segundo e câmbio mais desvalorizado em terceiro. Está claro que o BC abandonou o regime de metas de inflação e não tem a mesma autonomia de uns anos atrás. A partir do momento em que o BC se subordina, é muito difícil voltar a ser independente.
IM – A situação na Europa deve melhorar em breve?
AS – Não há solução fácil. Recomprar os títulos de curto prazo da Espanha e da Itália ajuda, mas é preciso fazer mais. A Europa vai invariavelmente ter de migrar para o eurobônus, uma dívida mútua com juros iguais para todos. A contrapartida disso vai ser mais ajuste nos países em dificuldade. O problema é que a Espanha não quer ser monitorada pelo BCE e pelo FMI. Já a Alemanha cobra a dor, mas não dá quase nada em troca. Já são quase quatro anos em recessão. A Espanha tem mais de 20% de desemprego. As receitas tributárias despencaram. A bolha imobiliária estourou e os bancos enfrentam dificuldades. É um caldeirão. Haverá um problema muito sério em algum momento.
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IM – E a situação dos EUA?
AS – Eles estão melhor. Tem o racha político e o temor do abismo fiscal. Mas acho que, como no passado recente, eles não vão permitir que o pior cenário se materialize.
IM – E a China?
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AS – O consenso é que o modelo de crescimento chinês baseado em investimentos em infraestrutura se esgotou. Eles investem 40% do PIB por ano, mas não há mais tanto o que fazer. É necessário que o consumo passe a ser o motor do crescimento. O governo vai ter que criar mecanismos de bem estar-social, com sistemas de saúde e previdência pública, para estimular as pessoas a poupar menos e a comprar mais. Outro problema é o mercado imobiliário. Na China tem muito imóvel pronto, mas sem comprador porque os preços estão exagerados. Se os preços caírem, gera um problema no setor bancário. Parece que eles vão continuar em um ritmo bom de crescimento, mas bem longe dos índices dos anos anteriores.