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SÃO PAULO – Após anunciar o pagamento de dividentos, saldando uma dívida histórica, a Eletrobrás (ELET3, ELET6) está em foco no mercado nos últimos dias. Após a forte valorização de suas ações, os analistas divergem quanto ao impacto real do pagamento dos proventos nas ações da estatal, mas concordam que o movimento é um dos mais importantes na tentativa do governo de torná-la mais parecida com a Petrobras.
Nesta sexta-feira (29), a empresa voltou ao noticiário após a Folha de São Paulo publicar reportagem informando que o governo decidiu pela renovação das concessões do setor elétrico que vencem entre nos anos de 2015 e 2020, descartando a possibilidade de realizar um novo leilão. As elétricas deverão vigorar sob novas condições e com foco na diminuição das tarifas para os consumidores. A MP (Medida Provisória) sobre a questão está sendo finalizada.
Para o analista Marcos Severine, da Itaú Corretora, sem saber as condições da renovação ainda não é possível avaliar os impactos da medida, embora o mercado deva reagir positivamente na sessão. Os analistas Felipe Mattar, Sério Conti e Bruno Pascon, do Barclays, também esperam um melhor detalhamento, mas acreditam que a companhia deve sair beneficiada do evento.
Duas subsidiárias da Eletrobrás, Furnas e Chesf sofriam com a questão das concessões. No caso de Furnas, seis usinas têm o vencimento em 2017. Já a Chesf estava em situação ainda mais grave – 13 usinas, representando 90% do total, estavam sujeitas ao fim das concessões, que vencem em 2015.
Vale frisar que, no meio da tarde da sexta-feira, o secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Marcio Zimmermann, negou qualquer intenção do governo de prorrogar as concessões do setor de energia com vencimento entre 2015 e 2020: “Isso não está previsto em lei, não chegou a ser discutido em nenhum momento e eu sequer sei de onde tiraram esta informação”, disse à Agência Estado.
Setor elétrico
Apesar de não ter mostrado um excelente desempenho em 2009, e levando em conta que se trata de um setor defensivo, as empresas tiveram um resultado abaixo do Ibovespa. O IEE (Índice de Energia Elétrica) subiu 59%, enquanto o Ibovespa se valorizou 82,6% ao longo do ano.
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Além da desaceleração da economia, a queda nos preços em função dos altos índices pluviométricos e menor demanda de energia devem impactar de forma negativa nos resultados das empresas. A avaliação é do Banco Fator Corretora.
Segundo dados da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), em 2009 houve decréscimo de 1,1% no consumo total de energia. O segmento industrial foi o que mais contribuiu para a queda, em função da retração da atividade por conta da crise.
“Já a demanda interna se manteve aquecida, muito por conta das medidas tomadas pelo governo para minimizar os efeitos da crise, entre elas a redução seletiva de impostos, a redução dos juros e a expansão do crédito”, conforme consta na Resenha Mensal do Mercado de Energia Elétrica da EPE, publicada em 25 de janeiro.
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Confirmando a afirmação, o consumo residencial mostrou expansão de 6,2% em 2009 (maior variação positiva desde 1999), enquanto o consumo comercial cresceu 6,1%. Por outro lado, o consumo industrial teve retração de 8,0%. Entretanto, a EPE chama a atenção para uma recuperação ao longo do ano – enquanto no primeiro trimestre a queda foi de 12,1%, no quarto foi de apenas 1,0%.
Em 2010, espera-se recuperação nos volumes dos dois segmentos (industrial e comercial), e a expectativa é de crescimento de 9,4% no consumo frente ao registrado em 2009, chegando a 455,2 mil gigawatts-hora, ainda segundo dados da EPE. As perspectivas para o longo prazo também são positivas, com projeção de crescimento a taxa média de 5,2% ao ano entre 2010 e 2018.
Dividendos
Pendente desde a década de 1970, a Eletrobrás anunciou no dia 22 de janeiro o pagamento de dividendos atrasados. O Conselho de Administração da empresa aprovou a quitação do saldo da Reserva Especial de Dividendos, que atualizado totaliza R$ 10,3 bilhões, e a maioria é referente a dividendos de ações ordinárias.
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O pagamento será realizado em quatro parcelas anuais, de 2010 a 2013, vencendo no dia 30 de junho de cada ano, sendo remunerados pela variação da Selic. Acionistas que detiverem ações no dia 29 de janeiro terão direito ao pagamento, de cerca de R$ 11,36 por ação ordinária, e R$ 0,18 para as ações PNB.
Um dos pontos mais destacados pelos analistas é que a medida vai de encontro ao objetivo do governo de transformar a Eletrobrás em uma estatal como a Petrobras. Para a analista do UBS, Lilyanna Yang, depois da recuperação dos subsídios aos combustíveis e a ’Itaipuzação’ dos custos das usinas nucleares de Angra 1 e 2, o pagamento dos dividendos é uma das medidas mais importantes nesse sentido.
A analista questiona se não pode haver mais por vir para acelerar esse processo, mas pondera que muito do valor criado até agora é resultado de decisões políticas, e isto continuará sendo assim, em função da necessidade de renovação de concessões.
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Impacto do pagamento: decisão favorável aos minoritários…
A resposta do mercado ao anúncio do pagamento veio com expressiva valorização das ações. Com rumores durante os dias que antecederam o anúncio formal na sexta-feira, as ações encerraram a semana do dia 22 de janeiro disparadas como destaque de alta do Ibovespa. Enquanto as ordinárias subiram 16,7% no período, as PNB se valorizaram 12,97%.
Passada a euforia imediata, é a vez de analisar se o evento foi, afinal, positivo ou não para os acionistas das empresas. As opiniões dos analistas divergem ao debater a questão.
Para a Itaú Corretora, o evento é positivo, e o primeiro movimento favorável aos acionistas majoritários por parte da Eletrobrás. “É ainda melhor do que esperávamos, uma vez que os pagamentos serão feitos em dinheiro, e não em ações”, completam, afirmando que isso é muito positivo uma vez que não haverá diluição nem redução do free float.
Os analistas consideram positivo o anúncio feito em teleconferência pelo presidente da empresa, José Antonio Muniz, com a intenção de “fazer um hedge para as contas de Itaipu, para evitar transtornos com as oscilações cambiais”, uma vez que a estatal possui US$ 8,4 bilhões de recebíveis denominandos em dólar, e a captação – a empresa pretende que chegue a US$ 2 bilhões, volume recorde – é vista como positiva pelos analistas uma vez que vai mitigar os riscos.
“Nós esperamos um fluxo intenso de boas notícias em 2010 que devem continuar impulsionando a ação”, afirmam. Uma delas já foi dada, a migração da empresa para o Nível 2 de governança corporativa, cujo pagamento dos dividendos era o último requerimento necessário.
Uma possibilidade de follow-on ainda está fora de questão, mas o presidente da empresa não descarta um IPO entre as subsidiárias – Furnas ou Chesf, segundo os analistas do Itaú – visto pela equipe como positivo para os papéis da estatal.
…mas não agrega valor à empresa
Por outro lado, os analistas do BofA Merrill Lynch mostraram visão menos otimista com relação ao anúnio, afirmando que, para financiar o pagamento, a Eletrobrás poderá usar seu fluxo de caixa, o que não trará nenhum valor para a empresa.
”Nós não vemos impacto nos ganhos da empresa, uma vez que a despesa de juros reduzida pelo pagamento dos dividendos retidos será ofuscada por uma receita também menor de juros”, explicam.
Os analistas também vêem risco substancial no corte de custos potencial da Eletrobrás, e se mantém “preocupados com relação a um possível retorno abaixo da média de seus novos investimentos”.
A equipe manteve, assim, sua recomendação abaixo da média do mercado, refletindo a exposição à regulação incerta do mercado, alto risco com relação a concessões e eficiência nas operações menor que os pares do mercado.
Valuation
Para Yang, a ação ainda está cara em termos de P/L, mas avaliada de forma justa pelo modelo de fluxo de caixa descontado. Embora a recomendação do UBS seja neutra, a instituição afirma que está mais otimista com relação ao papel e ao setor após o anúncio.
O UBS acredita que a empresa venderá energia a R$ 70/MWh ou mais, um preço considerado bom e que sustenta sua visão otimista. Entretanto, Yang não acredita que a decisão será feita ainda durante o mandato de Lula, e nesse meio tempo a questão de disciplinar as despesas de capital continua pendente.