Primerias leituras

Pacote de concessões é aplaudido, mas com reservas

O Programa de Investimento em Logística foi bem recebido porque indica uma guinada mais realista da presidente Dilma Rousseff, porém há dúvidas sobre sua execução e seu alcance para reativar a economia no curto e até no médio prazo

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O “novo” Programa de Investimento em Logística lançado ontem pela presidente Dilma Rousseff foi elogiado por investidores e analistas pelo que ele contém de boas intenções e apuro técnico, mas principalmente porque significa uma “página virada” (expressão da própria Dilma) em relação ao ranço ideológico e intervencionista que até então marcaram (e determinaram o fracasso) das tentativas anteriores do Palácio do Planalto de atrair investimentos privados para ampliar e melhorar a infraestrutura brasileira.

Portanto, a festa de ontem cumpriu um dos objetivos do plano: mostrar que o governo está vivo, efetivamente trabalhando e tem um projeto para retomar o desenvolvimento do país – não está apenas enredado na agenda “negativa” do ajuste fiscal, do corte de despesas, com seus riscos de ampliar a recessão e o desemprego. A primeira batalha das expectativas foi vencida.

A partir daí aparecem dúvidas e reservas. A primeira, naturalmente, é quanto à capacidade de levar o plano adiante com eficiência. Outra, diz respeito à sua exequibilidade, uma vez que o modelos de concessão para cada uma das áreas a serem com projetos licitados – rodovias, ferrovias, portos e aeroportos – não estão totalmente conhecidos. Está em questão ainda o problema do financiamento dos projetos, embora se diga que o BNDES vai continuar como o grande investidor e que há muito interesse dos capitais privados. Só se saberá de fato quando os leilões começarem.

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E está em questão, também, a taxa de retorno que será admitida nos projetos. Esse ponto foi um dos principais responsáveis pelo fracasso do antigo plano, no qual foram concedidas apenas umas poucas rodovias. Informa o “Valor Econômico” que as empresas interessadas nas estradas, por exemplo, pedem retorno de 10% a 11%. Nas concessões anteriores de Dilma a taxa foi pouco mais da metade disso.

A maior dúvida é quanto aos efeitos e curto e médio prazo do plano sobre o desempenho da economia brasileira. E a opinião generalizada é de que esse efeito deverá demorar a aparecer. Por algumas razões:

  1. Este ano poucas concessões deverão sair do papel e nenhuma deve gerar investimentos imediatos.
  2. Apenas um terço dos R$ 198,4 bilhões de investimentos previstos no PIL, cerca de R$ 69 bilhões, deverão ocorrer até 2018.
  3. Os outros dois terços somente depois de encerrado o mandato da presidente Dilma Rousseff.
  4. Apenas um projeto, o da ferrovia ““bioceânica”, ligando o Brasil ao Peru, já chamado de “novo trem bala de Dilma”, é responsável por 20% de todo o plano, com previsão de gastos de R$ 40 bilhões. É um projeto que está sendo estudado em parceria com a China.

O próprio ministro Joaquim Levy, a quem os especialistas atribuem a boa dose de realismo do plano, acredita que ele terá um efeito moderado sobre o crescimento da economia: segundo ele, o PIL acrescentará 0,25 ponto percentual no PIB nos próximos anos, resultado que poderá dobrar com seus efeitos indiretos.

Reportagem do “Valor Econômico” calcula que o plano poderá adicionar de 0,2 a 0,4 ponto percentual por ano ao produto, de 2016 a 2018, As concessões de rodovias dariam uma contribuição de 0,38% do PIB ao superávit primário de 2015 a 2018.

É bom, mas não é sensacional para uma economia em recessão. Calcula-se também que nos primeiros três anos o PIL deverá acrescentar 0,5% no nível atual de investimento no país.

DETALHE levantado pelo jornalista Ricardo Noblat em seu blog e por reportagem no Estadão: no discurso de lançamento do PIL Dilma faz comparações de seu governo não apenas com o de FHC como também com o de Lula e diz que está fazendo mais que os dois.

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Manchetes dos jornais sobre o pacote:

GLOBO – “Plano prevê R$ 198 bi, mas 40% são incertos”

ESTADÃO – “Mercado vê com cautela novo plano de concessões”

FOLHA – “Governo lança lista de intenções para infraestrtura”

VALOR – “Realismo e exagero nas concessões”

ATENÇÃO – Salvo surpresas de última hora, geradas por pressões da CUT e de seus grupos mais radicais, o PT “desistiu” de fazer críticas pesadas ao ajuste fiscal da presidente Dilma Rousseff em seu V Congresso, a partir de amanhã em Salvador. Bombeiros, com a participação decisiva do ex-presidente Lula, conseguiram que as teses apresentadas pelos diversos grupos a serem discutidas pelos 800 delegados partidários, omitissem o assunto e apontassem para “o futuro”. Selada a paz, espera-se que a presidente Dilma retorne a tempo de Bruxelas para participar da abertura do evento. A expectativa agora é saber se Lula, que nos bastidores defende o plano de Levy vai, pela primeira vez, de público comprometer-se radicalmente com o ajuste fiscal – ao vivo em cores. Para compensar a frustração de parte de seus membros com o recuo nas críticas à política econômica, o PT deverá propor uma “guinada à esquerda” em 2018, conforme reportagem da jornalista Vera Rosa no “Estadão”.

Outros destaques dos jornais do dia

– ARGENTINA – O governo da presidente argentina, Cristina Kirchner, enfrenta nesta terça-feira a quinta greve geral convocada por mais de 20 sindicatos, principalmente do setor de transportes, para exigir, entre outras demandas, liberdade na renegociação de ajustes salariais e modificações no sistema de cobrança do Imposto de Renda. A paralisação afetou totalmente o transporte público, de cargas e os aeroportos de todo o país. Estão funcionando apenas alguns voos internacionais, no aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires. Em plena campanha eleitoral para as presidenciais do próximo dia 25 de outubro, a Casa Rosada acusou os sindicatos de “estarem buscando prejudicar o governo”. É a segunda greve geral no país em 70 dias.

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– ATIVIDADE ECONÔMICA/INDÚSTRIA – A indústria reduziu o ritmo de produção entre março e abril em 13 dos 14 locais pesquisados pelo IBGE. Os principais recuos ocorreram em Ceará (-7,9%), Bahia (-5,1%), Amazonas (-5,1%) e Pernambuco (-4,6%). Em São Paulo, a queda foi de 3,6%. No Rio, o resultado negativo ficou em 1,2%. Paraná, foi o único estado com variação positiva, de 1,4%. A produção da indústria caiu 1,2% de março para abril. Na comparação com o mesmo mês de 2014, a queda foi de 7,6%. De janeiro a abril, o setor acumula recuo de 6,3%. Em 12 meses, a baixa é de 4,8% — o pior resultado desde dezembro de 2009.

E MAIS:

– “PT poupa ajusta, mas critica neoliberais” (Globo)

– “Bradesco faz oferta pelo HSBC” (Globo)

– “Camargo Correa doou 3 milhões ao Instituto Lula” (Estadão)

– “Governo sinaliza acordo com PSDB sobre maioridade” (Estadão)

– “Planalto tenta adiar votação da desoneração” [prevista para hoje] (Estadão)

– “Mercadante propôs reduzir o poder do vice” (Folha)

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– “PT pode perder sua base social, alerta Paul Singer” (Folha)

LEITURAS SUGERIDAS

  1. Elio Gaspari – “Rendição ao programa de Levy revela exaustão do PT” (comenta que o PT tem 1,7 milhão de filiados, mas não sabe o que fazer com eles)
  2. Editorial – “Governo faz opção certa na infraestrutura” (diz que com regras mais flexíveis nas concessões e que não discriminam o pacote de logística deve deslanchar os investimentos) – Globo
  3. Miriam Leitão – “Plano melhorado” (diz que a maior notícia do pacote de logística é que o governo abandonou suas próprias idéias) – Globo
  4. Editorial – “O sol e a peneira” (critica as declarações da presidente Dilma de que o pior na Petrobrás já passou) – Estadão
  5. Paulo Rezende – “Governo percebeu finalmente que menos é mais” (comenta o pacote de logística e diz que não veremos grandes resultado até 2018 e que grande parte do plano será de responsabilidade do próximo governo) – Estadão
  6. Editorial – “Reforma em desacordo” (diz que as propostas de reforma política podem piorar o quadro político no país) – Folha
  7. Bernardo Mello Franco – “O vice na frigideira” (diz que está cada vez mais quente o clima entre Michel Temer e o PT) – Folha
  8. Cristiano Romero – “Banco Central: hora de parar” (diz que pelo menos uma agência de classificação de risco está preocupada com a capacidade do governo de reduzir a dívida pública) – Valor