Cenários mais sombrios

Os sinais que mostram que a economia do Brasil ainda não chegou ao “fundo do poço”

Um dia antes e depois do feriado, os dados não foram nada positivos - a expectativa é de que haja ainda mais desemprego e que a produção industrial irá ter uma forte construção; o Senado também não trouxe boas notícias

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SÃO PAULO – A Bovespa ficou fechada na última quinta-feira e voltou em grande estilo, com alta superior a 1%, refletindo principalmente o cenário externo, com as medidas para recuperar as bolsas chinesas e os avanços nas negociações com os gregos. 

Porém, se formos olharmos para o noticiário brasileiro dos últimos dias, não há o que se comemorar, dando a sensação de que ainda não estamos, mesmo, do “fundo do poço”, como ressaltado pelo ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, em entrevista para a Folha de S. Paulo no final de junho. Ontem, por exemplo, foi a vez dos dados de desemprego. 

A taxa foi a 8,1%, maior nível desde que foi iniciada em 2012, na maior alta da série histórica iniciada em 2012, influenciada pela procura por vagas e redução de postos em meio ao cenário de inflação elevada e economia cambaleante, de acordo com a Pnad (pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios).

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E, conforme destaca o diretor de pesquisa para mercados emergentes do Goldman Sachs, Alberto Ramos, a expectativa é de que a situação do mercado de trabalho se deteriore ainda mais, principalmente por conta da continuidade da recessão.

“Nós esperamos que o mercado de trabalho vá se deteriorar ainda mais. O aperto monetário, o consumo e a confiança do consumidor em queda, as condições financeiras piores devem levar a uma maior taxa de desemprego em 2015 e um crescimento moderado do salário real. Do lado positivo, este aumento do desemprego deve finalmente fazer com que a inflação ceda”, afirma Ramos.

A mesma visão é destacada pela equipe de análise econômica do Credit Suisse: “números recentes do mercado de trabalho, bem como as fracas perspectivas para o segundo semestre deste ano são compatíveis com uma taxa de desemprego mais elevada do que o anteriormente esperado. Esperamos agora que a taxa de desemprego média da Pesquisa Mensal de Emprego atinja  6,7% em 2015 e 8,2% em 2016. Este dado seria compatível com uma taxa média de desemprego nacional medida pela PNAD de 8,5% em 2015 e 9,5% em 2016”.

Produção industrial, e não só ela…
Hoje, mais um dado desolador: o da produção industrial. Apesar de ter mostrado avanço de 0,6% na produção industrial nacional na passagem de abril para maio, interrompendo uma série de três resultados negativos, o IBGE ( Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) não vê os números como positivos.

O pesquisador da coordenação de indústria do IBGE, Rodrigo Lobo, não vê recuperação e apontou que indústrias importantes, como São Paulo e Rio de Janeiro, estão bem abaixo do pico histórico. Lobo ainda enumerou outras três regiões cujo fundo do poço está próximo: as indústrias do Paraná (-23,3%), Ceará (-21,3%) e Amazonas (-22,3%) estão muito abaixo do melhor momento. 

O mais impressionante, contudo, foi a queda de 13,7% na produção industrial em São Paulo na comparação anual, a mais intensa desde abril de 2009, quando o recuo foi de 14,3%. Pela primeira vez na história da pesquisa, iniciada em 2002, todas as 18 atividades industriais na região apresentaram queda na produção de forma simultânea neste confronto.

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Segundo Lobo, na época da crise, as condições macroeconômicas não eram tão desfavoráveis. “Ainda se tinha uma massa salarial mais elevada, não tinha pressão tão grande da inflação, crédito se recuperou de forma rápida. Mercado interno fez com que houvesse crescimento acelerado no momento subsequente, o que não observamos agora. Com isso, a recuperação tem sido mais difícil”.

O Rio também apresentou 15 quedas na comparação anual.”Os dois Estados mais industrializados do País mostram a maior sequência de resultados negativos”.A queda de 13,7% na produção industrial em São Paulo é a mais intensa desde abril de 2009, quando o recuo foi de 14,3%. Além de forte, o resultado ainda foi disseminado. Pela primeira vez na história da pesquisa, iniciada em 2002, todas as 18 atividades industriais na região apresentaram queda na produção de forma simultânea neste confronto.

“O que mais impressiona ainda é a sequência de 15 quedas (na comparação interanual). Ou seja, a produção está caindo sobre um mês em que ela já caiu”, afirmou Rodrigo Lobo, pesquisador da Coordenação de Indústria do IBGE. “Essa sequência confere a esse período atual um diferencial mais crítico do que naquele período de crise internacional, em que houve 12 taxas negativas.”

Na época da crise, as condições macroeconômicas não eram tão desfavoráveis, pontuou Lobo. “Ainda se tinha uma massa salarial mais elevada, não tinha pressão tão grande da inflação, crédito se recuperou de forma rápida. Mercado interno fez com que houvesse crescimento acelerado no momento subsequente, o que não observamos agora. Com isso, a recuperação tem sido mais difícil”, disse.

A sequência negativa sustentada por São Paulo é idêntica à apresentada pela produção nacional. Além da indústria paulista, o desempenho do Rio de Janeiro, também com 15 quedas no confronto interanual, pesa sobre o resultado nacional, com baixa de 2%. “Os dois Estados mais industrializados do País mostram a maior sequência de resultados negativos”.

Conforme destacou o Brasil Plural, a expectativa é de que o setor industrial registre uma contração tanto em 2015 quanto em 2016. A expectativa é de que, este ano, haja uma contração de 5,8% na atividade do setor e de 0,2% no ano que vem, consistente com um cenário de menor confiança e alta dos estoques. 

Enquanto isso, aponta o Brasil Plural, no setor de serviços, que costuma ser o mais resiliente da economia, a expectativa é de que haja a primeira contração (expectativa de queda de 0,8%) desde o início da série histórica (1996) e uma alta muito modesta em 2016, de 0,6%. O único setor que se “salvaria” seria o agrícola, com taxas de crescimento de 1,2% em 2015 e 3,4% no próximo ano. Porém, dada a baixa participação no PIB deste setor, ele não deve liderar a recuperação. 

Cabe ressaltar ainda que o Brasil Plural cortou a previsão para a economia brasileira de contração de 1,2% para 1,7%, além de ter elevado a perspectiva para a inflação deste ano de 8,7% para 9,4%. 

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Mais uma derrota do Congresso
Enquanto isso, antes do feriado na Bolsa, mais uma derrota para o governo: apesar dos apelos da presidente e dos esforços dos ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa, o Senado aprovou a extensão das regras de reajuste do salário-mínimo para todas as aposentadorias da Previdência Social e não apenas para os beneficiários que recebem até um salário-mínimo.

Conforme destaca o blog Primeiras Leituras de hoje, os ministro cansaram de explicar que uma medida dessas agora, nas condições atuais das contas públicas, mesmo que justa, pode ser um “desastre”. Compromete o ajuste fiscal mais ainda do que ele está comprometido por outras mudanças impostas pela Câmara e o Senado e dificulta o combate à inflação – e pode retardar a retomada do crescimento da economia.

A extensão do aumento do mínimo para todas as aposentadorias passou no Senado com votos (e ausências) de senadores petistas e também de peemedebistas e outros aliados.

Com o governo politicamente fraco, boa parte dos deputados e senadores prefere não ter sua imagem ligada fortemente ao Palácio do Planalto, ainda mais quando se trata de apoiar medidas tidas como impopulares (ou, de outro modo, populistas): aumentos de salários, vantagens para aposentados…

“A norma é a seguinte: vota-se, mesmo que se reconheça que se está criando um problema, e deixa-se para Dilma vetar. O que se só ajude a ampliar o desgaste presidencial. E cria outro problema: gera desconfianças nos agentes econômicos, sobre a capacidade política de o Planalto conduzir as ações de governo a bom termo. O governo estará sempre correndo para tapar buracos – e nem sempre isto será possível”.

Pelo visto, durante o feriado na Bolsa, não houve sinalizações positivas para a presidente Dilma Rousseff e para o cenário de retomada de crescimento – muito pelo contrário.