Ofertas públicas: mais uma oportunidade de vender na alta e comprar na baixa

Investidores utilizam follow-on para adquirir papéis mais baratos e realizar lucros; mas há riscos na estratégia

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SÃO PAULO – Já não restam dúvidas sobre a retomada das ofertas de ações no Brasil. São cerca de 20 operações registradas na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) neste ano, a maioria desde junho – com exceção da distribuição secundária da Redecard, que aconteceu em março, período ainda de grande agitação do mercado devido à crise financeira internacional.

Se a recuperação está saindo conforme as previsões, o desempenho das ofertas tem se mostrado mais surpreendente. De um lado, as performances dos IPOs (Initial Public Offerings) nas estreias se distancia do esperado – vide o primeiro dia de negociação das units do Santander, que terminaram com queda de 3,7%. De outro, as precificações das ofertas subsequentes (follow-on) estão ficando aquém do preço dos papéis já negociados em bolsa.

Embora essa seja uma situação negativa para as empresas, devido à menor captação das operações, ela pode gerar oportunidades para os investidores, especialmente no caso de acionistas minoritários. Nas últimas ofertas subsequentes, observou-se um padrão que inclui a desvalorização dos papéis durante o prazo de reserva, a precificação abaixo da cotação de mercado e a continuidade da baixa no dia do encerramento do bookbuilding.

“A oferta é feita pelo procedimento de bookbuilding, em que você pega uma média de preços um período para trás. Temos um processo em que a bolsa caiu muito e está em recuperação. Então, quando você tira a média, acaba tirando um preço referencial menor”, explica Pedro Galdi, analista da SLW Corretora. “Em um primeiro momento, quando a empresa anuncia a oferta, o preço acaba caindo, porque você imagina que o referencial será menor. A partir do momento em que o papel passa a ser negociado, ele começa a ter vida própria, recuperando-se conforme o momento da bolsa”.

Desempenho padrão

Para exemplificar melhor, basta observar a rota das ações da CCR, que estrearam nesta sexta-feira (23) na BM&F Bovespa. Os papéis da companhia terminaram o dia 19 cotados a R$ 35,60 – no dia seguinte acabaria o prazo de reservas para os investidores de varejo. Dois dias depois, as ações objeto da distribuição foram precificadas em R$ 33,00, enquanto a cotação caía 1,04%, para R$ 33,25.

O histórico de cotações dos papéis da Rossi Residencial durante a oferta de ações mostra um padrão semelhante. Um dia antes do período de reservas dos papéis terminar, a cotação de fechamento foi de R$ 14,60. Logo depois, as ações foram precificadas em R$ 12,50, em um pregão marcado por queda de 6,67% no valor dos papéis já negociados na Bolsa, que atingiram R$ 13,30.

Assim como as duas empresas, várias outras podem ser citadas como exemplo. Mais recentemente, no dia 20, a oferta da Brookfield foi precificada em R$ 6,80, abaixo da cotação de R$ 7,01, alcançada após a desvalorização de 6,53% registrada no mesmo pregão. Quatro dias antes, na véspera do fim do período de reservas, os papéis eram negociados a R$ 7,90.

Oportunidade

Essa situação pode ser um prato cheio para os investidores. “O mecanismo do mercado, via de regra, é esse: quando uma empresa anuncia que vai fazer oferta pública, o mercado bate no papel. Quem está com lucro realiza e fica na expectativa de entrar na oferta a um preço menor. Na outra ponta, existem os coordenadores da oferta, que tentam puxar o papel para cima, porque quanto mais dinheiro a empresa captar, melhor para a empresa e para eles, que recebem uma comissão em cima do valor total da operação”, comenta Edgard Tamaki, estrategista da TCX Consultoria.

O investidor que possuía papéis da Brookfield, por exemplo, e vendeu no dia 19 ao preço de fechamento de R$ 7,50, entrou na oferta pública pagando R$ 6,80 pelos mesmos ativos. “Essa pessoa se deu bem”, avalia Tamaki. Ele explica que se a pessoa já tem o papel de uma empresa que está ofertando novas ações, ela pode vendê-lo com certo lucro e esperar o lançamento para poder comprar na oferta pública, possivelmente a um preço menor.

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“Ou eventualmente comprar no dia da estreia em bolsa, porque nesse dia sempre vai ter aquele pessoal que quer flippar: entra achando que vai explodir o papel e na verdade são tantas pessoas que entram com esse objetivo de vender logo na abertura que, se o preço decepciona, o papel acaba vindo mais para baixo”, argumenta o estrategista, acrescentando que essa situação foi vista na oferta do Santander.

Por outro lado, há riscos consideráveis nessa estratégia, relacionados principalmente com as incertezas. A começar pelo fato de que os papéis podem ser precificados acima da cotação do mercado ou que a ação pode sofrer valorização no pregão de estreia. Ou, como explica Luiz Augusto Pacheco, analista da Omar Camargo Corretora, “o problema é conciliar o que você tinha – e vendeu – e conseguir comprar na mesma quantidade na oferta, porque você não sabe como vai ser o rateio”.

As próximas

Apesar de ainda haver uma perspectiva positiva em relação às ofertas de ações no Brasil, os investidores devem ficar atentos aos desdobramentos de questões atuais, como a cobrança do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) no câmbio de entrada de investimentos estrangeiros em renda fixa e ações. De acordo com Edgard Tamaki, como os estrangeiros têm ficado com a maior parte da participação nas ofertas públicas, vale observar qual será a reação desses investidores em relação à restrição. Segundo o estrategista da TCX, pode ser que a medida assuste um pouco e arrefeça o apetite, deixando o mercado meio de lado.

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Além da esfera econômica, os investidores devem avaliar também as notícias corporativas e as expectativas por novas ofertas. Atualmente há muitas operações do tipo em análise “e não tem dinheiro para cobrir tudo”, conforme frisa Luiz Augusto Pacheco, da Omar Camargo. Isso significa que as pessoas têm que escolher em que ofertas irão entrar, o que reduz a demanda. Além disso, Pacheco ressalta que a procura por outras distribuições pode ser prejudicada também porque há muitos investidores esperando a oferta da Petrobras. “Muita gente prefere, por exemplo, aumentar a participação na Petrobras do que entrar em outra empresa”.

Para os que ainda assim desejarem testar a estratégia, há mais empresas na fila das ofertas subsequentes, incluindo o frigorífico Marfrig e a elétrica Energias do Brasil. No caso dos IPOs, os nomes de destaque são JBS USA, Aliansce e Direcional Engenharia.