Ouro é a solução para impedir alta das moedas emergentes, afirma BofA

Para banco, petróleo ultrapassa US$ 100 por barril em 2011 e ouro supera US$ 1.500 por onça em menos de 1 ano

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SÃO PAULO – Os Bancos Centrais de países emergentes estão focando o ouro ao invés de moedas estrangeiras para compor suas reservas, porque este parece estar num valor melhor e tem menor exposição a riscos políticos. É o que afirmam os analistas do Bank of America Merrill Lynch, em relatório no qual analisam as tendências do mercado de câmbio e commodities.

Nas últimas semanas, o aumento do fluxo de capital para os emergentes, a contínua apreciação das moedas do G-10 e avanço na demanda de commodities levaram a uma depreciação significativa do dólar e impulsionaram o preço do petróleo acima de US$ 80 por barril. A baixa elasticidade da demanda do petróleo e uma constante reciclagem de “petrodólares” em euros mantiveram os preços da commodity e a cotação dólar em sintonia – dinâmica que se estendeu para outros mercados de commodities.

Índia e desvalorizações competitivas

Mas, segundo os analistas, a relação entre câmbio e petróleo pode estar se rompendo. “A commodity e os mercados de câmbio têm trabalhado supondo que um dólar mais fraco é sinônimo de preços elevados do ouro e do petróleo”, afirmam

Entretanto, o anúncio da compra de ouro pela Índia na última semana foi suficiente para fazer o preço do metal precioso disparar, mesmo com a valorização do dólar na sessão. “Em nossa opinião, isso poderia sinalizar que as políticas ‘beggar-thy-neighbour’ – nas quais os países desvalorizam as moedas e usam barreiras protecionistas para aliviar as dificuldades do país à custa de outras nações – tem limites naturais, e a nova tática pode ser uma série de desvalorizações competitivas de moedas”, afirmam os analistas. “Depois da Índia, muitos Bancos Centrais devem estar pensando quem será o próximo”.

Com a perda de credibilidade das principais moedas do G-10, um movimento para ativos como ouro parece provável para os analistas. Segundo eles, se os EUA imprimem dinheiro para fugir da deflação e do enorme déficit do setor público, a Europa terá de fazer o mesmo para evitar a apreciação do euro em relação ao dólar. “O problema é que todos os países que tem um sistema de câmbio flutuante estão na mesma situação, criando um círculo vicioso de depreciações competitivas”. Com as finanças públicas em situações tão deploráveis, é difícil ver como os países vão voltar a crescer sem uma robusta demanda externa, sugerindo que essa dinâmica pode se manter por um tempo.

A única proteção dos países contra essa tendência é comprar ouro – e os avanços nos preços do ouro levam a uma alta das demais commodities, como foi visto na última semana. “Essa mudança de liderança no mercado é consistente com a perspectiva de longo prazo da relação entre os preços do petróleo e do ouro, e também é consistente com uma desvalorização do euro nos próximos meses”, apontam os analistas, que também afirmam que inflação, câmbio e commotidities têm uma ligação direta ou indireta com o ouro.

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Assim como os emergentes estão se voltando para o ouro no lugar de moedas do G-10, eles também preferem o metal aos títulos públicos de economias do G-7. “Exatamente porque a política monetária é contagiosa, não é possível se proteger do risco de depreciação do dólar comprando euros ou libras, porque há uma grande possibilidade de que os BCs europeu e britânico sigam o Fed”, apontam.

O euro e o petróleo

Por outra perspectiva, o euro está forte em comparação a outras moedas – dissonante da tendência de alta dos preços do petróleo e do ouro. Para reconciliar um euro mais fraco ao avanço das commodities, as moedas de mercados emergentes deveriam ter maior flexibilidade, o que diminuiria a acumulação de reservas. Um câmbio mais forte dos mercados emergentes também aumentaria seu poder de compra de commodities, ajudando a manter os preços em alta.

A preferência dos BCs emergentes por ativos físicos – como exemplificada pela Índia -, como o ouro, também pode ajudar a reconciliar um euro mais fraco a trajetória de alta das commodities. “O problema é que existe uma acumulação de reservas excessiva, que só pode ser solucionada com apreciação das moedas dos emergentes. Se os emergentes escolherem manter suas moedas artificialmente fracas contra o dólar, os consumidores serão prejudicados pelo avanço dos preços das commodities”, apontam os analistas. Para evitar o problema, os Bancos Centrais terão de permitir que suas moedas se apreciem mais rapidamente – o que vai aumentar gradualmente a demanda por commodities.

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A China e o ouro

Como há limites de apreciação das moedas do G-10 em relação ao dólar, a valorização das moedas dos emergentes em relação às do G-10 tem sido defendida pelos analistas. “Mas essas moedas já se valorizaram muito nos últimos meses – assim, a solução seria uma valorização da moeda chinesa”. Como os emergentes não podem acumular moeda chinesa, a solução, novamente, seria comprar ouro.

Petróleo acima de US$ 100

Assim, a diversificação das reservas, com compra de ouro, parece uma posição atraente. Entretanto, os riscos permanecem. “A nossa visão negativa da relação entre o euro e o dólar pode ser impactada caso os Bancos Centrais dos emergentes decidam vender suas ações ou ativos em moeda para comprar ouro”, afirmam os analistas.

Assim, o BofA Merrill Lynch reforça a perspectiva de que o petróleo pode superar a barreira dos US$ 100 por barril perto de 2011, o ouro pode superar o patamar de US$ 1.500 por onça nos próximos 18 meses e a relação euro/dólar será de 1,28 até o final do próximo ano. “O mercado pode, claro, se mover mais rápido que isso”, concluem.