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SÃO PAULO – “Uma década em que nada de bom aconteceu”. Essa, e outras frases igualmente pessimistas, deram o tom da coluna escrita por Paul Krugman ao final do mês passado no NY Times, intitulada “O Grande Zero”, na qual o famoso economista analisa a trajetória da economia e das bolsas norte-americanas nos primeiros dez anos do século XXI.
Professor da Universidade de Princeton e da London School of Economics, autor de mais de 25 livros, colunista de destaque do jornal nova-iorquino, ganhador do Prêmio Nobel em 2008…o currículo de Krugman é tão impressionante quanto extenso. Não a toa, seu “Grande Zero” não demorou muito para ganhar repercussão no mundo.
Para Krugman, foram dez anos de quase nula criação de empregos; de vertiginosa queda nos preços dos imóveis; de grande descrédito do mercado financeiro; e, talvez principalmente, de zero ganho nos mercados de ações em Wall Street, mesmo ignorando o impacto da inflação. Tudo verdade. Mas para alguns, o pessimismo em torno desses dez últimos anos ignora elementos mais complexos e beira o lugar-comum: é preciso desmistificar muito do que se vem falando por aí sobre a tal “Década Perdida”.
O pacote por dentro
A primeira década do século pode ter começado com uma crise – a das companhias pontocom – e ter terminado em outra crise – do subprime -, mas entre as duas, muito se passou. Este é um dos principais pontos criticados pelos analistas: em um período tão heterogêneo, analisar somente os números fechados no acumulado da década pode levar a conclusões precipitadas.
Para Tom Sowanick, co-presidente da Omnivest Group, é preciso dividir a década passada em dois principais períodos: um, de 2000 a 2002; o outro, de 2003 a 2009. No primeiro, os papéis norte-americanos amargaram um declínio de mais de 37%, em uma trajetória negativa ocasionada sobretudo pelo colapso da bolha das pontocom e pelo impacto dos ataques terroristas de 11 de setembro.
Nos sete anos seguintes, o panorama não poderia ser mais contrastante: as bolsas em Wall Street acumularam ganhos em torno de 40%. Embora o número esteja longe do reportado em outros mercados pelo mundo, notadamente pelos emergentes, ainda assim, serve para provar que “julgar todo um pacote apenas pela embalagem” é tão tentador quanto enganoso.
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Desastrosa, talvez; surpreendente, não
Em uma das passagens de sua coluna, Krugman afirma que “nenhuma de todas as expectativas otimistas que deveríamos ter em 1999 se concretizaram”. Mas para alguns analistas, o fraco desempenho das bolsas e da economia norte-americana não teve nada de surpreendente.
Muito antes do congelamento dos fundos do BNP Paribas, da quebra do Bear Stearns ou de outros episódios emblemáticos que marcaram o começo da crise – que começou como “do subprime”, passou a “financeira” e termina como “econômica” -, não era difícil encontrar no mercado aqueles que alertavam para os efeitos danosos de uma concessão de crédito desenfreada e flexibilização monetária excessiva.
O mesmo vale para a crise das pontocom, gerada pelo otimismo desmedido dos investidores em relação às novas companhias de tecnologia e internet. Mas quando tudo vai bem, não é incomum a maioria ignorar as vozes minoritárias mais cautelosas. Uma delas foi a de Robert Shiller, professor da Universidade de Yale.
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Shiller é amplamente conhecido, entre outras contribuições, pelo desenvolvimento de um modelo que compara a relação entre lucro e cotação com sua média histórica, de um múltiplo estável em 16,34. Quando esta relação está muito acima do registrado nos anos e décadas passadas, é sinal de forte correção por vir – ainda que talvez não se saiba exatamente quando. O gráfico abaixo mostra o desempenho do modelo de Shiller desde 1880, e o que se nota ao final de 1999 é impressionante: uma desproporção muito maior à apresentada nos tempos antecedentes à Crise de 1929.
Década perdida? Não para os emergentes
Por fim, se a primeira década do século XXI foi de fato uma década perdida para economia e bolsas norte-americana, a outra parcela do mundo menos abastada vivenciou anos de ouro. Sowanick destaca, por exemplo, a diminuição do gap entre o PIB (Produto Interno Bruto) combinado das três maiores economias desenvolvidas – EUA, Japão e Alemanha, respectivamente – e do PIB conjunto do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). Em 1999, o montante do primeiro grupo era 6,8 vezes maior; agora, segundo os cálculos de Sowanick, a vantagem é de apenas 2,6 vezes.
“Este estreitamento ajuda a entender porque os mercados emergentes de ações tiveram performance tão superior aos mercados desenvolvidos na última década”, afirma Sowanick. Mais do que um fato efêmero, para ele, os números comprovam uma tendência que veio para ficar.
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“O ininterrupto crescimento das classes médias junto ao desenvolvimento da interconectividade dessas regiões permitirá com que as economias emergentes continuem reportando impressionantes taxas de crescimento e que seus mercados sigam registrando performances muito superiores às dos mercados desenvolvidos nos próximos anos”, conclui.