Para a City, a Argentina não pode mais adiar a decisão

Conteúdo do Portal InfoMoney - Editoria Mercados

Publicidade

10h50 -12/07
Coluna do Tamer
LONDRES – Dia de nervosismo exacerbado na City de Londres e no mercado financeiro internacional por causa do agravamento da crise argentina.
Para os analistas da City, as causas principais foram os resultados da colocação interna de US$ 850 milhões em títulos do governo argentino, a uma taxa menor do que a prevista – 14% em vez de 15% -, mas com os bancos pondo-os logo à venda no mercado secundário, absorvendo prejuízos com deságios maiores, e prevenindo-se contra perdas mais graves. Ao mesmo tempo, o ministro Domingo Cavallo lançou o que está sendo interpretado aqui na City como o desafio final: não vai mais aumentar a dívida externa, só poderá rolar internamente e o que faltar terá de ser coberto com um corte drástico de despesas. Não há mais como financiar o déficit público. Chegou a hora da decisão. Na City de Londres, a radicalização do presidente De la Rúa e do ministro Cavallo estava sendo interpretada como o lance final de uma longa batalha, em que não há mais suprimento externo de armas na luta pelo financiamento de uma dívida de US$ 130 bilhões. Poucos analistas acreditavam, porém, na viabilidade política de um corte drástico dos gastos, do déficit zero. E ninguém via mais saídas.
Recuo e contágio

As cotações de todos os títulos e moedas dos países emergentes recuaram ontem. O C-bonds da dívida externa brasileira, que é um bom indicador de mercado pela sua liquidez, caiu para um pouco abaixo de 69% do valor de face – o nível mais baixo desde maio do ano passado. Na crise russa de 1998, que precipitou a desvalorização cambial no Brasil, essa cotação havia batido o recorde de baixa de 50% do valor de face.
Outro fator de exacerbamento do nervosismo está sendo a propagação da crise argentina e turca, esta em proporção menor, sobre os demais países emergentes, num momento em que as economias desenvolvidas mostram crescentes sinais de fragilidade e retração, ao contrário do que aconteceu no caso asiático.
Crise chega ao dólar…

Alguns economistas já afirmavam que a queda de ontem no valor do dólar diante de uma cesta de moedas aos níveis mais baixos das duas últimas semanas não era por causa dos indicadores econômicos americanos, pouco animadores, porém não graves, mas sim às conseqüências de um início de propagação da crise argentina nos mercados latino-americanos. Temem não apenas a inevitável queda das exportações dos EUA para essa área, mas também as conseqüências, na bolsa, dos prejuízos sofridos por empresas americanas e européias com pesados investimentos na região. O Índice Dow Jones já recuou 2,4% neste mês, indicando uma tendência desse desdobramento.
Eles lembram que a América do Sul e a Central absorveram no ano passado 6,1% das exportações americanas, de acordo com dados oficiais do governo. Só a Argentina representou 0,6%.
…..e retração pode ser maior

“A crise da dívida latino-americana pode afetar o crescimento econômico dos EUA no segundo semestre do ano”, afirma Sawas Landonikolas, trader do ING Barings, em Londres. Essa preocupação, acrescentou ele, já está puxando para baixo a cotação do dólar. Ontem, o euro recuperou-se, fechando a US$ 0,8559, apesar da desastrosa declaração do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Win Duisenberg, em reunião dos presidentes dos bancos centrais, na Basiléia, que “não estou preocupado com a fragilidade do euro. Ele não está muito fraco, e bem estável”.
O recuo do euro, dizem os analistas, não representa um sinal positivo para o euro, mas um indicador negativo, um possível prolongamento da retração americana. O aumento da preocupação com a Argentina afetou não apenas o dólar, mas todas as moedas e papéis dos países emergentes.
Retração mais longa nos EUA

“A desaceleração econômica nos Estados Unidos pode ser bem maior do que a prevista”, diz o analista do mercado financeiro da Tempus Consulting, Greg Salvaggio, à Agência Bloomberg, em Washington. Por quê?
“Os investidores poderão começar a vender logo seus títulos da dívida latino-americana em dólar.” Aliás, lembram na City, o recuo dos C-bonds brasileiros e de todos os outros papéis de países emergentes é um sinal de que isso já está acontecendo.
Não é o fim, a vida continua…

Alguns analistas menos pessimistas já faziam projeções para o “day after”. A análise mais lúcida ouvida por esta coluna foi de um analista de um dos principais bancos estrangeiros que operam na City. Ele não descarta a possibilidade de uma nova reestruturação da dívida sem a desvalorização do peso, mas, acrescenta, mesmo a desvalorização não pode ser interpretada como “um desastre total, o fim do mercado emergente, como afirmam os catastrofistas”. O que haveria, então? “Haveria um grande deslocamento de capitais e empregos (e o Brasil até poderia ser beneficiado), mas só os que ignoram a história (do mercado financeiro) poderiam concluir que é o fim.
Haverá reajustes, mas os negócios com os países emergentes vão continuar.”
Para ele, o caso argentino pode ser visto com uma catarse, uma espécie de operação de purgação, de “limpeza”, a última de uma série iniciada com a crise do México (1994), da Rússia (1998) e, parcialmente, de uma certa forma, a do Brasil (1999). Cada país terá de responder de forma diferente a esse desafio, e os que tiverem encontrado a boa resposta se darão até bem depois da crise argentina.” E o Brasil? Como a Argentina, ele tem um problema de débito, mas tem e pode aumentar as reservas, conta com a confiança do mercado, está consciente das proporções da crise e já elaborou um plano para enfrentar o que está por vir. É só não vacilar, pois está mais bem preparado, sabe o que fazer e como fazê-lo.

Tópicos relacionados