Papéis do Brasil aumentam com Venezuela, eleição e tudo mais

Discurso de Greenspan e antecipação de pagamento da dívida brasileira elevam procura por papéis brasileiros em Londres

Publicidade

LONDRES – Pode parecer estranho, mas é verdade. Nem a Venezuela nem as últimas pesquisas eleitorais no Brasil atravessaram o Atlântico e chegaram aqui, na City de Londres, onde os papéis de todos os países emergentes viveram um dia tranqüilo, de euforia e alta. Se houve alguma coisa de mais sério na Venezuela, ficou por lá. Até mesmo os preços do petróleo não se abalaram, mantiveram-se estáveis, com o Brent, que serve de base para 66% do mercado, a US$ 24,50 no fim da tarde em Londres.

“O mercado global está mais forte, o efeito Venezuela não se concretizou até porque o retorno de Chávez foi tido como positivo do ponto de vista institucional (as más línguas insinuam até que há algo de muito estranho nessa ‘renúncia de fim de semana’), o Federal Reserve indicou que pretende aumentar no futuro próximo e está tudo em alta”, afirma o economista Pedro de Souza Leão Regina, diretor do Anchorage Capital Partners, em Londres. E ironiza: “Em outras palavras, o mundo está lindo…”

O que aconteceu neste fim de semana em Caracas foi estranhamente muito rápido, Chávez voltou com um discurso diferente, garantindo fornecimento de petróleo aos Estados Unidos, não interferir na política da estatal petrolífera, e seguir a Opep. Na verdade, nem parecia o mesmo homem. “É evidente que, apesar da legitimidade democrática do presidente, muita gente, dentro e fora do país, gostaria de ver uma pessoa mais estável no comando”, diz o diretor do Anchorage, mas, mesmo assim, o “efeito Chavez” não existiu.

Na ponta

Entre os papéis dos países emergentes, os do Brasil foram os que registraram a maior alta. Os C- bonds da dívida externa brasileira, que na segunda-feira deram um pequeno recuo para 81% do valor de face, na terça já estavam a 81,5% e, ontem, quarta-feira, fecharam a 82,5%. “Foi uma alta de um ponto porcentual, o que não é pouco, num momento como este em que se esperava que fosse cair”, diz uma fonte do mercado. Durante todo o dia foi grande a procura pelos títulos brasileiros.

Para todos os analistas ouvidos pela coluna, o resultado da pesquisa eleitoral divulgado neste fim de semana também não influiu no ânimo dos investidores. “Continua grande a procura de papéis do Tesouro e de empresas brasileiras que vencem depois das eleições”, confirmam eles. “Tivemos ontem um dia movimentado.”

Antes da eleição, há apenas um grande vencimento de US$ 800 milhões no euromercado, em 29 de julho, mas já estava coberto com o último levantamento de US$ 1,25 bilhão do Tesouro. E este papel, que vence em 2008, não tinha sido bem recebido, e foi lançado abaixo do valor de face com juros mais altos diante da pouca procura? “Continua bem, manteve a recuperação do primeiro dia e estava sendo negociado pelo valor de face”, informa um “trader” da City.

Continua depois da publicidade

Por quê?

Mas como explicar este clima de quase euforia? Todos concordam que houve uma série de fatos positivos a contrabalançar os eventuais efeitos negativos da Venezuela e o resultado da pesquisa eleitoral no Brasil. A economia americana mostrou novos sinais de crescimento, com os Estados Unidos importando nada menos que US$ 110 bilhões em março (o dobro das exportações brasileiras em um ano…). Com isso, aumentou o seu déficit comercial para US$ 31,5 bilhões – o mais alto desde abril de 2000, apesar de suas exportações terem crescido 1,2%.

O fator Greenspan…

Outro, é o fator Greenspan. Quando o mercado esperava que ele indicasse, no pronunciamento ao Congresso, sinais de um aumento de juros em face da forte retomada americana, o presidente do Fed disse que a sustentação do crescimento é ainda incerta, não há sinais mais significativos de inflação. Por isso, a posição do Fed não muda. Ou seja, os juros serão mantidos em 1,75%. Em outras palavras, o banco central vai continuar estimulando o crescimento econômico, puxado pelo consumo, pela compra de imóveis e de veículos. Isso é extremamente importante, pois a economia americana é a única que está voltando a crescer de forma consistente acima de 2%. O FMI estima para este ano crescimento de 2,3% nos EUA e de 1,4% na eurozona.

…e o fator Brasil

Neste contexto, apontam os analistas da City, o Brasil também ajudou. O anúncio feito pelo ministro Pedro Malan de que não somente não irá precisar usar US$ 4,6 bilhões disponíveis do FMI, mas ainda antecipará o pagamento de US$ 4,2 bilhões, pesou muito na confiança dos investidores.

Continua depois da publicidade

Isso, mais os dados fundamentais da economia, como a substituição de um déficit por um superávit comercial e a entrada de investimentos diretos (US$ 22 bilhões em 12 meses), “apresentam aos investidores um cenário econômico sólido e de muita confiança, mesmo com a proximidade das eleições”.

São os juros!

A venda de carros na Europa Ocidental, em março, comparada com o mesmo mês do ano passado, sofreu uma queda de 7,4%, totalizando 1,5 milhão de unidades, de acordo com a Acea, Associação Européia de Fabricantes de Veículos, a Anfavea européia. No primeiro trimestre, o recuo foi de 4%. A principal causa “é a incerteza econômica”, reconhece a entidade. No fundo, não é bem isso.
As vendas estão em franco declínio simplesmente porque os juros cobrados no financiamento de veículos é alto, para a região e os países desenvolvidos, cerca de 6% ao ano, enquanto nos Estados Unidos os fabricantes estão vendendo a juros negativos, abaixo da inflação estimada em 1,5% neste ano.
Ou seja, compre, leve, não pague juros e ganhe ainda aplicando seu dinheiro no mercado financeiro. Em conseqüência, enquanto em toda a Europa Ocidental (não é só na União Européia) as vendas despencam, nos EUA elas sobem. E isso apesar de eles terem aumentado também as importações de veículos, algo da ordem de US$ 1,6 bilhão. Em conseqüência dessa política de juros negativos, a GM, entre outras empresas, está anunciando aumento de 4% na produção deste trimestre.

O Federal Reserve reduziu 11 vezes a taxa básica de juros, no ano passado, trazendo-a para 1,75%, enquanto o Banco Central Europeu (BCE) a mantém em 3,25%. E até ameaça aumentá-la se a inflação não baixar a 2%.