Onde está o “estresse” da inadimplência? Morgan vê pressão mais local e não sistêmica

Dados do BC mostram que o crédito ao consumidor no Brasil não está passando por um estresse amplo e sistêmico

Felipe Moreira

Ativos mencionados na matéria

Sede do Banco Central, em Brasília - 
11/06/2024 (Foto:
REUTERS/Adriano Machado)
Sede do Banco Central, em Brasília - 11/06/2024 (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Publicidade

O Morgan Stanley avaliou que os novos dados do Banco Central, com ajuste por produto e pela Resolução 4.966, mostram que o crédito ao consumidor no Brasil não está passando por um estresse amplo e sistêmico, mas sim por uma deterioração setorial e concentrada em alguns produtos específicos, com destaque para o agronegócio.

O banco reforça que, embora a tendência ainda seja de alta na inadimplência ajustada, a leitura correta do cenário muda de um problema generalizado para um quadro mais localizado, o que altera a percepção de risco para bancos e fintechs no país.

Segundo o banco, a mudança regulatória alterou a forma de classificação e baixa de créditos problemáticos, o que inflou os índices de inadimplência acima de 90 dias e reduziu a comparabilidade com o histórico. Com isso, parte relevante da piora recente reflete um efeito contábil, e não necessariamente deterioração do comportamento dos tomadores.

Ferramenta do InfoMoney

Baixe agora (e de graça)!

Os cálculos por produto reforçam essa leitura. Cartões de crédito e financiamentos de veículos mostram um quadro mais benigno após os ajustes da Resolução 4.966, apesar de serem segmentos de grande porte e alta visibilidade. O agronegócio aparece como a principal fonte de deterioração efetiva, enquanto os empréstimos pessoais seguem exigindo maior monitoramento, podendo refletir tanto mudanças de mix quanto enfraquecimento mais amplo dos tomadores.

O banco ressalta ainda que a análise cobre apenas os cinco produtos com dados ajustados disponíveis em nível detalhado, sem incluir outras linhas relevantes como hipotecas, cheque especial e renegociações de crédito, o que limita a leitura completa do портfólio de crédito ao consumidor.

Dados por produto

O Morgan Stanley também detalhou como os novos dados ajustados afetam a leitura por modalidade de crédito. Para o banco, cartões de crédito apresentam um quadro significativamente mais saudável após os ajustes da Resolução 4.966, indicando que boa parte da piora observada decorre de mudanças contábeis, e não de uma deterioração efetiva da qualidade do crédito.

Nos empréstimos pessoais, a deterioração é considerada real, mas pode refletir mais uma mudança na composição do mercado, com maior participação de instituições financeiras voltadas a clientes de maior risco, do que um enfraquecimento generalizado dos tomadores.

Já o crédito consignado mostra sinais de deterioração efetiva, concentrados principalmente no segmento privado. O Morgan Stanley avalia que os primeiros participantes desse mercado podem ter subestimado o risco dessa modalidade.

No caso dos financiamentos de veículos, os novos dados reduzem significativamente as preocupações recentes do mercado, mostrando que a maior parte do aumento da inadimplência decorre dos efeitos da Resolução 4.966 e não de uma piora estrutural da carteira.

Continua depois da publicidade

O agronegócio, por sua vez, continua sendo a principal fonte de estresse no sistema. Segundo o banco, é nesse segmento que há evidências mais claras de deterioração da qualidade dos ativos, em linha com a piora observada nas carteiras de crédito rural de instituições como o Banco do Brasil (BBAS3).