Inflação

Os riscos da inflação alta: mais recessão

O cenário é de deterioração das expectativas inflacionárias, que só poderá ser rompido com um basta no processo de defensivo de reajustes de preços e salários

arrow_forwardMais sobre
Aprenda a investir na bolsa

Colunista convidado: Rogério Mori, professor da Escola de Economia de São Paulo da FGV.

Um dos maiores danos à economia brasileira neste ano, herdado da gestão da política econômica do período 2010/2014, reside no atual patamar da inflação no País. Sob essa perspectiva, desde 2009 a variação dos preços medida pelo IPCA tem se situado acima do centro da meta estabelecida para inflação, de 4,5%. Mais grave que isso, os últimos dois anos foram marcados por inflação em elevação, sendo que as perspectivas para 2015 apontam para um patamar em torno de 9%.

Os efeitos deletérios desse processo já se fazem sentir em várias dimensões. O cidadão comum, que tem observado esse fenômeno ao longo dos últimos anos e sente de maneira cada vez mais palpável a corrosão do seu poder de compra, imagina uma inflação ainda mais alta em 2016. Na prática ninguém mais no País, exceto o Banco Central, ainda acredita que a meta de inflação seja de 4,5%. Os poucos que ainda atentam para isso imaginam que a meta seja de 6,5% (que, na verdade, é o limite superior de tolerância da meta para inflação).

Aprenda a investir na bolsa

Esse quadro claramente se configura em um quadro de deterioração de expectativas em torno do ambiente inflacionário. O cenário, associado à percepção da perda de renda real por boa parte das pessoas, tem detonado um processo defensivo por parte dos agentes, que tentam preservar sua renda real mediante reajustes de preços, salários e contratos. Por conta disso, tem se observado uma crescente inércia na inflação brasileira, que tem resistido a cair a despeito da desaceleração da atividade econômica em curso neste ano.

Nesse sentido, os riscos da reindexação da economia, com reajustes de preços contratuais e de salários em um período inferior a doze meses existem e não devem ser desconsiderados. Um dos elementos decisivos para a vitória do Plano Real no combate à inflação em 1994/1995 deveu-se ao rompimento da indexação mensal de preços, que contaminava todos mercados na nossa economia.

A desindexação nos moldes delineados pelo Plano Real, no entanto, só foi possível graças à manutenção da inflação em nível baixo ao longo do tempo. Ela só será mantida pelos agentes caso a variação dos preços permaneça recorrentemente em patamar baixo. Tal fenômeno tem por finalidade evitar perdas de renda real expressivas em um espaço de doze meses, que ensejem a demanda por reajustes em um prazo inferior a esse período para recompor o patamar de renda dos agentes. Caso isso ocorra, estaremos retrocedendo mais de vinte anos no tempo e os riscos de reindexação plena ainda persistem.

A única forma de reverter esse cenário nesse momento é romper com o quadro de deterioração das expectativas de inflação por parte dos agentes e dar fim ao potencial processo de reajustes defensivos de preços e salários em curso. Infelizmente, isso só será possível mediante um aprofundamento da recessão e do desemprego. Ao que tudo indica, o Banco Central, lenta e tardiamente, vem tomando consciência desse fato.