Comemoração exagerada?

Os motivos para o mercado comemorar e para ter cautela com a trégua comercial entre EUA e China

Acordo pode apenas postergar um problema que não está apenas na balança comercial e quem pode sair "ferido" nessa guerra comercial é o Brasil 

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(Shutterstock)

SÃO PAULO – Os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, chegaram a um acordo amplamente esperado pelos mercados globais durante o encontro do G-20 e impuseram uma trégua à guerra fiscal que vinha azedando o humor dos investidores nas últimas semanas. 

Com o acordo fechado durante o G-20, ocorrido no fim de semana na Argentina, os Estados Unidos suspenderam o aumento das tarifas sobre os US$ 200 bilhões em bens chineses que entrariam em vigor em 1 de janeiro. Em contrapartida, a China se comprometeu a aumentar suas compras do mercado norte-americano de produtos agrícolas, energéticos e industriais. Não foi fechado um valor específico.

A resposta dos mercados globais foi automática: altas de mais de 2% nas bolsas asiáticas e europeias e renovação da máxima histórica intraday no Ibovespa, que alcançou 91.242 pontos. Porém, há algumas razões para os mercados adicionarem certa dose de cautela no otimismo generalizado.

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Para começar, o acordo é temporário e o prazo é curto. A pausa terá duração de 90 dias, período em que China e Estados Unidos tentarão resolver suas divergências comerciais em novas negociações. Ou seja, o problema não está resolvido. A Casa Branca também informou que os países irão tratar nas próximas semanas de negociações que incluem, além da parte comercial, transferência de tecnologia, propriedade intelectual, barreiras não-tarifárias, roubo cibernético e agricultura.  

Para os analistas do Credit Suisse, o prazo parece “bastante apertado”, especialmente considerando os feriados de Natal e Ano Novo no ocidente e o Ano Novo Chinês. Para eles, o período de 90 dias estipulado pelo governo norte-americano tem, na verdade, o objetivo de pressionar o governo chinês a dar sinais de boa vontade e ações rápidas. De toda forma, o Credit Suisse acredita que a “ansiedade” com a guerra fiscal pode voltar após a virada do ano.

Se não chegarem a um acordo comercial dentro de 90 dias, os países concordaram com o aumento da alíquota de impostos dos EUA para os produtos chineses de 10% para 25%, ou seja, de volta à estaca zero.

Além disso, o embate entre China e Estados Unidos não diz respeito somente a balança comercial. “As divergências entre os dois países seguem latentes – e vão além de questões econômicas”, escrevem os analistas da Rosenberg em relatório enviado a clientes. 

Os analistas da Rosenberg explicam que a ascensão da China como força global desafia a hegemonia norte-americana e, a reboque vem o aumento da sua relevância militar e política em detrimento do poder norte-americano. Vale lembrar que a guerra comercial deflagrada por Trump, que foi uma constante na sua corrida ao posto de presidente, foi suficiente para desestabilizar a China e aumentar o risco de desaceleração econômica mais rápida no país.

“O sinal emitido no G20 deve ser encarado como positivo, mas não se sustenta se isolado: a reconstrução da confiança entre as partes levará tempo”, alerta a Rosenberg.

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Acordo comemorado? Não por alguns setores brasileiros

Enquanto os mercados mundiais – inclusive o brasileiro – comemoram o “cessar-fogo” entre as duas maiores economias do mundo, vale destacar que o Brasil mostrava-se um ganhador – pelo menos para parte do mercado – com o impasse entre dois países.

Por mais que o Brasil se beneficie da melhora da economia global, alguns setores poderão sentir efeitos negativos da aproximação entre China e Estados Unidos, uma vez que estava se beneficiando das maiores exportações.  

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Especialistas apontam que o embate entre os dois países já rendeu frutos ao Brasil. As vendas de soja ao exterior de janeiro até a quarta semana de novembro somaram 78,5 milhões de toneladas, o equivalente a dez milhões a mais do que o resultado de todo o ano passado, impulsionadas pelas compras de Pequim.

A expectativa da Anec (Associação Nacional dos Exportadores de Cereais) é de que as exportações de soja brasileira alcancem o patamar recorde de 82,5 milhões de toneladas.

No entanto, a trégua pode fazer com que a China dê preferência à soja norte-americana nos próximos meses, período em que a safra por lá está em fase de colheita enquanto o plantio por aqui ainda está em desenvolvimento. Em um momento em que o futuro presidente do país, Jair Bolsonaro, tem sinalizado maior aproximação com o governo de Trump e busca pela menor dependência chinesa, o cenário que se desenha pode ser negativo para a balança comercial brasileira no médio e longo prazos. 

Vale lembrar que o acordo prevê que a China aumente “substancialmente as suas compras de produtos agrícolas, energéticos, industriais e de outros tipos” vindos dos Estados Unidos. Além da soja, o Brasil concorre com as exportações norte-americanas nos mercados de milho, frango, carne e aviões. 

Porém, ao mesmo tempo em que pode ser ruim para o setor agrícola, a redução dos prêmios da soja pode beneficiar empresas brasileiras que sofrem com as altas cotações no mercado internacional. Isso envolve principalmente os frigoríficos, que tem os grãos como insumos importantes na produção de aves e suínos. Isso, associada à perspectiva de aumento na produção, pode reduzir a pressão de custos sobre BRF (BRFS3) e JBS (JBSS3). 

Prós e contras

Ao olhar para os efeitos no mercado e as suas perspectivas, deve-se ter em mente que o acordo é um fato a ser comemorado, mas com parcimônia pelos mercados, especialmente no Brasil.

É preciso acompanhar com atenção o desenrolar das negociações e como o país pode ser afetado pontualmente em setores-chave de base exportadora.

Assim, passado o G-20, uma sinalização dos caminhos dessas negociações poderá ser observada durante o encontro anual chinês da Conferência Central de Trabalho Econômico, que ocorre em meados de dezembro. Esse será o evento a ser observado com atenção pelo mercado. 

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