Oásis virou miragem? ENAMED abala educacionais e analistas estimam impacto para ações

Analistas veem impacto proporcional maior para Afya, Yduqs e Ser, mas ainda enxergam espaço para contestação de notas

Lara Rizério

Ativos mencionados na matéria

(Pixabay/Pexels)
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Na última segunda-feira (19), as ações de empresas do setor de educação listadas na B3 registraram fortes quedas após a divulgação de notas abaixo do esperado no ENAMED, indicador que avalia o desempenho de cursos e instituições de ensino superior.

Ser Educacional (SEER3) e Ânima Educação (ANIM3) lideraram as perdas do setor no pregão, refletindo a reação negativa dos investidores ao impacto reputacional e ao risco de pressão sobre captação de alunos, evasão e rentabilidade futura. A SEER3 fechou em queda de 6,7% e ANIM3 perdeu 6,48%.

Na B3, entre os papéis que fazem parte do Ibovespa, Cogna (COGN3) fechou em baixa de 1,91% e Yduqs (YDUQ3) caiu 1,9%.

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“O mercado interpreta que resultados fracos no exame podem dificultar o crescimento orgânico, afetar indicadores regulatórios junto ao MEC e limitar reajustes de mensalidades, além de elevar a necessidade de investimentos adicionais em qualidade acadêmica”, aponta a Genial Investimentos.

Do total, 204 cursos obtiveram notas entre 3 e 5, enquanto 99 cursos, ou 33%, ficaram na faixa insatisfatória entre 1 e 2. Apenas um curso não recebeu nota.

Entre os cursos com notas 1 e 2, há exposição relevante de grupos listados como Yduqs, Cogna, Ânima, Afya, Ser Educacional, Cruzeiro do Sul (CSED3) e Vitru (VTRU3).

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“Proporcionalmente, Yduqs e Ser aparecem como os mais afetados, com até 15% e 13% das vagas potencialmente impactadas, respectivamente”, avalia o BTG Pactual.

O ENAMED é comparável ao ENADE, mas é específico para medicina e avalia apenas o desempenho dos alunos em uma única prova. A participação é obrigatória para formandos, sem exigência de nota mínima para obtenção do diploma.

Na avaliação dos analistas, os sinais do MEC indicam possíveis restrições de vagas conforme as notas, mas a legislação formal não prevê penalidades econômicas automáticas. Diante disso, grupos educacionais tendem a buscar vias administrativas e judiciais para garantir período de transição e tempo de adaptação.

O Morgan Stanley aponta que as vagas de Medicina vinham sendo o “oásis” do setor de educação — com alta ocupação, forte poder de precificação e margens elevadas. Contudo, ressalta, o crescimento acelerado do número de vagas começa a enfraquecer a economia desses cursos e a elevar o escrutínio regulatório. Assim, questiona, no título do seu relatório, se “o oásis do setor de tornou miragem”.

Olhando para as empresas da Bolsa, estima que Afya, Yduqs e Ser sejam as mais expostas, com impacto de receita de 0,8% a 1% no primeiro ano, caso as medidas sejam implementadas como proposto.

Segundo o Bradesco BBI, se confirmados, Yduqs e Afya devem ser os mais impactados de sua cobertura, com uma queda de 6% em seu Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) no vencimento (ou seja, impacto total em seis anos), assumindo que não melhorem seu desempenho no ENAMED.

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“Observamos que os resultados apresentaram algumas divergências em relação aos números preliminares divulgados pelo MEC em dezembro, segundo as empresas. As sanções do MEC podem começar a surtir efeito já no segundo semestre de 2026, mas o impacto seria pequeno, visto que a maioria das novas avaliações anuais ocorre no primeiro semestre”, avalia a equipe de análise do BBI.

A equipe de análise ainda observa que (i) as sanções ainda não foram formalizadas por meio de uma portaria ou medida similar, (ii) o ENAMED é uma avaliação anual e as empresas podem melhorar seus resultados no próximo ciclo e (iii) a implementação das sanções pode ser adiada para a próxima avaliação, a fim de permitir que as empresas tenham mais tempo para se preparar para os novos requisitos.

Formas de contestação

Os impactos podem se acumular ao longo do tempo caso a qualidade não melhore, avalia o Morgan, e podem se intensificar a depender de medidas regulatórias adicionais.

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Além das ações diretas, notas baixas no ENAMED podem carregar efeitos de imagem, mesmo que resultados sejam posteriormente revisados. O banco também destaca que programas recém-abertos não foram avaliados (ainda não têm turma formando), o que pode implicar impactos adicionais no futuro, à medida que esses cursos entrem no ciclo de avaliação.

A implementação pode ser adiada ou revisitada, dado o espaço para recursos administrativos e ações judiciais. O fato de este ser o primeiro ano do ENAMED (embora o ENADE já existisse, com menor frequência e outro foco) pode ser usado pelo setor para argumentar que restrições mais duras deveriam atingir sobretudo os “reincidentes” em baixo desempenho, avalia o banco.

O Morgan destaca que há pouco incentivo para o aluno maximizar desempenho. Na prática, o aluno se forma desde que compareça à prova, independentemente da nota. Assim, o maior incentivo para ir bem fica restrito aos candidatos que pretendem usar o resultado na seleção de residência médica. Dado o número limitado de vagas de residência, essa motivação é mais relevante para um subconjunto de estudantes (muitas vezes concentrado em instituições públicas), o que pode ajudar a explicar o contraste entre os resultados muito fortes de faculdades públicas e o desempenho mais fraco em diversas instituições privadas, avalia o banco.

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Enquanto isso, instituições questionam notas e metodologia. As faculdades relatam que os resultados consolidados por instituição divulgados não batem totalmente com as notas individuais e demais dados recebidos em dezembro. O INEP reconheceu uma discrepância na comunicação, mas reafirmou a validade dos números publicados; ainda assim, são plausíveis novos questionamentos e pedidos de esclarecimento.

Uma vez que os cursos recém-criados não foram avaliados porque ainda não possuem turma concluinte, participantes do setor têm apontado a falta de isonomia, já que esses cursos ficam, na prática, fora do alcance da avaliação — e de eventuais restrições — até que tenham sua primeira turma formando.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.