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SÃO PAULO – A demora para fechar os contratos de longo prazo mostra uma situação de impasse entre fornecedores de minério de ferro e produtores de aço. Mais do que isto, mostra um mercado em transformação, em que tudo gira em torno das negociações spot. Mas uma mudança de paradigma parece estar bem próxima, e pode ser uma faca de dois gumes para as pretensões da Vale (VALE5,VALE3).
Rumores dão conta da entrada da Vale no mercado spot chinês. A importância desta manobra é inegável. Com a demanda pressionada e impossibilitada de firmar novos acordos de longo prazo, a brasileira vai onde o mercado está girando. Este movimento representa receitas e mais participação de mercado para a Vale, mas a preços mais baixos. Para entender os desdobramentos, primeiro é preciso entender o mercado spot.
O mercado à vista chinês é basicamente dominado pelos indianos. Foi criado pelos indianos, seguidos pelos australianos e a Vale agora parece estar decidida a entrar. Em sua criação, o chamariz era a oportunidade de vender abaixo do preço de longo prazo, como um mercado paralelo para suprir demanda em excesso. Agora é complemente o oposto, um mercado superofertado.
Mais receita, maior fatia, menor preço
Parece ser uma opção completamente plausível para a Vale no curto prazo. “A Vale viu como uma maneira de gerar uma atratividade, praticar preços no mercado spot, porque não adiantaria manter preços altos, preços de longo prazo, uma vez que não tinha demanda; então você entra com uma política de descontos, é igual varejo”, destaca analista do Banif.
Por outro lado, a disparidade de preços deixa a dúvida. “Não vemos razão para as três grandes venderem abaixo destes preços”, afirmou Alexander Hacking, do Citigroup, considerando os atuais valores praticados no mercado spot chinês. Mas além de tornar receita o que poderia virar estoque, a brasileira recupera participação de mercado na China.
Para se ter uma idéia, enquanto a Vale reduziu o volume de exportações para o país asiático no quarto trimestre do ano passado, as exportações indianas para a China quase dobraram de proporção.
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O outro lado da moeda
Esta comparação com os indianos, por outro lado, abre margem para outra interpretação. O mercado spot já dominado pelos indianos, o que explica a elevação de suas exportações para a China. No entanto, a qualidade do minério de ferro indiano é limitada, não por desejo próprio, mas por determinação do Estado.
Nesta disputa, entra em jogo o principal diferencial do produto da Vale, a qualidade. “Uma vez ela migrando para disputar com minérios abaixo de 62%, o diferencial dela de qualidade desaparece. Seu atrativo, ao menos de curto prazo, deixa de acontecer”, na avaliação do Banif. “É um tiro de curto prazo, para aumentar a receita e vender mais, mas pode afetar todo o diferencial competitivo da empresa”.
Mudança estrutural
Em volta de todo este debate, o modelo benchmark a cada dia parece perder mais espaço. Na falta de uma referência, as negociações spot se tornam o melhor termômetro deste mercado. Voltando um pouco no tempo, é algo semelhante ao que aconteceu com o petróleo na década de 1970, com exploradoras e refinarias passando dos contratos fixos para negociações à vista.
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“Acho que pode haver uma migração transitória, um modelo híbrido, de longo prazo versus spot. Você faria dois tipos de contratos, semelhantes aos praticados na década de 90 em que as usinas japonesas faziam com tonelagens diferentes. Acredito que pode ser uma solução intermediária fazer contratos core-flex com tonelagens maiores no mercado longo prazo e contratos menores para suprimento de quantidades a preço de mercado spot”, aposta o Banif.